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Policiais relatam terror e desespero durante ação em mata: 'A gente não vai sair vivo', diz agente

Depoimentos ao Ministério Público descrevem estratégias de incursão, momentos de tensão e obstáculos enfrentados na floresta, marcada por barricadas e casamatas

Agência O Globo - 14/11/2025
Policiais relatam terror e desespero durante ação em mata: 'A gente não vai sair vivo', diz agente
- Foto: Reprodução

As matas da Serra da Misericórdia se transformaram em cenário de terror e angústia durante a megaoperação que resultou na morte de 121 pessoas, em 28 de outubro. Localizada entre os Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, a área foi previamente estudada pela polícia no planejamento da ação. Ferramentas de geolocalização e georreferenciamento foram utilizadas para definir pontos estratégicos de domínio no início da operação, como a Pedra do Sapo e o Morrão. Após superar esses trechos, os policiais acessaram a região de mata, onde integrantes do Comando Vermelho estavam escondidos.

A Pedra do Sapo, situada no lado do Alemão, é considerada pelos traficantes uma área crucial para conter o avanço policial durante operações. Em ocasiões anteriores, o Estado enfrentou dificuldades para atravessar o local, conforme relatou André Luiz de Souza Neves, diretor do Departamento de Polícia Especializada (DPGE), em depoimento ao Ministério Público. O terreno foi mapeado como estratégico para o êxito da operação, antes que os membros do Comando Vermelho recalculassem suas rotas.

“Tem equipe de operações passadas que ficou duas horas para cruzar duas ruas. É ‘bala, bala, bala, bala, bala’”, afirmou Neves ao MP.

Após superar a Pedra do Sapo, sob intenso tiroteio, os policiais avançaram para a área de mata, segundo depoimentos de testemunhas.

Desespero ao anoitecer

Dois agentes presentes na incursão, conforme relatou o diretor da DPGE, narraram momentos de desespero ao anoitecer. Depois de mais de dez horas de operação, o confronto persistia, e policiais ouviam colegas baleados em meio à escuridão:

“Começou a escurecer, a gente olhou um pro outro e falou assim: a gente não vai conseguir sair daqui, a gente não vai conseguir, a gente não vai sair vivo daqui”, recordou Neves, citando o relato de um dos agentes sobre o clima de horror.

A continuidade dos confrontos e o abatimento de policiais pelo Comando Vermelho, segundo testemunhas citadas no relatório, transformaram a “operação para cumprimento de mandados em operação de resgate”. Essa transição foi relatada pelo tenente-coronel Marcelo Corbage, comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), durante depoimento na sede das Promotorias de Justiça de Auditoria Militar.

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De acordo com Corbage, em outras operações, os traficantes costumavam recuar ao enfrentar o Bope. No entanto, em 28 de outubro, “os criminosos resistiram e sustentaram o confronto de maneira nunca vista”.

O terreno de floresta após a Pedra do Sapo é uma área protegida pelos homens “de inteligência do Doca”, explicou Neves, diretor da DPGE: “É uma das rotas de fuga dele”.

Ranulfo Brandão Filho, subsecretário de gestão operacional, relatou ao MP que algumas dessas rotas eram subterrâneas. A área ocupada pelos homens de confiança de Edgard Alves de Andrade, o Doca — considerado o chefe mais procurado do Comando Vermelho no estado — possui até casamatas, fortificações usadas pelos traficantes para se esconder.