Política

Eleições nos EUA podem redefinir cenário político e trazer reflexos para o Brasil; democratas desafiam Trump

Pesquisas apontam disputa pelo controle do Congresso americano, enquanto ameaças de veto e possíveis investigações ampliam a tensão em torno do presidente republicano

Redação 03/11/2026
Eleições nos EUA podem redefinir cenário político e trazer reflexos para o Brasil; democratas desafiam Trump
Eleições nos EUA podem redefinir cenário político e trazer reflexos para o Brasil; democratas desafiam Trump - Foto: Arquivo

As eleições legislativas realizadas nesta terça-feira (3) nos Estados Unidos são acompanhadas com atenção também pelo Brasil, diante dos possíveis reflexos políticos, diplomáticos e econômicos de uma mudança na composição do Congresso americano. Com os democratas buscando conquistar a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, o presidente Donald Trump enfrenta uma disputa que poderá alterar os rumos de seu governo e influenciar as relações de Washington com outros países, incluindo o Brasil. As pesquisas divulgadas no encerramento da campanha indicam um cenário de dificuldades para os republicanos e de crescimento das perspectivas da oposição.

A disputa ocorre em meio ao descontentamento de parte da população com o aumento dos preços dos alimentos, dos combustíveis e da moradia. O interesse do eleitorado também se reflete na participação antecipada: mais de 53 milhões de americanos já haviam depositado seus votos, estabelecendo um recorde para esse tipo de votação.

Em entrevista a um podcast do jornal New York Post, Trump deixou claro que pretende reagir politicamente caso os democratas conquistem maioria no Congresso. O presidente afirmou que poderá vetar sucessivamente os projetos apresentados pela oposição, até que os parlamentares sejam obrigados a negociar com o governo.

"Vou me transformar no Senhor Veto", declarou o republicano. Ele também demonstrou disposição para conceder indultos a pessoas que trabalharam em seu governo, citando como exemplo os perdões concedidos a cerca de 1.500 envolvidos nos acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores invadiram o Capitólio.

No encerramento da campanha, diante do Memorial Lincoln, em Washington, Trump voltou a atacar os adversários democratas e classificou a votação como uma das mais importantes da história americana. Também destacou projetos de renovação da capital e realizações de sua administração.

Disputa pelo controle do Congresso

As eleições de meio de mandato renovam todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Os eleitores também escolhem governadores em 36 estados.

Projeções divulgadas antes da votação pela Decision Desk HQ apontavam uma possível maioria democrata de 52 a 48 no Senado, além de uma vantagem de 241 a 194 na Câmara dos Representantes.

Levantamentos do The New York Times, em parceria com a Universidade Siena, também indicaram dificuldades para os republicanos em estados considerados estratégicos. Os democratas apareciam à frente no Texas, Kansas, Maine e Ohio, além de apresentarem pequena vantagem no Alasca. Em Iowa, a disputa estava tecnicamente empatada.

Para recuperar o comando do Senado, a oposição precisa conquistar quatro cadeiras.

Investigações podem atingir Trump

Uma eventual vitória democrata nas duas Casas representaria um duro revés para Trump na segunda metade de seu mandato. Com maioria parlamentar, a oposição pretende ampliar a fiscalização sobre o governo, abrir investigações envolvendo o presidente, integrantes de sua administração e familiares, além de dificultar a aprovação de indicações e de recursos destinados à guerra contra o Irã.

Setores mais à esquerda do Partido Democrata também defendem discussões sobre o futuro do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), responsável pela fiscalização migratória.

A insatisfação com a administração republicana aparece em pesquisas de opinião. Segundo os levantamentos mencionados na reportagem, aproximadamente sete em cada dez americanos avaliam negativamente o desempenho de Trump, especialmente em relação ao custo de vida e à guerra contra o Irã.

Apesar de manter forte apoio entre seus eleitores mais fiéis, o presidente enfrenta dificuldades para ampliar sua aceitação entre os independentes, grupo que pode ter papel decisivo no resultado.

Dados do Pew Research Center indicam que 47% dos adultos americanos se identificam com o Partido Democrata ou demonstram tendência de apoiá-lo, enquanto 43% manifestam preferência pelos republicanos. Outros 10% não assumem posição por nenhum dos dois partidos.

Campanha movimentou bilhões

A disputa eleitoral também foi marcada por investimentos expressivos em publicidade. Os gastos chegaram a quase US$ 11 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 60 bilhões.

Entre os principais financiadores republicanos está o empresário Elon Musk, aliado de Trump, que teria destinado quase US$ 500 milhões a campanhas de candidatos do partido. No campo democrata, o bilionário George Soros aparece como um dos principais apoiadores financeiros de políticos e candidatos alinhados à esquerda.

Governo recorre à Suprema Corte

A reta final da campanha também foi marcada por uma disputa judicial envolvendo o cadastro eleitoral da Califórnia. O governo Trump recorreu à Suprema Corte para tentar obrigar as autoridades estaduais a desconsiderarem mais de 20 mil registros de eleitores até que seja comprovada a nacionalidade dos inscritos.

A iniciativa ocorreu depois que um tribunal federal rejeitou pedido semelhante apresentado pelo Departamento de Justiça.

Na decisão, o juiz David Carter criticou a tentativa do governo federal de interferir nos procedimentos eleitorais estaduais às vésperas da votação. Segundo ele, os métodos utilizados para identificar possíveis eleitores estrangeiros apresentavam incertezas e erros.

O procurador-geral John Sauer, representante do governo perante a Suprema Corte, reiterou que o cadastro eleitoral californiano poderia conter pelo menos 20 mil pessoas que provavelmente não seriam cidadãs americanas.

Trump e aliados republicanos frequentemente levantam suspeitas sobre a participação de estrangeiros nas eleições, embora estimativas apontem que esse tipo de ocorrência seja extremamente raro nos Estados Unidos.

Surpresa na reta final

O encerramento da campanha também foi marcado por um episódio inesperado no Michigan. A democrata Haley Stevens apareceu ao lado do republicano Mike Rogers, que enfrentava dificuldades nas pesquisas eleitorais.

O movimento ocorreu um dia antes da votação e chamou atenção por envolver uma candidata que havia perdido as primárias democratas para Abdul El Sayed, representante da ala progressista do partido, conhecido por suas posições críticas a Israel.

O episódio acrescentou um elemento de surpresa a uma disputa já marcada por divisões internas, forte polarização política e incertezas sobre o futuro da administração Trump.