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Flip terá poemas de pessoas em situação de rua do Rio

Oficinas coordenadas por Leo Motta geraram a 'Revista da Calçada', com mais de 640 participantes, a ser distribuída gratuitamente.

Agência O Globo - 22/07/2026
Flip terá poemas de pessoas em situação de rua do Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A fome, o luto, a saudade da família e até as alegrias vividas no passado por pessoas em situação de rua compõem uma coletânea de poesias a ser apresentada na Feira Literária Internacional de Paraty, a Flip, que começa nesta quarta (22) na cidade da Costa Verde fluminense. Os poemas de mais de 640 autores de 16 abrigos do Rio de Janeiro estão na “Revista da Calçada – quando os invisíveis escrevem a cidade”. Nesta sexta (24), às 17h30, a Casa da Leitura e do Conhecimento receberá uma roda de conversa com Leo Motta, organizador do projeto.

Nos 46 textos produzidos entre junho e setembro do ano passado, estão registradas as marcas do abandono relatado por pessoas LGBTQIAP+ que não receberam acolhimento, a dor do afastamento dos filhos por mulheres que, embora tenham dedicado a vida ao cuidado, não receberam o mesmo amparo, a religiosidade e as tentativas de reconstrução de suas trajetórias. Autor da trilogia “Há Vida Depois das Marquises”, sobre a realidade de quem vive nas ruas, Motta abriu espaço para que pessoas que enfrentam a mesma experiência contassem suas próprias histórias e revelassem suas potencialidades.

— Esta é a primeira revista de população de rua do país. Os exemplares serão distribuídos aos participantes da Flip. As pessoas que estão nas ruas têm feridas de vínculos rompidos. Criamos as poesias para elas escreverem ou dizerem o que normalmente não conseguem expressar. As poesias da revista são coletivas. Uma delas fizemos chorando. Ela trata do que mais fere quem está na rua: a fome. Veio para nós o sentimento de nos vermos olhando para uma lixeira com a esperança de ali ter alguma coisa para comer — diz Motta, de 45 anos.

A edição mais recente da revista foi lançada na Bienal do Livro do Rio, em 2025. A ação integra o projeto Super-Ação, criado por Motta em parceria com a secretaria municipal de assistência social do Rio. Nas ruas, Motta lidou com a dependência química dos 14 aos 33 anos. A literatura deu a ele motivação para superar as adversidades. Acolhido por uma instituição dedicada à recuperação de dependentes químicos, ele passou a relatar sua experiência nas redes sociais. Em um mês, saltou de dez para mais de 30 mil seguidores e enxergou a possibilidade de construir seu novo caminho. Atualmente, o escritor mora em Paquetá, onde também trabalha como agitador cultural do bairro.

Na “Revista da Calçada”, tornaram-se autoras pessoas acolhidas por abrigos e albergues do Centro, de Realengo, da Ilha do Governador, de Bonsucesso, da Taquara, da Freguesia, entre outros. Em Paraty, na Flip, parte do público será composta por outras mulheres e homens em fase de superação.

Com a visibilidade do projeto, que já passou por outros pontos de cultura, entre eles o Parque Municipal Glória Maria, em Santa Teresa, três pessoas já conseguiram realocação profissional nos ramos da hotelaria e de mobilidade urbana. Em agosto, mais oportunidades virão. No dia 19 de agosto, Dia Nacional de Luta pelos Direitos da População em Situação de Rua, a Biblioteca Parque terá uma apresentação teatral e um recital de poesias da revista.

— Ontem, eu estava falando com minha mãe, Yara Cristina, sobre essa oportunidade num evento internacional, a Flip. Me lembrei de uma frase que eu disse a ela ao sair da rua: “Você não vai mais sentir vergonha de mim”. Depois que desliguei o telefone, chorei. Fui criado num ambiente machista em que homem não chora. Hoje, posso ter tranquilidade até para emocionar — diz Leo Motta, que também faz parte da Coordenadoria Técnica de Programas para População em Situação de Rua.