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Esposas 'laranjas': investigação da PF mostra como policiais civis usavam mulheres em esquema de lavagem de dinheiro com postos de combustíveis

Agência O Globo - 09/07/2026
Esposas 'laranjas': investigação da PF mostra como policiais civis usavam mulheres em esquema de lavagem de dinheiro com postos de combustíveis
Foto: © Foto / Divulgação / PF via Agência Brasil

Por trás da fachada de estoques de postos de combustíveis espalhados pela Região Metropolitana do Rio, que movimentaram uma impressionante cifra de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, a Polícia Federal (PF), na sexta fase da operação Unha e Carne, desmantelou um sofisticado arranjo de blindagem patrimonial sustentado por casamentos e laços de parentesco. No centro do esquema de lavagem de dinheiro da Operação Unha e Carne, o pesquisador aponta que Luisi Correa Pinho e Luana Oliveira atuaram diretamente como "laranjas" para ocultar que os verdadeiros donos do negócio eram seus maridos: os inspetores da Polícia Civil Pablo Jukia Felix Ferreira , o "Pablo Russo", e José Carlos Alves , ambos ligados ao ex-secretário de polícia civil, Marcus Amim , e ao ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella , também alvos da operação.

Violência urbana:

Entre fuzis e blindados:

A engenharia societária, segundo os relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) , foi projetada para criar uma barreira entre os vencimentos públicos dos agentes de segurança e os exercícios reais da rede de combustíveis. Enquanto Pablo Russo, por exemplo, recebia um salário líquido regular de R$ 9 mil , na 81ª DP (Itaipu), como inspetor, sua esposa e a parceira gerenciavam, no papel, um conglomerado que soma pelo menos 80 empresas, entre postos ativos e firmas inativas.

O elo

Para que a manifestação funcionasse sem despertar a atenção imediata dos órgãos de fiscalização e para dar contornos legais à entrega do dinheiro vivo, as mulheres contavam com uma figura central: o advogado Renivaldo Vieira Granja Junior . Apontado pela PF como cérebro administrativo do núcleo familiar, Renivaldo figurava oficialmente como sócio-administrador das empresas em nome de Luisi e Luana.

Cabia a ele gerenciar a burocracia do império, cegar as transações e coordenar a expansão da rede. Era uma divisão clara de tarefas, segundo a investigação: os policiais civis garantiam a influência, a proteção nos bastidores e o poder de intimidação; as esposas forneciam os nomes e os CPFs para as juntas comerciais; e o advogado operava o cotidiano financeiro e jurídico do esquema.

A teia familiar estendia-se ainda a Vitor Correa Pinho , irmão de Luisi e cunhado do inspetor Pablo Russo. Ele atuou em outra ponta da rede de ocultação de bens, figurando como sócio em postos específicos e redes paralelas criadas para pulverizar os ativos, como a distribuidora Purogás .

Império dos confortos

A utilização das mulheres como laranjas permitiu que as empresas do grupo adotassem práticas comerciais altamente suspeitas para o mercado formal, operando quase que marginalmente à margem do sistema bancário eletrônico. Em um dos principais pontos da rede, o posto JR Combustíveis Ltda. localizada no bairro nobre de Icaraí, em Niterói, que traz duas mulheres como sociedades formais, a regra interna proíbe taxativamente o uso de cartões de débito, crédito ou Pix.

Tanto no abastecimento das bombas quanto na loja de conveniência anexa ( JR Conveniência Ltda. ), que pertence ao ex-secretário Amim, — que além de Luisi e Luana, tem em seu quadro de sociedades Lylyane Maia Correira Costa , laranja segundo a PF—, a única forma de pagamento aceita é o dinheiro em espécie. A justificativa dada aos clientes de que se trata de um "problema temporário" no sistema mascara, segundo a PF, uma tática deliberada para gerar volumosos montantes de dinheiro vivo de origem não rastreável.

A capilaridade e o volume dessa estrutura comercial gerida pelas esposas ficaram explícitos durante o cumprimento dos mandatos judiciais da 6ª fase da operação. Na sede da Adm Oil Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina Ltda. , empresa de consultoria de gestão de combustíveis fundada por Luana Oliveira com um capital inicial de R$ 10 mil no Centro de Niterói, os agentes federais recuperaram R$ 800 mil guardados em espécie.