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Vagas de rua no celular: Rio Rotativo Digital começa nesta sexta-feira na Lagoa
Motoristas pagarão estacionamento pelo celular, e guardadores fiscalizarão o cumprimento da tarifa.
O celular, tão essencial no dia a dia, ganhará mais uma função: começa nesta sexta-feira o Rio Rotativo Digital, que eliminará os talões antigos e qualquer forma de pagamento em dinheiro. Os motoristas deverão baixar o aplicativo Jaé no telefone para conseguir ocupar uma vaga e pagar por ela. O projeto piloto será implantado em estacionamentos às margens da Lagoa, que atualmente são fechados por cancelamentos e chegam a cobrar R$ 75. Agora, o valor será de R$ 2 a cada duas horas. Os pagamentos digitais poderão ser feitos via Pix , cartão de crédito ou com o saldo disponível no Jaé — o vale-transporte não será aceito.
Os guardas continuarão nas ruas, mas apenas para fiscalizar se o pagamento digital foi realizado ou se o motorista exceder o tempo de permanência. Como eles não têm poder de polícia, uma multa — de R$ 195,23 — será lavrada por agentes de trânsito de forma remota. A tarifa permanece em R$ 2, mas há novidades em relação ao modelo em papel, em vigor desde os anos 1990. Foi estipulado um prazo de até seis horas diárias para usar a mesma vaga. Após esse período, o motorista só poderá voltar a estacionar naquele local depois de pelo menos uma hora.
Mais rotatividade
Atualmente, muitos motoristas adquirem diversos talões para ocupar uma mesma vaga o dia inteiro. Esse expediente é comum na orla da Zona Sul, onde barraqueiros e ambulantes costumam permanecer horas no mesmo ponto.
— Esse limite de tempo foi estabelecido porque queremos que as vagas sejam de fato rotativo e não cativas como tem acontecido — afirmou o secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes.
Ainda não há dados definidos para que cerca de 35 mil vagas públicas da cidade migrem para o sistema digital. Todas sendo recadastradas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio). No entanto, foram lógicas prioridades para os próximos meses: as orlas da Zona Sul, da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes, além do Centro. Na grande parte dos estacionamentos, a operação ocorrerá das 7h às 19h, mas em regiões de alta demanda, o período pode se estender até as 23h, como na Lagoa.
São 667 vagas no projeto-piloto ao longo das avenidas Borges de Medeiros e Epitácio Pessoa. Eles ficam nas áreas externas dos clubes Caiçaras e Piraquê, e dos parques das Taboas, dos Patins e do Cantagalo. Até ontem, eram exploradas por uma empresa privada que não teve o contrato renovado pelo município e que, em alguns pontos, cobrava R$ 20 por hora nos dias úteis e R$ 18 nos fins de semana.
A prefeitura determinou que apenas pessoas filiadas ao Sindicato dos Guardadores de Automóveis do Estado (Singaerj) ou à Associação Nacional dos Guardadores e Lavadores de Automóveis, Congêneres e Afins (Anglaca) poderão atuar na fiscalização, recebendo R$ 1,40 por tíquete vendido. Eles serão identificados por coletes numerados, que possuem uma mensagem informando que não recebem dinheiro e que os pagamentos devem ser realizados apenas por meio digital.
— O Rio Rotativo Digital representa o fim dos talões e daquelas flanelinhas que perderam que poderiam extorquir qualquer valor da população — declarou o prefeito Eduardo Cavaliere em suas redes sociais.
A prefeitura afirma que a repressão às flanelinhas ilegais será feita por agentes da Secretaria de Ordem Pública ou outras autoridades competentes.
— Para auxiliar na fiscalização, estamos desenvolvendo uma funcionalidade no Jaé, a ser implantada em outro momento, permitindo que o salvor ou motorista denuncie casos de extorsão ou outros crimes. A repressão pode não ocorrer imediatamente, mas será útil no planejamento de operações — acrescentou Jorge Arraes.
O fim das cobranças extorsivas é uma das expectativas da população em relação ao novo sistema. A diretora da Associação de Moradores da Fonte da Saudade (Amafonte), Neli Goston, de 71 anos, relata que flanelinhas chegam a cobrar R$ 100 para que motoristas estacionem nas vagas do canteiro central da Avenida Epitácio Pessoa, que não está incluído no projeto-piloto.
— Ou paga, ou tem o carro arriscado. É perigoso — afirmou.
A redução do preço foi elogiada:
— Atualmente, pago entre R$ 700 e R$ 800 por mês por uma vaga. É um valor elevado e não me sinto seguro, já que não há câmeras de monitoramento ou fiscais — comentou o proprietário de uma distribuidora de gelo que costuma estacionar seu caminhão no Parque das Taboas e preferiu não ser identificado.
Ontem à tarde, a prefeitura começou a implantar uma nova sinalização indicativa de vagas. Ao todo, 50 guardadores estarão trabalhando na Lagoa, passando por um treinamento programado para hoje. A fiscalização funcionará da seguinte forma: com o próprio celular, eles enviarão, através de uma funcionalidade exclusiva para eles no aplicativo Jaé, três fotos: uma da placa do veículo, uma do local onde a foto foi tirada e outra com algum detalhe da cena. Em locais onde moradores, portadores de deficiência e idosos têm prioridade, uma foto do cartão de identificação deverá ser feita.
O presidente do Singaerj, Moises Trajane, comenta que ainda há dúvidas entre os guardadores sobre o sistema:
— A gente sabia que a tecnologia viria, mas tinha medo de que os guardadores legalizados ficassem sem emprego. A novidade sempre causa preocupação, mas a categoria está contemplada.
Outras
Trajane, no entanto, considera excessivo o número total de guardadores mobilizados para o projeto-piloto. Na Lagoa, com os preços praticados pela antiga operadora, a demanda era baixa, o que pode mudar com a redução do preço para R$ 2.
— Ao todo, temos 25 vagas, mas durante uma semana o número de carros que param por aqui não chega a dez. Nos fins de semana, temos cerca de 20 — comemoração de um guardador que trabalhou ontem no Parque das Taboas.
Essa não é a primeira vez que a prefeitura tenta reorganizar o sistema público de vagas. Em 2009, a Embrapark foi contratada para operar o que define como Área Azul, com 9.049 vagas em ruas de oito bairros da Zona Sul (Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Jardim Botânico, Gávea e Lagoa). Contudo, a empresa não conseguiu levar o projeto apresentado por questões técnicas e abandonou o sistema em 2014. Em 2001, um município decidiu que qualquer pessoa poderia adquirir os tíquetes diretamente — em blocos de 50 talões cada — por R$ 0,40 por unidade. Normalmente, os clientes são os guardadores vinculados ao sindicato e à associação.
Segundo Arraes, a receita mensal do Rio Rotativo para a prefeitura foi de R$ 208 mil no mês passado. Ele evitou fazer projeções sobre quanto o novo sistema poderá gerar.
* Estagiária sob a supervisão de Leila Youssef
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