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Vagas só por celular: novo Rio Rotativo começa sexta-feira pela Lagoa; saiba como o sistema vai funcionar

Guardadores vão continuar nas ruas, mas para fiscalizar se o pagamento digital foi feito ou se o motorista excedeu o tempo de permanência

Agência O Globo - 15/07/2026
Vagas só por celular: novo Rio Rotativo começa sexta-feira pela Lagoa; saiba como o sistema vai funcionar
Rio Rotativo

O celular, tão essencial no dia a dia, ganhará mais uma função: começa na sexta-feira o Rio Rotativo Digital, que eliminará os antigos talões e qualquer forma de pagamento em dinheiro. Os motoristas terão que baixar o aplicativo Jaé no telefone para conseguir ocupar uma vaga e pagar por ela. O projeto-piloto será implantado nos estacionamentos às margens da Lagoa, que hoje são fechados por cancelas e chegam a cobrar R$ 75. Agora, o valor será de R$ 2 a cada duas horas. Os pagamentos digitais poderão ser feitos via Pix, cartão de crédito ou com o saldo disponível no Jaé — o vale-transporte não será aceito.

Fim dos flanelinhas?

Governo do Estado:

Os guardadores vão continuar nas ruas, mas para fiscalizar se o pagamento digital foi feito ou se o motorista excedeu o tempo de permanência. Como eles não têm poder de polícia, a multa — de R$ 195,23 — será lavrada por agentes de trânsito de forma remota. A tarifa está mantida em R$ 2, mas há novidades em relação ao modelo em papel, em vigor desde os anos 1990. Foi estabelecido um prazo de até seis horas diárias para usar a mesma vaga. Passado esse período, o motorista só poderá voltar a estacionar naquele lugar depois de pelo menos uma hora.

Mais rotatividade

Hoje, muitos motoristas compram vários talões para permanecer numa mesma vaga o dia inteiro. Esse expediente é muito comum na orla da Zona Sul, onde barraqueiros e ambulantes costumam ficar horas no mesmo ponto.

— Esse limite de tempo foi fixado porque queremos que as vagas sejam de fato rotativas e não cativas como tem acontecido — disse o secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes.

Vídeo:

Ainda não há data para que as cerca de 35 mil vagas públicas na cidade migrem para o sistema digital. Todas estão sendo recadastradas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio). Contudo, já foram definidas prioridades para os próximos meses: as orlas da Zona Sul, da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes, além do Centro. E também a Grande Tijuca e o entorno do estádio do Maracanã. Na maior parte dos estacionamentos, a operação será das 7h às 19h. Mas, em regiões com grande demanda, o período pode se estender até as 23h, como na Lagoa.

São 667 vagas no projeto-piloto ao longo das avenidas Borges de Medeiros e Epitácio Pessoa. Elas ficam nas proximidades dos clubes Caiçaras e Piraquê e dos parques das Taboas, dos Patins e do Cantagalo. Até ontem, eram exploradas por uma empresa privada que não teve o contrato renovado pelo município e que, em alguns pontos, cobrava por hora R$ 20, nos dias úteis, e R$ 18, nos fins de semana.

A prefeitura definiu que apenas pessoas filiadas ao Sindicato dos Guardadores de Automóveis do Estado (Singaerj) ou à Associação Nacional dos Guardadores e Lavadores de Automóveis, Congêneres e Afins (Anglaca) vão poder atuar na fiscalização, recebendo R$ 1,40 por tíquete vendido. Eles serão identificados por coletes numerados, com uma mensagem informando que não recebem dinheiro e que os pagamentos só podem ser realizados por meio digital.

Vedação:

— O Rio Rotativo Digital é o fim dos talões e daqueles flanelinhas que achavam que podiam extorquir qualquer valor da população — disse o prefeito Eduardo Cavaliere, por meio das redes sociais.

A prefeitura afirma que a repressão aos flanelinhas ilegais será feita por agentes da Secretaria de Ordem Pública ou outras autoridades.

— Para auxiliar na fiscalização, estamos desenvolvendo uma funcionalidade no Jaé a ser implantada em outro momento, em que o guardador ou o motorista poderá denunciar casos de extorsão ou outros crimes. A repressão pode não ser na mesma hora, mas vai ajudar no planejamento de operações — acrescentou Jorge Arraes.

O fim das cobranças extorsivas é o que a população espera do novo sistema. A diretora da Associação de Moradores da Fonte da Saudade (Amafonte), Neli Goston, de 71 anos, conta que flanelinhas chegam a cobrar R$ 100 para o motorista estacionar nas vagas do canteiro central da Avenida Epitácio Pessoa, que não foi incluída no projeto-piloto.

— Ou paga, ou tem o carro riscado. É perigoso — disse.

A redução do preço foi elogiada:

— Atualmente pago de R$ 700 a R$ 800 por mês por uma vaga. É um valor elevado e não me sinto seguro, pois não há câmeras de monitoramento ou fiscais — diz o proprietário de uma distribuidora de gelo que costuma parar o caminhão no Parque das Taboas e pediu para não ser identificado.

Ontem à tarde, a prefeitura começou a implantar a nova sinalização indicativa das vagas. Ao todo, vão trabalhar na Lagoa 50 guardadores, que passarão por um treinamento amanhã. A fiscalização funcionará da seguinte forma: com o próprio celular, eles vão enviar, por meio de uma funcionalidade disponível apenas para eles no aplicativo Jaé, três fotos que mostram a placa do veículo, o local onde foi tirada e algum outro detalhe da cena. Em alguns lugares onde moradores, portadores de deficiência e idosos têm prioridade, uma foto do cartão de identificação deve ser feita.

O presidente do Singaerj, Moises Trajane, diz que, entre os guardadores, ainda há dúvidas sobre o sistema:

— A gente sabia que a tecnologia viria, mas tinha medo de os guardadores legalizados ficarem desempregados. A novidade sempre preocupa, mas a categoria está contemplada.

Outras tentativas

Trajane, no entanto, acha excessivo o total de guardadores mobilizados para o projeto-piloto. Na Lagoa, com os preços praticados pela antiga operadora, a demanda era baixa, o que pode mudar com a redução do preço para R$ 2.

— Ao todo, temos 25 vagas, mas durante a semana o número de carros que param por aqui não chega a dez. Nos fins de semana, temos uns 20 — contou um guardador que trabalhava ontem no Parque das Taboas.

Essa não é a primeira vez que a prefeitura tenta reorganizar o sistema público de vagas. Em 2009, a Embrapark foi contratada para operar o que definiu como Área Azul, com 9.049 vagas em ruas de oito bairros da Zona Sul (Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Jardim Botânico, Gávea e Lagoa). Mas a empresa não conseguiu levar o projeto adiante por questões técnicas e deixou o sistema em 2014. Em 2001, o município decidiu que qualquer pessoa poderia comprar os tíquetes diretamente — em blocos com 50 talões cada — por R$ 0,40 a unidade. Geralmente, os clientes são os guardadores vinculados ao sindicato e à associação.

Segundo Arraes, a receita mensal do Rio Rotativo para a prefeitura ficou em R$ 208 mil no mês passado. Ele evitou projeções sobre quanto o novo sistema vai render.

* Estagiária sob a supervisão de Leila Youssef