Política

De 'verdadeiro presidente' a 'líder do Brasil': o que mudou na carta golpista de Flávio

Mudanças nas declarações de Flávio Bolsonaro após fuga para Miami

Melissa Duarte 28/10/2026
De 'verdadeiro presidente' a 'líder do Brasil': o que mudou na carta golpista de Flávio
Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou três versões de uma carta golpista nesta quarta-feira, 28, após fugir do Brasil para Miami. As duas primeiras foram divulgadas pelo blogueiro de extrema direita Paulo Figueiredo e a última, pelo candidato derrotado à Presidência da República.

O ex-presidenciável se autodeclarou o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” nas duas primeiras versões do pronunciamento, embora não tenha apresentado provas de fraude eleitoral. No terceiro modelo, recuou para a alcunha de “líder do Brasil”.

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, escreveu inicialmente.

A primeira versão do manifesto também conta com um brasão escrito “Estados Unidos do Brazil”, nome oficial do País - com grafia em inglês - utilizado no período republicano, desde a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889. Tanto o emblema quanto a data remontam à Proclamação da República e permaneceram em vigor até 1968, durante a Ditadura Militar.

Figueiredo trocou o brasão na segunda versão, onde se lê “República Federativa do Brasil”, apenas quinze minutos após a divulgação do texto. O próprio Flávio postou a versão final do documento em uma publicação no X (ex-Twitter).

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o líder do Brasil”, corrigiu-se.

Não ocorreram mudanças no restante do conteúdo. Flávio assume o tom golpista ao afirmar, sem provas, que houve “fraude eleitoral” no segundo turno. Seu discurso reflete o do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), seu pai, que já questionou a lisura das urnas em diversas ocasiões.

Numa virada histórica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reelegeu com 51,78% dos votos válidos no último domingo, 25. Flávio, que havia liderado no primeiro turno, recebeu 48,22% do eleitorado. O petista teve 4,4 milhões de votos a mais do que seu adversário.

O senador já declarou que não reconhece o resultado das urnas. Sua posição contrasta com a do próprio partido, do candidato a vice na chapa, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, e do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), um dos aliados mais próximos.

“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático. Seguiremos acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência e respeito às instituições”, informou o PL em nota assinada pelo presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.

Para Flávio, houve “atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula” ao estender em duas horas o horário de votação. A decisão inédita do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin ocorreu após pedidos das duas chapas.

O presidenciável derrotado afirmou, novamente sem provas, que a decisão acrescentou “10 milhões de votos a Lula”. Entretanto, levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), aponta que houve 34,7 mil votos após às 17h no segundo turno, até as 19h; um número menor que os 40 mil registrados em 2022.

“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, continuou Flávio em seu manifesto.

O herdeiro de Bolsonaro agradeceu os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei. O republicano autorizou a entrada dele em Miami na manhã desta quarta-feira, 28. A fuga ocorreu pelo país vizinho.

“Antes de mais nada, queria agradecer ao presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão”.

Como noticiou o Estadão, Flávio, sua esposa, a dentista Fernanda Bolsonaro, e as filhas deixaram o Brasil de carro via Foz do Iguaçu na terça-feira, 27. A família embarcou em um jato particular no Aeroporto Internacional de Cataratas del Iguazu, na Argentina, e desembarcou em Miami na manhã desta quarta, pouco depois das 10h30, no horário de Brasília.

Flávio utilizou o passaporte italiano para entrar na Argentina e o diplomático para os EUA. A PF já havia cancelado os documentos brasileiros — que, portanto, não poderiam ser utilizados — sete minutos após o resultado da eleição.

O ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem Flávio acusou de sequestrar os passaportes, atendeu. Flávio descumpriu a medida cautelar e não é considerado foragido. A ordem consta em um inquérito que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz.

A corporação encontrou registros de e-mail em que o presidenciável derrotado é citado como operador de uma conta no exterior vinculada ao jurista, o que poderia gerar um risco de fuga para uso de recursos fora do Brasil. Segundo a PF, Tomaz deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos após passar a ser investigado.

Antes de fugir, o senador prometeu “pedir a anulação” do segundo turno no domingo, em entrevista a jornalistas. O discurso mudou para buscar a cassação da chapa de Lula e do vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), na segunda.

“Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista”.