RJ em Foco
Padrinho Paulo Roberto: acusado de violação sexual, líder do Santo Daime no Rio começa a ser julgado nesta terça
Ato processual acontecerá no Tribunal de Justiça. Ele virou réu após denúncias de sua ex-assistente pessoal, a advogada Jéssica Nascimento de Sousa
Paulo Roberto Silva e Souza, de 76 anos, líder religioso , começará a ser julgado nesta terça-feira à tarde no Tribunal de Justiça do Rio, no Centro da cidade. Ele responde pelos crimes após denúncias de sua ex-assistente pessoal, a advogada Jéssica Nascimento de Sousa.
'Violada, explorada, humilhada e carregada com uma energia sexual sombria':
Padrinho Paulo Roberto já foi alvo de suspensão nos EUA;
No ano passado, como revelado pelo GLOBO, o fundador da Igreja Céu do Mar, primeira de Santo Daime fora da Amazônia, teve a prisão preventiva pedida pelo Ministério Público do Rio (MPRJ). Após a publicação de uma série de reportagens e dos relatos de outras cinco mulheres, além do processo com julgamento nesta terça, uma nova denúncia foi aceita pela Justiça. Ambos os processos tramitam em sigilo.
Houve uma tentativa, por parte da defesa do réu, de postergar o início do julgamento. Na última semana, alegou-se que testemunhas do lado do acusado poderiam risco de exposição, já que uma manifestação contra abusos de religiosos está marcada para esta terça na porta do Fórum. A divulgação foi feita por coletivos de diversidade via redes sociais. O TJRJ, porém, até o fechamento desta edição, manteve a audiência.
Os advogados do réu não responderam às solicitações do GLOBO.
Thayná Silveira, advogada da vítima ao lado de Deborah Rabay, diz crer que a audiência ocorrerá com tranquilidade:
— A audiência é um ato processual técnico, sob condução exclusiva do Poder Judiciário, e não sofre interferência de manifestações públicas pacíficas.
Relembre o caso
O homem conhecido como Padrinho Paulo Roberto é Paulo Roberto Silva e Souza, psicólogo do Rio de Janeiro e líder religioso que chegava a cobrar meio milhão de reais por trabalhos religiosos no exterior. Ele foi denunciado pela advogada Jéssica Nascimento, sua ex-assistente, por abuso sexual. Ela contou, em trechos do processo, que o líder, ao saber de suas fragilidades a convocou para uma “terapia de cura” e tocou em partes de seu corpo. A primeira abordagem teria ocorrido em abril de 2022.
A denúncia foi feita à polícia, depois chegou ao MP. Apesar de ter negado a prisão preventiva em dezembro, a juíza Renata Travassos Medina de Macedo solicitou à defesa de Paulo Roberto e-mail e telefone do acusado para facilitar futuras intimações. Na mesma decisão, entre as medidas estavam a entrega de passaporte e expedição de ofício à Polícia Federal para que o acusado ficasse impossibilitado de sair do país sem prévia autorização judicial. À época da repercussão do caso, uma pessoa próxima ao psicólogo disse que ele se encontrava "isolado" em sua fazenda localizada na zona rural de Ilhéus, no sul da Bahia.
Uma das testemunhas ouvidas pelo GLOBO conta que, além das "terapias" ou "sessões de cura", Paulo Roberto fazia chantagens a algumas das que se negavam a participar dos tais "trabalhos espirituais" e dizia que não ia mais rezar por elas.
Thayná Silveira, advogada da vítima, e que também orienta Isabela Augusto, que conviveu com o denunciado e chegou a coordenar a ala feminina da igreja, avalia a existência de outros atos de manipulação:
— De acordo com a denúncia, constam no processo os crimes de violação sexual mediante fraude e violência psicológica, praticados a partir do uso abusivo da autoridade espiritual para viciar o consentimento da vítima. A depender do aprofundamento da prova, a dinâmica de influência indevida também podemos pensar em outros enquadramentos, como assédio sexual por conta da relação de subordinação ou dependência (no caso aqui de natureza espiritual), constrangimento ilegal onde se há o vício de consentimento pensando que a vítima está compelida por medo de retaliação espiritual a praticar e/ou tolerar atos contra a sua vontade e estelionato, especialmente quando há exploração da vulnerabilidade emocional e eventual vantagem patrimonial. Todo o caso deve ser analisado à luz da assimetria de poder presente em relações de liderança religiosa, pois deve-se levar em consideração que a influência indevida se caracteriza pelo uso abusivo de uma posição de autoridade, seja por lá espiritual, moral ou simbólica, para suprimir ou distorcer a capacidade de autodeterminação da vítima.
Instituições se manifestaram
No dia 15 de dezembro de 2025, o Centro Eclético Fluente Luz Universal Sebastião Mota de Melo (Ceflusmme), responsável pela igreja Céu do Mar, fundada por Paulo Roberto, divulgou um comunicado após a repercussão da reportagem que abriu uma série de denúncias feitas por seguidoras do Santo Daime contra o líder religioso. Mulheres daimistas, entre elas uma estrangeira, e outros frequentadores afirmaram ter testemunhado práticas abusivas dentro da igreja e em viagens ao exterior.
Já a Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal (Iceflu), Patrono Sebastião Mota de Melo, também se manifestou. Reconheceu o papel de destaque de Paulo Roberto no passado. Mas, do ponto de vista ético, considerou inaceitáveis suas possíveis condutas de abuso e importunação sexual. A instituição manifestou solidariedade com as vítimas de abuso e reafirmou o compromisso em ouvir e apoiar qualquer pessoa que tenha enfrentado situações de violência ou assédio.
Paulo Roberto é fundador e dirigente da igreja Santo Daime Céu do Mar, entidade que não possui vínculo institucional com a ICEFLU. A igreja Céu do Mar, no entanto, mantém vínculo histórico com o Centro Eclético Fluente Luz Universal Sebastião Mota de Melo (CEFLUSMME), instituição distinta da ICEFLU.
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