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Moradores de Botafogo protestam contra leilão de terreno das Sendas

Associação questiona decisão da Prefeitura do Rio de destinar imóvel a projeto da FGV e pede manutenção de supermercado no local

Agência O Globo - 21/06/2026
Moradores de Botafogo protestam contra leilão de terreno das Sendas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Moradores de Botafogo, na Zona Sul do Rio, realizaram neste sábado um protesto contra o leilão de imóvel localizado na Rua Barão de Itambi, 50. O terreno pertencente ao Grupo Sendas e abrigou, por décadas, uma unidade do supermercado Pão de Açúcar.

A manifestação foi organizada pela Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab), que defende a manutenção da atividade comercial no endereço e questiona a decisão da Prefeitura do Rio de destinar o prédio a um projeto da Fundação Getulio Vargas (FGV). Os moradores pedem que o terreno continue sendo utilizado para a instalação de um supermercado.

Segundo a associação, a permanência de um estabelecimento desse tipo seria mais útil à população local, além de contribuir para a circulação de pessoas e para a sensação de segurança no entorno. Os manifestantes também alegaram que não foram ouvidos durante o processo de discussão sobre a desapropriação do terreno.

De acordo com a Amab, o endereço faz parte da rotina e da história do bairro há cerca de 50 anos, período em que recebeu diferentes redes de supermercados. A entidade afirma ainda que a desapropriação pode afetar aproximadamente 200 mil moradores de Botafogo, Flamengo, Urca, Laranjeiras e Catete, que utilizam a infraestrutura comercial da região.

A presidente da Amab, Regina Chiaradia, disse que os moradores foram às ruas para tentar sensibilizar a juíza responsável para decidir se o leilão do imóvel poderá ser realizado, conforme pretende a prefeitura.

— A gente sabe que, se for um leilão, acaba com qualquer chance. A manifestação foi justamente para mostrar que a prefeitura desapropriou o imóvel alegando interesse público. E nós contestamos isso: interesse público exige ouvir a população — afirmou.

Regina também ressaltou que, na avaliação da associação, não se trata de uma desapropriação para a instalação de uma universidade pública, mas de um empreendimento privado. Para ela, a manutenção do supermercado seria mais benéfica aos moradores.

— No fim das contas, estamos falando de dois assuntos privados. A FGV quer criar um centro de inteligência artificial. É uma instituição privada. A Sendas também é uma empresa privada, mas mantinha um supermercado onde as pessoas faziam suas compras. Nós não estamos defendendo Sendas; Estamos defendendo o direito da população de ter um supermercado perto de casa, o que facilita a vida de todos. Se fosse uma universidade pública criando um centro de IA voltado para a educação pública e gratuita, seria outra situação. Mas não é o caso. Então, se é lucro por lucro, a gente prefere manter o nosso supermercado — concluiu.

Arthur Sendas Filho, presidente do Grupo Sendas, afirmou que, em 2025, foi assinado um contrato de aquisição com o Supermercado Mundial para a abertura de uma nova loja no local em 2026. Ele disse que seguirá tentando impedir a concretização da desapropriação.

— É no supermercado que as pessoas compram alimentos, produtos de limpeza e outros itens indispensáveis ​​para o dia a dia. Retirar esse equipamento da região significa obrigar milhares de moradores a percorrer distâncias maiores para ter acesso a produtos de primeira necessidade. A Prefeitura justifica a desapropriação alegando interesse público, mas tanto a manifestação quanto o abaixo-assinado mostrar justamente o contrário. O interesse público é manter o supermercado funcionando — declarou.

Em nota, a Prefeitura do Rio afirmou que a desapropriação tem como objetivo viabilizar a implantação de um centro de tecnologia, inovação e ensino na região, “fortalecendo a vocação do Rio de Janeiro como cidade de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento econômico”.

"A Prefeitura do Rio de Janeiro informa que agiu o rito processual, rigorosamente de acordo com a legislação vigente. O terreno será submetido a leilão público, seguindo os procedimentos legais aprovados pelo Município em casos semelhantes. A Prefeitura do Rio confia na legalidade de todo o processo de desapropriação e busca comprovar a regularidade das ações junto ao Poder Judiciário", diz a nota.

Disputa judicial

O prédio não é centro de uma disputa judicial entre a Prefeitura do Rio, o Grupo Sendas e a FGV. O município desapropriou o imóvel com o objetivo de realizar um leilão e viabilizar a instalação de um centro de pesquisas em inteligência artificial da fundação no local.

O Grupo Sendas, proprietário do prédio, contesta a desapropriação na Justiça. A empresa argumenta que havia negociações avançadas para a instalação de um supermercado no endereço e sustenta que a medida adotada pela prefeitura favorece a FGV.

Nos últimos meses, o caso foi alvo de sucessivas decisões judiciais. Em abril, a Justiça suspendeu o leilão de imóveis após recurso apresentado pelo Grupo Sendas. Com isso, o processo permanece sem definição e ainda não há novos dados para a realização do certo.

Também em nota, a FGV informou que pretende construir e instalar o mais avançado centro de pesquisa e desenvolvimento de Inteligência Artificial do país. Segundo a instituição, tendo condições, o projeto será desenvolvido no Rio de Janeiro, em Botafogo, onde está localizada a sede da Fundação.

"O projeto traz grandes ganhos para a cidade, que se transformará em referência em IA e novas tecnologias, o que atrairá especialistas, pesquisadores e estudantes dos demais estados brasileiros e de outros países, fomentando a geração de empregos, o comércio em geral, o turismo de negócio, enfim, toda a economia da cidade. Ao mesmo tempo, a FGV não é parte em qualquer processo que envolva o imóvel, não lhe cabendo se manifestar a respeito", diz a nota.