Política
Olívia Tenório recebe R$ 3,1 milhões do Fundo Eleitoral e campanha já contrata R$ 1,12 milhão
Vereadora de Maceió e filha do deputado estadual Francisco Tenório está na faixa mais alta de financiamento entre as mulheres do PP que disputam a Câmara; uma única fornecedora concentra R$ 630,5 mil dos gastos contratados
A vereadora de Maceió Olívia Tenório (PP) volta a disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados com uma campanha financeiramente robusta: R$ 3.111.800 em receitas declaradas, praticamente o limite máximo que uma candidatura a deputado federal pode gastar em Alagoas nesta eleição.
Do total, R$ 3,1 milhões foram transferidos pela Direção Nacional do Progressistas com recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o Fundo Eleitoral. Outros R$ 11,8 mil vieram da direção estadual da legenda, como recurso estimável do Fundo Partidário. Até o recorte analisado, não aparecem doações de pessoas físicas nem recursos próprios na receita da candidata.
Isso significa que 100% da receita declarada por Olívia veio das estruturas partidárias, sendo que apenas o Fundo Eleitoral responde por 99,62% de tudo o que entrou na campanha.
O limite legal de gastos para deputado federal em Alagoas é de R$ 3.176.572,53. Os R$ 3,1 milhões do FEFC, sozinhos, equivalem a cerca de 97,6% de todo o teto permitido.
Maior repasse entre as mulheres do PP
Olívia é uma das três mulheres lançadas pelo PP para disputar uma cadeira de deputada federal em Alagoas. A nominata da legenda é formada por Alvinho Lira, Betânia Melo, Daniel Barbosa, Fábio Costa, Gunnar Nunes, Olívia Tenório e Ryl Silva; entre os sete nomes, as candidaturas femininas são justamente Olívia, Betânia e Ryl.
Na fotografia atual das contas, Olívia recebeu R$ 3,1 milhões do Fundo Eleitoral, enquanto Betânia Melo aparece com R$ 2 milhões no demonstrativo mais recente do DivulgaCandContas analisado nesta série e Ryl Silva recebeu R$ 500 mil. O repasse de Ryl está confirmado nos dados eleitorais atualizados.
Assim, Olívia recebeu 6,2 vezes o valor destinado a Ryl Silva e R$ 2,6 milhões a mais.
A discrepância não caracteriza irregularidade: partidos não são obrigados a entregar quantias idênticas a seus candidatos. Mas, tratando-se de recursos do Fundo Eleitoral, a forma como a legenda distribui milhões de reais entre integrantes de uma mesma chapa é informação de evidente interesse público.
R$ 1,12 milhão já contratado
A candidatura de Olívia já declarou R$ 1.120.635,92 em despesas contratadas, valor equivalente a aproximadamente 35,3% do teto legal da campanha.
É na composição desse gasto que surge um dos dados que mais chamam atenção.
A maior rubrica é publicidade por adesivos: R$ 602.540, aproximadamente 54% de todo o valor contratado.
Na sequência aparecem:
R$ 90 mil em publicidade por carros de som;
R$ 88.450 em materiais impressos;
R$ 80.679 em atividades de militância e mobilização de rua;
R$ 60.100 em cessão ou locação de veículos;
R$ 58.139 em serviços prestados por terceiros;
R$ 31.800 para produção de jingles, vinhetas e slogans.
Os valores são da prestação parcial encaminhada à Justiça Eleitoral e ainda podem sofrer novos lançamentos e retificações.
Uma empresa concentra R$ 630,5 mil
A maior fornecedora da campanha é R S Rocha Barros, que atua com o nome fantasia Imprima Alagoas.
Somados os lançamentos feitos para a empresa, são R$ 630.590, equivalentes a aproximadamente 56,3% de todas as despesas contratadas pela candidatura de Olívia até o período analisado. Os pagamentos abrangem principalmente publicidade por adesivos e materiais impressos.
A empresa tem CNPJ 60.434.454/0001-00, foi aberta em 16 de abril de 2025, pouco mais de um ano antes da eleição, está registrada como microempresa e declara capital social de R$ 50 mil. Sua atividade principal é impressão de material para outros usos, além de impressão de material publicitário.
Os R$ 630,5 mil contratados pela campanha correspondem a cerca de 12,6 vezes o capital social declarado da empresa.
A comparação não significa irregularidade. Capital social não constitui limite para o faturamento ou para o valor de um contrato empresarial. O dado apenas ajuda a dimensionar a contratação: uma microempresa criada em 2025 e com R$ 50 mil de capital social tornou-se responsável por mais da metade das despesas contratadas até agora pela campanha milionária de Olívia Tenório.

A mesma fornecedora trabalha para a campanha do pai
Há outro detalhe.
A R S Rocha Barros também aparece nas contas eleitorais de Francisco Tenório, pai de Olívia, deputado estadual e candidato à reeleição em 2026 pelo MDB.
Na campanha de Francisco, a empresa aparece como maior fornecedora, com R$ 62.877 contratados.
E não é o único fornecedor comum entre as duas campanhas.
Além da R S Rocha Barros, aparecem simultaneamente nas prestações de pai e filha nomes como Eraldo Firmino de Oliveira, responsável por serviços contábeis; Vanuska Sheyla Lima de Oliveira, na área jurídica; Alexandre Lima Costa, em locação de imóvel; Flor Music Produções e Editora Ltda., responsável por produção de jingles; e Gabriel Ricardo de Araújo Santos, em despesas classificadas como diversas.
O compartilhamento de fornecedores entre campanhas não configura, por si só, irregularidade. O dado mostra, contudo, que as campanhas de pai e filha utilizam parte de uma mesma estrutura de prestadores de serviços, apesar de concorrerem por partidos diferentes nesta eleição.
Francisco Tenório está atualmente filiado ao MDB e disputa novo mandato de deputado estadual. A Assembleia Legislativa registra que ele exerce seu sexto mandato estadual e já foi deputado federal.
R$ 90 mil em carro de som
O segundo maior fornecedor individual registrado na campanha de Olívia é Maurício Tenório da Silva, com R$ 90 mil destinados a publicidade por carros de som.
Depois aparecem Era Comunicação Eventos Comércio Serviços e Locações Ltda., com R$ 58,5 mil; Natan Gomes dos Santos, com R$ 45,5 mil; Flor Music Produções e Editora Ltda., com R$ 31,8 mil; além dos R$ 30 mil destinados a serviços jurídicos e outros R$ 30 mil à contabilidade.
A coincidência do sobrenome Tenório no fornecedor de carros de som, isoladamente, não permite afirmar qualquer relação de parentesco com a candidata, e a prestação eleitoral não faz essa identificação.
Filha de Francisco Tenório e em seu segundo mandato de vereadora
Olívia Tenório tem 34 anos, é advogada e exerce mandato de vereadora em Maceió. É filha do deputado estadual Francisco Tenório e da ex-prefeita de Chã Preta Rita Tenório. A relação familiar já é registrada há anos pela imprensa alagoana.
Sua trajetória eleitoral começou em 2016, quando disputou uma vaga na Câmara de Maceió e ficou na suplência com 4.723 votos.
Em 2018, tentou pela primeira vez chegar à Câmara dos Deputados, então pelo PMN. Obteve 20.280 votos, mas não foi eleita.
Em 2020, voltou à disputa municipal e conquistou seu primeiro mandato de vereadora com 4.562 votos. Quatro anos depois, foi reeleita com 6.669 votos. Agora, em 2026, faz sua segunda tentativa de chegar à Câmara Federal.
Portanto, diferentemente de alguns estreantes da chapa, Olívia já chega à eleição federal com quatro campanhas anteriores no currículo, dois mandatos municipais conquistados e uma tentativa anterior de chegar a Brasília.
Patrimônio declarado de R$ 476 mil
Olívia declarou à Justiça Eleitoral R$ 476.746,15 em patrimônio para a eleição de 2026. A relação inclui principalmente aplicações financeiras e outros ativos.
A evolução patrimonial declarada também é visível ao longo das eleições. Em 2016, ela declarou R$ 159,4 mil; em 2018, R$ 108 mil; em 2020, R$ 90,4 mil; e, em 2024, R$ 453,4 mil.
Esse patrimônio pessoal, porém, é uma grandeza distinta do dinheiro destinado à campanha. Os R$ 3,1 milhões do Fundo Eleitoral pertencem à campanha e devem ser utilizados exclusivamente dentro das regras eleitorais.
Dos R$ 3,1 milhões, mais de R$ 600 mil em adesivos
O retrato parcial das contas de Olívia Tenório é objetivo:
R$ 3.111.800 em receitas;
R$ 3.100.000 provenientes do Fundo Eleitoral;
R$ 1.120.635,92 em despesas contratadas;
R$ 602.540 em publicidade por adesivos;
R$ 630.590 concentrados em uma única fornecedora.
O financiamento por meio do FEFC é permitido pela legislação e o recebimento desses valores, isoladamente, não representa irregularidade.
Mas os números evidenciam a dimensão financeira das eleições de 2026. Uma candidatura a deputado federal pode receber milhões de reais de recursos administrados pelos partidos e utilizar essas quantias durante poucas semanas de campanha.
No caso de Olívia, há ainda dois aspectos que merecem acompanhamento: a concentração de mais da metade das despesas em uma empresa criada em 2025 e o compartilhamento de vários fornecedores com a campanha de seu pai, Francisco Tenório.
São informações disponíveis nas prestações eleitorais e que poderão ser verificadas novamente quando as contas definitivas forem apresentadas à Justiça Eleitoral.
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