RJ em Foco

Privatização de área pública: quiosques fazem ‘puxadinhos’ sobre areia das praias e cobram entrada; entenda

Da Zona Sudoeste para a Zona Sul, em Copacabana, alguns quiosques estendem a área ocupada na calçada recorrendo a um deque de madeira sobre a areia

Agência O Globo - 13/01/2026
Privatização de área pública: quiosques fazem ‘puxadinhos’ sobre areia das praias e cobram entrada; entenda
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Da calçada, nem sempre se tem a exata noção do que está por trás de quiosques na orla do Rio, especialmente os da Zona Sudoeste. Da areia, no entanto, fica fácil observar uma tendência: os “puxadinhos” das estruturas. Na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes, alguns deles avançam sobre a areia, com a construção de uma espécie de “platô”, cercada por pequenos troncos de árvore. É como se fosse um anexo: a areia é nivelada à calçada e cria-se um “quintal” do quiosque. Ali, os donos dos módulos colocam mesas, cadeiras e guarda-sóis.

Com 41,4ºC:

Contra cobranças abusivas:

Um deles, o Katukas, no Recreio, cobra R$ 800 para usar um sofá e uma poltrona, que ficam nesse “deque”, em dias de eventos ou com música ao vivo, a partir de quinta-feira. O valor pode ser revertido em consumação.

Já na Barra, no quiosque Clássico Beach Club, as espreguiçadeiras ficam dispostas em cima de uma espécie de duna. O uso diário, que custa R$ 350, dá direito a uma garrafa de vinho e à conversão do valor em consumação no quiosque. O anexo ainda tem mesas e cadeiras na areia.

Moradora de Copacabana, a psicóloga Jack Santos, de 33 anos, estava curtindo a Praia da Barra, no último domingo, quando se deparou com a ocupação feita pelo Clássico Beach Club. Para ela, estruturas assim transformam um espaço que deveria ser público em área de uso quase privativo, gerando incômodo para quem vive e frequenta a orla. No momento da entrevista, uma DJ se apresentava no local, com o som se espalhando pela praia.

— É um espaço público, mas que acaba se tornando privativo. Isso gera desconforto tanto para os moradores quanto para as pessoas que usam a praia — afirma.

A situação, segundo a psicóloga, se compara ao uso de caixas de som em barracas e na areia de Copacabana. Prática que, para ela, também afeta a rotina de quem mora de frente para a praia:

— Imagino que as pessoas que vivem aqui em frente sejam impactadas pela música alta. Falta mais atenção com a comunidade que divide esse ambiente comum — completa.

Numa franquia do mesmo quiosque, mas no Leblon, a equipe de reportagem constatou que a disposição das mesas se estende para a faixa de areia, com cadeiras, guarda-sóis e música alta. Um morador que preferiu não se identificar joga futevôlei ali quase diariamente. Ele ressalta que a ocupação do espaço não incomoda, por se tratar de uma área quase inutilizada, próxima ao calçadão. Principalmente no verão, ele diz que os banhistas preferem ficar mais perto da água, por causa do calor. Mas a música causa desconforto:

— É música eletrônica o tempo todo, mata um pouco a vibe da praia.

Taxa de entrada

Perto do Clássico Beach Club da Barra, o quiosque Pato com Laranja, no Posto 2, cobra entrada de R$ 20, e o visitante ganha uma pulseira que vale para o dia todo. O espaço inclui um deque de madeira por cima da areia com mesas, cadeiras, sofás com almofadas e ombrelone. Em uma parte mais afastada, mesas e cadeiras de tecido ficam além do deque, na areia mesmo.

Lucas Souza, de 26 anos, veio do Pará e estava “turistando” pela Barra, na altura do Pato com Laranja no domingo. Ele também se incomodou com o barulho:

— Parece que as pessoas do quiosque estão numa energia totalmente diferente das outras, e não há respeito.

Da Zona Sudoeste para a Zona Sul, em Copacabana, alguns quiosques também estendem a área ocupada na calçada recorrendo a um deque de madeira sobre a areia. O Finns, no Posto 3, é um deles. E no quiosque Mar de Copa há duas tendas na areia com sofás de madeira, além de espaço com parquinho.

A prefeitura garante que tem adotado medidas para coibir o loteamento da areia. A Secretaria municipal de Meio Ambiente e Clima afirma que o Clássico Beach Club e o Katukas não têm autorização para expandir suas estruturas e foram notificados por ocupação indevida. “Esclarecemos que nenhum quiosque citado (referindo-se aos que constam dessa reportagem) tem autorização para fazer expansão sobre a areia da praia”, diz nota publicada pela pasta, que, no fim do ano passado, emitiu intimação para que todos se adequassem.

Ainda segundo o município, a cobrança de consumo mínimo nos quiosques é prática abusiva, proibida pelo Código de Defesa do Consumidor, passível de multa e até perda do alvará.

O avanço das estruturas é alvo de questionamentos do Ministério Público Federal (MPF). Em maio do ano passado, o órgão ingressou com ação pedindo a demolição de construções consideradas irregulares, algumas com até 500 metros quadrados, erguidas sobre a faixa de areia. Uma liminar suspendeu a instalação de novo empreendimento nos mesmos moldes.

— Quando há ocupação permanente da faixa de areia, com cercamentos ou mobiliário que impede o uso por outros frequentadores, há uma violação direta do caráter público da praia, além de afronta às normas ambientais e de proteção paisagística — diz o procurador da República Renato Machado.

Responsável pela administração de 309 quiosques e 27 postos de salvamento na orla carioca, a concessionária Orla Rio reconhece que a cobrança de R$ 800, convertida em consumo mínimo, feita pelo Katukas, é ilegal e deve ser coibida. Afirma ainda que, no Finn’s, alguns elementos do deque estavam em local não permitido e que exigiu a retirada.

‘Não somos omissos’

Conforme a Orla Rio, o deque do Pato com Laranja é regulamentado por decreto municipal e tem autorização da Secretaria do Patrimônio da União (SPU). Em relação ao Clássico Beach Club, ressalta que existe, próximo ao quiosque, um clube de kitesurf, que não é administrado pela concessionária e é objeto de um processo em tramitação na Justiça. Sobre o Mar de Copa, a Orla Rio diz que os bancos, o parquinho e as tendas são de responsabilidade de um centro de treinamento localizado em frente ao quiosque, sendo usados durante o dia e recolhidos à noite.

— Não somos omissos; pelo contrário, mantemos uma vigilância rigorosa e constante. Sempre que detectamos inconformidades, notificamos formalmente os operadores e, na ausência de adequação imediata, acionamos os órgãos públicos competentes para garantir o cumprimento das normas — assegura João Marcello Barreto, presidente da Orla Rio.

Para a geógrafa Flávia Lins de Barros, especialista em Geografia Marinha e Gestão Costeira, a ocupação privada da areia representa uma distorção do papel da praia como espaço público e sistema natural:

— Se é areia é pública, não pode cercar nem colocar essas cadeiras — afirma.

Segundo ela, a praia é um ambiente dinâmico, cuja capacidade de resistir a ressacas depende da largura da faixa de areia e da presença de dunas.

Os quiosques citados foram procurados, através de suas páginas no Instagram, mas não se manifestaram.