Política

Lula promete acabar com as bets que ganharam palco na gestão JHC em Maceió

Presidente relata casos de famílias arruinadas por apostas, cita dívidas milionárias e suicídio e afirma que pretende eliminar as bets do país; em Maceió, a fala ganha peso adicional porque a gestão JHC promoveu a Vai de Bet em grandes eventos públicos da capital

Redação 25/09/2026
Lula promete acabar com as bets que ganharam palco na gestão JHC em Maceió
Lula declara guerra às bets e discurso atinge em cheio modelo usado pela gestão JHC


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu, em discurso realizado nesta quinta-feira (24), em Maceió, acabar com as plataformas de apostas on-line no Brasil. Diante do público, Lula associou diretamente as bets ao endividamento, à destruição financeira de famílias e até a casos extremos de suicídio.

A fala ganha contornos particulares em Alagoas porque, durante a gestão do então prefeito João Henrique Caldas, o JHC, a Prefeitura de Maceió abriu espaço para a divulgação da Vai de Bet em grandes eventos promovidos pelo município, como o Verão Massayó e o São João Massayó de 2024. A própria Prefeitura chegou a anunciar oficialmente uma ação denominada “Vai de Graça, Vai de Bet”, numa parceria que envolveu o município, concessionárias de transporte e a empresa de apostas.

No palco do comício em Maceió, Lula apresentou exemplos dramáticos para sustentar sua decisão de enfrentar o setor.

O presidente contou o caso de uma mulher de 27 anos que, segundo ele, apostava escondida do marido durante a madrugada e terminou com uma dívida de R$ 730 mil.

“Eu conheci uma moça de 27 anos que levantava de noite, ligava o chuveiro para o marido não desconfiar [...] e ficou devendo 730 mil reais”, relatou.

Em seguida, Lula falou de um empresário que teria acumulado dívida de R$ 2,2 milhões e chegado ao ponto de vender patrimônio que sequer lhe pertencia.
“Vendeu até terreiro do pai que não era dele”, afirmou.

O presidente citou ainda pessoas que tentaram tirar a própria vida em consequência de dívidas e relatou a história de uma mãe que perdeu o filho de 26 anos.

Foi então que anunciou:

“Eu vou acabar com as bets nesse país.”

Na sequência, reforçou que pretende agir antes que as apostas provoquem ainda mais danos sociais.

Bilhões saindo do orçamento das famílias


Os relatos feitos por Lula encontram paralelo em estudos recentes sobre o peso das apostas no orçamento doméstico.

Dados divulgados pela Agência Brasil apontam que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025, considerando a diferença entre os valores apostados e os recursos devolvidos em prêmios. No período analisado, quase R$ 351 bilhões circularam em transações via Pix envolvendo plataformas de apostas.

Outro estudo, produzido pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP, estimou que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, reduzindo recursos destinados ao consumo e contribuindo para o aumento do endividamento.

A Confederação Nacional do Comércio também apontou impacto direto sobre a inadimplência. Segundo levantamento divulgado em abril deste ano, as bets teriam retirado cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026, podendo ter levado aproximadamente 270 mil famílias a uma situação de inadimplência severa. O setor de apostas, por sua vez, contesta interpretações que atribuem isoladamente às bets o agravamento geral das dívidas familiares.

Em Maceió, bet ganhou espaço em eventos públicos


É justamente em Maceió que a promessa de Lula estabelece um contraste político com a atuação da gestão municipal anterior.

Em 2024, a Vai de Bet apareceu como patrocinadora do Verão Massayó e do São João Massayó, dois dos maiores eventos realizados pela Prefeitura.

A ligação não ficou restrita à exposição de logomarca.

Em janeiro daquele ano, a própria Prefeitura anunciou oficialmente a campanha “Vai de Graça, Vai de Bet”, que permitia transporte gratuito para quem se dirigia ao Verão Massayó. O comunicado municipal registrava expressamente a parceria com a empresa.

No São João Massayó, a exposição foi ainda maior.

Reportagens publicadas à época registraram que a Vai de Bet figurava como patrocinadora do evento e que o cantor Gusttavo Lima, então ligado comercialmente à empresa, realizou uma ação promocional no palco. JHC também esteve no palco durante momentos em que a marca era exibida.

O episódio tornou-se posteriormente alvo de questionamentos sobre transparência. Publicações da época afirmaram que não haviam sido localizados contratos ou informações completas sobre os valores e contrapartidas do patrocínio.

Isso não significa, por si só, que a parceria institucional da Prefeitura tenha causado o endividamento da população — não há base técnica para estabelecer essa relação direta. O fato documentado é que a gestão municipal concedeu espaço e visibilidade a uma empresa de apostas justamente em um período no qual esse mercado crescia de forma acelerada no país.

Lula endurece discurso nacional


A fala de Maceió não foi isolada.

Nos últimos dias, Lula vem colocando o combate às bets no centro de sua campanha. No Rio de Janeiro, dois dias antes, voltou a defender a proibição das plataformas e afirmou que a questão deixou de ser, para ele, apenas uma discussão regulatória.

Em outro discurso recente, Lula disse novamente que, dependendo de sua vontade, as apostas seriam encerradas no Brasil. A implementação de uma proibição ampla, no entanto, envolve legislação, atos do Executivo e eventual participação do Congresso, além de possíveis disputas judiciais com empresas já autorizadas a operar.

O governo discute alternativas que vão desde restrições mais duras à publicidade até limitações aos cassinos on-line. Há também resistência de setores econômicos e de clubes de futebol, que mantêm contratos de patrocínio com empresas do segmento.

Um discurso com endereço local


Em Maceió, a promessa de Lula ganha inevitavelmente uma dimensão local.

Enquanto o presidente afirma que pretende acabar com um setor que considera responsável por destruir famílias e aprofundar o endividamento, a capital alagoana viveu, poucos anos antes, uma experiência em que uma empresa desse mesmo segmento recebeu ampla exposição em eventos municipais durante a administração de JHC.

De um lado, Lula diz que quer retirar as bets da vida cotidiana dos brasileiros.

Do outro, permanece registrado que a gestão de JHC associou alguns de seus principais eventos públicos à marca Vai de Bet e utilizou inclusive canais institucionais da Prefeitura para divulgar ações em parceria com a empresa.

O tema, que antes era tratado principalmente como entretenimento, patrocínio esportivo ou publicidade, transformou-se agora em debate sobre endividamento, saúde pública, dependência e proteção das famílias.

E Lula decidiu levar essa discussão diretamente ao eleitor.

“Eu vou acabar com as bets nesse país”, afirmou em Maceió.

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