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Cerco digital: até 2028, Centro de monitoramento terá acesso a imagens de mais de 245 mil câmeras em todo o Estado do Rio

'Olhos eletrônicos' vigiam vias públicas e já ajudaram a recuperar mais de mil veículos, localizar 80 desaparecidos e prender 753 pessoas por reconhecimento facial

Agência O Globo - 27/01/2026
Cerco digital: até 2028, Centro de monitoramento terá acesso a imagens de mais de 245 mil câmeras em todo o Estado do Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Estado do Rio avança na ampliação do que vem sendo chamado de cerco digital, com a multiplicação de câmeras de monitoramento e a incorporação crescente de tecnologias de inteligência artificial (IA). Os “olhos eletrônicos” que vigiam vias públicas e estão conectados ao Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) chegam a mais de 32 mil em 23 municípios fluminenses, inclusive a capital. Estão nesta rede equipamentos de governos e privados. Mas o número que deve dar um salto de pelo menos 665% até 2028, com a instalação de mais 213 mil câmeras, todas com IA, do governo estadual e da Prefeitura do Rio. Vai ser difícil não ser vigiado.

Novas unidades:

'Perdeu a vida trabalhando',

A Polícia Militar faz as contas do resultado desse sistema. Segundo o major Agdan Miranda Fernandes, diretor de Infraestrutura e Tecnologia da corporação, ele já permitiu, desde setembro de 2024, recuperar 1.015 veículos, pelo mecanismo de leitura de placas, e localizar 80 desaparecidos. A partir de 31 de dezembro de 2023, facilitaram ainda a prisão de 753 pessoas por reconhecimento facial. O oficial garante que essas câmeras podem monitorar até mesmo áreas onde a internet é controlada por facções ou milícias.

— Usamos o sistema de internet de grandes operadoras e links oficiais. Em áreas onde criminosos implantam a internet deles, os bandidos só atuam na ponta da linha, numa microrregião, obrigando pessoas a contratar seus serviços, mas não interferem em nossa conexão — assegura Fernandes.

Copacabana e Belford Roxo

A maior parte das câmeras que integram o CICC ainda opera com videomonitoramento tradicional, sem IA acoplada. Parte desses equipamentos, no entanto, está integrada ao sistema de reconhecimento facial da PM, permitindo o cruzamento de imagens captadas com as de bases oficiais. As câmeras utilizam diferentes modelos, mas seguem, em geral, o protocolo internacional RTSP (Real Time Streaming Protocol), adotado por fabricantes em grande parte do mundo.

As imagens captadas são cruzadas com as de bases de dados da Polícia Civil, do Detran e do Banco Nacional de Mandados de Prisão. De acordo com o estado, o acesso às centrais de monitoramento é restrito, feito por meio de credenciais pessoais e intransferíveis, com todas as consultas auditáveis. O governo afirma ainda que o sistema atende aos princípios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), exigindo que cada consulta tenha uma finalidade específica e devidamente registrada.

Para fevereiro, está marcada a licitação do Programa Sentinela. A proposta é instalar em todos os municípios fluminenses 200.529 equipamentos com IA. Em softwares e câmeras estão previstos investimentos de cerca de R$ 1,4 bilhão. As primeiras unidades, anuncia Agdan, serão implantadas no bairro de Copacabana, no Rio, e no município de Belford Roxo.

— Nossa meta é, após a conclusão da licitação, implantar todos os equipamentos entre um ano e um ano e meio — informa o major.

No âmbito municipal, a Prefeitura do Rio iniciou, no fim do ano passado, a instalação de um novo sistema de supercâmeras inteligentes, posicionadas em vias expressas e em pórticos nas entradas da cidade. Os equipamentos têm capacidade para identificar até três mil situações simultâneas em segundos, incluindo padrões de comportamento, deslocamentos suspeitos e veículos associados a crimes.

Barra da Tijuca:

A iniciativa integra a expansão do Centro de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública (Civitas). Desde junho de 2024, a central contribuiu para a solução de 2.800 inquéritos e gerou 160 mil alertas em tempo real às forças de segurança.

Até agora, foram instaladas 2.300 supercâmeras, que estão em fase de testes e devem começar a operar efetivamente a partir do primeiro semestre do próximo ano. A meta da prefeitura é chegar a 15 mil supercâmeras até 2028.

De acordo com o Civitas, os alertas gerados atualmente se concentram principalmente na passagem de veículos suspeitos. De junho de 2024 até agora, o sistema produziu 232.574 alertas em tempo real, encaminhados às forças policiais e aos sistemas de Justiça.

‘Resposta mais rápida’

Professor do Programa de Engenharia Elétrica (PEE) da Coppe/UFRJ, Rodrigo de Souza Couto destaca a superioridade do monitoramento de hoje se comparado com de cinco anos atrás. Ele explica que os novos modelos de IA evoluíram muito e estão, “cada vez mais, capazes de determinar padrões, descrevendo o que acontece”.

A tendencia, diz o professor, é a IA passar a estar acoplada às câmeras de monitoramento. Hoje, a maioria dos equipamentos — como os do Centro de Operações e Resiliência, COR, da prefeitura, usados pela Coppe para monitorar o mar — geram imagens para um data center.

Preservado:

— Neste caso, há latência, atraso. Quando a câmera possui o que chamamos de computação na borda, a IA no próprio equipamento, os dados não precisam percorrer uma rede de comunicação, e os alertas são gerados de forma mais rápida. Quanto mais perto a IA estiver do equipamento, mais rápida a resposta — explica Couto.

Entre os 23 municípios fluminenses que participam do Programa 190 Integrado, possuindo câmeras visualizadas no CICC, além do Rio, estão, por exemplo, Maricá, Petrópolis, São João de Meriti, Búzios e Angra dos Reis e Saquarema. Em Maricá, há 770 equipamentos públicos e dois mil privados, mas há a expectativa que esse número chegue a sete mil nos próximos anos.

São Gonçalo está entrando no Programa 190 Integrado. Já a Prefeitura de Niterói não tem equipamentos visualizados no CICC. Possui seu Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp), que opera 825 dispositivos de monitoramento e 38 portais de segurança instalados nas entradas e saídas da cidade.

'Primavera dos enredos':

Entre empresas privadas que participam do 190 Integrado, a startup Gabriel, fundada em 2020, opera atualmente mais de 9.400 câmeras ativas no Rio e em Niterói. O modelo conecta câmeras colocadas em fachadas de imóveis privados às autoridades públicas, formando o que a empresa chama de “Área de Proteção”.

Segundo a startup, a rede contribuiu para 6.700 análises de ocorrências criminais, resultando na detenção de 486 suspeitos, na localização de dez desaparecidos, na inocentação de oito pessoas acusadas injustamente e na recuperação de mais de 130 veículos.

Imagens captadas por câmeras da Gabriel foram fundamentais para identificar a rota de fuga de um assaltante em Botafogo, em setembro de 2025. As informações encaminhadas à 10ª DP permitiram a prisão do suspeito e a apreensão de celulares roubados. Caso semelhante ocorreu em fevereiro de 2023, quando imagens da empresa ajudaram a mapear a movimentação de um suspeito envolvido em múltiplos assaltos na mesma região.