Política

Disputa pelo controle do Congresso pode limitar poder de Trump e repercutir nas relações com o Brasil

Eleitores norte-americanos escolhem deputados, senadores e governadores nesta terça-feira (3). Uma eventual mudança na maioria parlamentar poderá ampliar a fiscalização sobre o governo republicano e abrir caminho para investigações sobre supostas interferências dos Estados Unidos na política brasileira

Redação 01/11/2026
Disputa pelo controle do Congresso pode limitar poder de Trump e repercutir nas relações com o Brasil
Disputa pelo controle do Congresso pode limitar poder de Trump e repercutir nas relações com o Brasil - Foto: Arquivo

Cerca de 210 milhões de eleitores dos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) para renovar todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Também serão escolhidos governadores em 36 dos 50 estados norte-americanos. O resultado terá impacto direto sobre a capacidade de articulação política do presidente Donald Trump e poderá produzir reflexos nas relações entre Washington e Brasília.

Atualmente, os republicanos mantêm maioria, embora apertada, nas duas Casas do Congresso, situação que oferece ao presidente maior liberdade para implementar sua agenda. Uma eventual conquista de espaço pelos democratas poderá ampliar a fiscalização sobre as decisões do governo e dificultar a aprovação de propostas defendidas pela Casa Branca.

O cenário eleitoral ocorre em meio ao aumento da insatisfação popular com o custo de vida e à queda nos índices de aprovação de Trump. Segundo a média de pesquisas compilada pelo jornal The New York Times, a desaprovação do presidente chegou a 61%, enquanto 36% dos entrevistados manifestam aprovação à sua gestão.

Entre os fatores que pressionam o governo está a elevação dos preços dos combustíveis, associada à guerra iniciada por Trump contra o Irã e às restrições à navegação no Estreito de Ormuz, com consequências sobre o mercado internacional de energia.

Diante do cenário, Trump intensificou sua participação na campanha dos candidatos republicanos e anunciou a promessa de pagar US$ 5 mil a cada adulto do país caso seu partido conquiste vitórias nas disputas pela Câmara e pelo Senado.

Poder de fiscalização em jogo

Para Paulo Abraão, diretor-executivo da Brazil Office Alliance, organização que conecta pesquisadores brasileiros que atuam nos Estados Unidos, a eleição será determinante para estabelecer o nível de controle que o Legislativo poderá exercer sobre o presidente.

Segundo ele, caso os democratas conquistem a maioria em uma das Casas, terão condições de ampliar investigações, cobrar explicações da administração federal e impor obstáculos à agenda legislativa republicana.

O especialista ressalta que a Câmara dos Representantes tem papel especialmente importante na fiscalização do Executivo, enquanto o Senado exerce influência decisiva sobre a confirmação ou rejeição de autoridades e magistrados indicados pelo presidente.

Por outro lado, a manutenção da maioria republicana nas duas Casas proporcionaria a Trump condições políticas mais favoráveis para avançar com suas propostas, embora ainda possam existir divergências dentro do próprio partido.

A disputa também ocorre em meio aos questionamentos feitos pelo presidente sobre a segurança do processo eleitoral norte-americano. Depois de perder a eleição de 2020 para Joe Biden, Trump alegou fraude, mas não apresentou provas. Na semana passada, ao ser questionado por jornalistas sobre o reconhecimento do resultado, afirmou que respeitaria o desfecho caso as eleições fossem honestas.

Reflexos na política externa

Uma eventual mudança na composição do Congresso também poderá influenciar a política externa dos Estados Unidos, especialmente em relação ao conflito com o Irã. Entretanto, Paulo Abraão pondera que o presidente norte-americano dispõe de ampla autonomia para conduzir as relações internacionais, mesmo sem maioria parlamentar.

Na avaliação do especialista, um Congresso com maior independência poderá elevar o custo político das decisões presidenciais, fiscalizar iniciativas e disputar a destinação de recursos, mas não terá controle direto sobre a diplomacia do país.

Relações com o Brasil entram no radar

As eleições norte-americanas também são acompanhadas com atenção pelo governo brasileiro. As relações entre os dois países atravessam um período de tensões, marcado pelo tarifaço imposto por Trump e pelos atritos com a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Uma eventual ampliação da presença democrata no Congresso poderá fortalecer as cobranças sobre a Casa Branca a respeito de supostas interferências dos Estados Unidos em assuntos internos brasileiros.

Paulo Abraão avalia que parlamentares democratas poderão aprofundar questionamentos sobre a atuação de integrantes da família Bolsonaro em território norte-americano e suas relações com o governo Trump.

Entre os pontos que podem entrar na pauta estão denúncias de utilização de instrumentos do Estado norte-americano para beneficiar determinado grupo político brasileiro, além de possíveis ações envolvendo empresas de tecnologia durante o processo eleitoral no Brasil.

O especialista cita, nesse contexto, as acusações relacionadas à Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, após relatos de redução do alcance de contas associadas ao candidato Lula durante a campanha. Na ocasião, a empresa atribuiu o episódio a problemas técnicos.

Para Abraão, uma alteração no comando do Congresso poderá transformar cobranças que atualmente são feitas por meio de cartas em investigações parlamentares com maior capacidade de reunir informações, produzir provas e exigir esclarecimentos do governo.

Ele ressalva, porém, que a abertura de procedimentos não é automática e dependerá das prioridades da nova maioria parlamentar, além de possíveis resistências políticas e disputas judiciais.

Democratas ampliam cobranças sobre a Casa Branca

Nas últimas semanas, parlamentares democratas encaminharam questionamentos ao governo Trump sobre diferentes episódios envolvendo o Brasil. Entre os assuntos estão a atuação da Meta durante as eleições brasileiras e a decisão de revogar o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

Na última quinta-feira (30), congressistas também cobraram esclarecimentos sobre o suposto envolvimento da Casa Branca na saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, apesar de uma decisão da Justiça brasileira que, segundo as informações divulgadas, o impedia de deixar o país.

O episódio acrescentou mais um ponto de tensão às relações políticas entre os dois países e poderá ganhar novos desdobramentos a depender da composição do Congresso norte-americano após as eleições.