Política

Caso ARSAL: JHC mirou Otávio e acertou o irmão Ronaldo Lessa

Ação que levou à suspensão da nomeação do irmão para a Arsal acrescenta novo constrangimento à aliança e coloca à prova a promessa de entregar o Fecoep ao ex-governador

Redação 03/11/2026
Caso ARSAL: JHC mirou Otávio e acertou o irmão Ronaldo Lessa
Ação de JHC contra a nomeação de Otávio coloca Ronaldo diante de uma situação politicamente desconfortável

Ao mover uma ação contra a nomeação de Otávio Lessa para a presidência da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas (Arsal), o governador eleito João Henrique Caldas, o JHC, produziu uma consequência dentro de sua própria base política. O alvo da iniciativa foi Otávio. O impacto político também alcançou seu irmão, Ronaldo Lessa, aliado que manteve o apoio ao projeto de JHC mesmo depois de sucessivas mudanças no espaço que esperava ocupar.


A suspensão da nomeação foi determinada pelo juiz de primeiro grau Léo Dennisson Bezerra de Almeida, durante o plantão judiciário, em decisão assinada em 1º de novembro. Ao acolher o pedido apresentado na ação popular de JHC, o magistrado suspendeu os efeitos do decreto de nomeação e impediu a posse e o exercício de Otávio no cargo. A medida tem caráter provisório.


A indicação havia sido aprovada pela Assembleia Legislativa em 28 de outubro, depois da alteração que ampliou de dois para cinco anos o mandato dos dirigentes da agência. A nomeação foi formalizada por Marcelo Victor, no exercício do governo, em decreto de 29 de outubro, publicado no dia seguinte.


A consequência para Ronaldo nasce dessa combinação entre parentesco, trajetória política e compromissos assumidos. Seu aliado foi o autor da ação que impediu o irmão de assumir a Arsal. É uma situação que acrescenta dificuldade a uma relação já marcada por concessões do ex-governador durante a campanha.

Da expectativa de vice à promessa do Fecoep
Ronaldo Lessa chegou ao grupo de JHC com a perspectiva de integrar a chapa ao governo. Em entrevista ao programa Tribuna Popular, da Correio FM, publicada em setembro, afirmou que o próprio JHC o havia convidado para ser candidato a vice. A composição mudou, e a vaga ficou com Célia Rocha.


Depois, Ronaldo passou à segunda suplência de Marina Cândia, esposa de JHC e candidata ao Senado. Segundo seu relato, aceitou a posição diante de um entendimento para que fosse transferido à primeira suplência. Isso não aconteceu. Eudócia Caldas, mãe de JHC, permaneceu na primeira posição, e Ronaldo renunciou à candidatura.


O percurso representou uma redução evidente de protagonismo. Da expectativa de disputar a Vice-Governadoria, Ronaldo terminou sem candidatura naquela eleição. Ainda assim, preservou a aliança. Na entrevista de setembro, negou sentir-se traído e explicou que continuava acreditando nos compromissos relacionados ao combate à pobreza.


A sustentação pública desse entendimento foi a promessa do Fecoep. Em 19 de setembro, JHC anunciou, em vídeo ao lado de Ronaldo, que o ex-governador comandaria o Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza em uma eventual gestão. Ronaldo aceitou a missão.


Seu apoio também se traduziu em atuação para preservar a composição eleitoral. Jurandir Bóia, que o substituiu na segunda suplência de Marina, chegou a anunciar que deixaria a chapa, mas recuou depois de conversar com Ronaldo. As mensagens publicadas à época registram que a permanência ocorreu a pedido do ex-governador.


Portanto, Ronaldo continuou contribuindo para a aliança mesmo depois de ficar fora da disputa. Esse histórico dá maior peso ao episódio envolvendo Otávio.

O irmão atingido e o aliado colocado à prova
A ação contra a nomeação de Otávio coloca Ronaldo diante de uma situação politicamente desconfortável. De um lado, está o governador eleito a quem apoiou. Do outro, o irmão que pretendia assumir uma nova função pública e teve esse caminho interrompido pela decisão obtida por JHC.


O parentesco, sozinho, não determina um rompimento. Mas integra a realidade dessa relação e amplia o custo político do conflito. Ronaldo terá de administrar uma divergência que chegou à sua família depois de já ter acomodado mudanças importantes nos entendimentos eleitorais.


Para JHC, o desafio será preservar a relação com Ronaldo enquanto enfrenta a nomeação de Otávio. Para o ex-governador, será definir em quais condições continuará participando do projeto político que ajudou a sustentar.


Nesse cenário, o compromisso com o Fecoep ganha ainda mais importância. Seu cumprimento demonstrará que Ronaldo conserva o espaço anunciado durante a campanha. Um recuo acrescentaria outra frustração à sequência de mudanças que o deixou fora da chapa.

Pressão sobre a promessa
A discussão já apareceu nos bastidores. Em coluna publicada nesta terça-feira, 3 de novembro, pela futura imprensa chapa branca, relatou que integrantes do entorno de JHC questionam a manutenção do compromisso de entregar o Fecoep a Ronaldo, diante das articulações envolvendo Otávio e o grupo de Paulo Dantas.


Se essa pressão resultar em uma mudança de posição do governador eleito, Ronaldo poderá sofrer uma consequência direta na composição do futuro governo por causa de um conflito que envolve seu irmão.


É nesse ponto que a relação poderá enfrentar seu teste mais difícil. A retirada do compromisso com o Fecoep comprometeria o entendimento anunciado publicamente pelos dois e daria ao episódio da Arsal um alcance ainda maior.


A continuidade da aliança dependerá dos próximos gestos. Uma definição clara sobre o Fecoep e a participação de Ronaldo nas decisões do futuro governo poderá preservar o entendimento. O adiamento dessas definições ou um novo recuo aumentará o desgaste.


JHC obteve uma decisão contra a nomeação de Otávio Lessa. A consequência política também chegou a Ronaldo. Depois de tantas mudanças no caminho, o ex-governador volta a ter diante de si uma pergunta decisiva: qual será, de fato, o seu lugar no governo que ajudou a eleger?