Política
Filho do pastor-presidente da Assembleia de Deus, Gunnar Nunes recebe R$ 3,1 milhões do Fundo Eleitoral
Candidato do PP tem 100% da receita proveniente do partido e já contratou R$ 1,5 milhão; uma única empresa ficará com R$ 750 mil, praticamente metade de tudo o que foi contratado
Ligado diretamente à cúpula da maior denominação evangélica de Alagoas, Gunnar Nunes (PP) entrou na disputa por uma cadeira de deputado federal com uma campanha abastecida por R$ 3,1 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o Fundo Eleitoral.
Gunnar é filho do reverendo José Orisvaldo Nunes de Lima, pastor-presidente da Assembleia de Deus em Alagoas, e ocupa funções institucionais dentro da própria denominação. Publicações oficiais da igreja já o apresentaram como diretor de comunicação, relações públicas e secretário-adjunto da IEADEAL.
Agora, na primeira eleição em que disputa diretamente um mandato parlamentar, Gunnar dispõe de uma estrutura financeira próxima do teto permitido para uma candidatura a deputado federal.
Segundo os dados da prestação parcial encaminhados à Justiça Eleitoral, sua candidatura declarou R$ 3.111.800 em receitas. Deste total, R$ 3,1 milhões foram repassados pela Direção Nacional do Progressistas com recursos do Fundo Eleitoral. Outros R$ 11,8 mil aparecem como recurso estimável transferido pela direção estadual do PP.
Não aparecem, nesse recorte, doações de pessoas físicas, recursos próprios ou financiamento coletivo.
Ou seja: 100% da receita registrada pela campanha de Gunnar Nunes veio das estruturas partidárias, e 99,62% de toda a arrecadação corresponde somente aos R$ 3,1 milhões do Fundo Eleitoral.
R$ 3,1 milhões representam quase todo o teto
O limite legal de gastos para deputado federal em Alagoas nesta eleição é de R$ 3.176.572,53.
Assim, somente os R$ 3,1 milhões do Fundo Eleitoral repassados a Gunnar correspondem a aproximadamente 97,6% de todo o teto que a candidatura poderia gastar durante a eleição.
O FEFC é dinheiro público, constituído por dotações orçamentárias da União. Em 2026, o Fundo Eleitoral nacional soma R$ 4.961.519.777. A definição dos critérios de distribuição entre candidatos cabe às direções partidárias, observadas as normas eleitorais.
O repasse, portanto, é permitido pela legislação e seu valor, isoladamente, não representa irregularidade. A relevância jornalística está na dimensão dos recursos públicos colocados à disposição de cada candidatura e na forma como o dinheiro é utilizado.
R$ 1,5 milhão já contratado
A campanha de Gunnar declarou R$ 1.505.564 em despesas contratadas na prestação parcial, que abrange a movimentação informada até 8 de setembro.
Desse valor, R$ 1.150.810 já haviam sido efetivamente pagos.
Isso significa que, naquele momento, a candidatura já havia comprometido cerca de 47,4% do teto legal de gastos.
Mas é na distribuição dessas despesas que aparecem alguns dos dados mais relevantes.
Uma única empresa concentra R$ 750 mil
A maior despesa da campanha é com a Ganesh Conteúdo Digital Ltda., contratada por R$ 750 mil para produção de programas de rádio, televisão ou vídeo.
O contrato corresponde a aproximadamente 49,8% de todas as despesas registradas pela candidatura.
Em outras palavras, praticamente um de cada dois reais já contratados pela campanha de Gunnar Nunes está concentrado em uma única empresa de comunicação.
Os dados cadastrais disponíveis indicam que a Ganesh Conteúdo Digital foi aberta em 27 de junho de 2024, em Maceió, está enquadrada como microempresa e possui capital social declarado de R$ 10 mil. Sua atividade principal atual é a de agência de publicidade, além de possuir atividades relacionadas à produção de filmes, vídeos, marketing e conteúdo digital.
O contrato eleitoral de R$ 750 mil, portanto, equivale a 75 vezes o capital social declarado da empresa.
É necessário fazer uma ressalva: capital social não estabelece, por si só, limite para o valor de contratos que uma empresa pode executar, e essa relação matemática não constitui indício de irregularidade. O dado é relevante para dimensionar a contratação.

Mesmo CNPJ apareceu ligado a serviços de vacinação em 2024
Há ainda uma peculiaridade cadastral que chama atenção.
Em 7 de agosto de 2024, uma publicação do Diário Oficial do Município de Maceió registrou o mesmo CNPJ 55.704.866/0001-75 sob a denominação Gersianne Bandeira Ltda. - ME, relacionada a atividades de serviços de vacinação e imunização humana e ao empreendimento denominado “Vacinvitta”.
Atualmente, o mesmo CNPJ aparece nas bases cadastrais como Ganesh Conteúdo Digital Ltda., tendo como atividade principal agência de publicidade e como sócia-administradora Gersianne da Silva Bandeira.
Empresas podem alterar legalmente razão social, nome fantasia e atividades econômicas por meio de modificações cadastrais. A mudança, isoladamente, não indica irregularidade.
Mas a transformação é um dado documental relevante: o CNPJ que em agosto de 2024 aparecia oficialmente ligado a serviços de vacinação surge, dois anos depois, como o maior fornecedor de uma campanha eleitoral, contratado por R$ 750 mil para produção audiovisual.
Mais R$ 405 mil em adesivos
A segunda grande frente de gastos é a publicidade por adesivos.
A empresa W dos S Gouveia Ltda., conhecida comercialmente como Windgráfica Bureau Digital, aparece com R$ 300.807,50 contratados pela campanha. Já a Arte Nova Gráfica e Comunicação Visual Ltda. registra outros R$ 104.754.
Somadas, as duas contratações chegam a R$ 405.561,50 somente com publicidade por adesivos.
A W dos S Gouveia está registrada em Maceió desde 2022 e tem como atividade principal a impressão de materiais para outros usos, além de atividades secundárias relacionadas à impressão publicitária.
Produção audiovisual e adesivos, portanto, consomem juntos aproximadamente R$ 1,155 milhão, ou quase 77% de tudo o que Gunnar Nunes havia contratado até então.
R$ 250 mil para advocacia
Outro número expressivo está nos serviços jurídicos.
A campanha contratou Moisés Lino Balbino Neto por R$ 250 mil em serviços advocatícios. O valor representa cerca de 16,6% de todas as despesas contratadas.
Também aparecem R$ 100 mil destinados a Claudeanor Nascimento França, referentes a serviços contábeis.
O retrato praticamente fecha toda a despesa declarada:
Ganesh Conteúdo Digital — R$ 750 mil;
W dos S Gouveia — R$ 300.807,50;
Moisés Lino Balbino Neto — R$ 250 mil;
Arte Nova Gráfica e Comunicação Visual — R$ 104.754;
Claudeanor Nascimento França — R$ 100 mil.
Esses cinco fornecedores concentram praticamente 100% dos R$ 1,505 milhão contratados, descontadas pequenas despesas bancárias.
Da direção da Assembleia de Deus à disputa pela Câmara
Gunnar Nunes tem 39 anos, declarou ao TSE ocupação de empresário, ensino superior completo e patrimônio de R$ 921.647,35. Entre os bens declarados estão um veículo híbrido avaliado em R$ 339 mil, imóvel residencial em construção de R$ 300 mil e outro bem imóvel declarado por R$ 270,1 mil.
Sua candidatura está registrada pelo número 1144, pelo Progressistas, integrante da Federação União Progressista. O registro consta atualmente como deferido.
A candidatura de 2026 não é sua primeira participação numa eleição. Em 2022, Gunnar foi registrado como segundo suplente na chapa de Davino Filho ao Senado, pelo União Brasil. A chapa recebeu 627.397 votos e não foi eleita.
Agora, porém, Gunnar busca pela primeira vez um mandato diretamente submetido ao voto proporcional para a Câmara dos Deputados.
Sua entrada na disputa também ocorre carregando o peso político de sua ligação com a Assembleia de Deus. A própria imprensa alagoana o identifica como uma liderança religiosa de influência no segmento evangélico, e a instituição confirma suas funções administrativas e de comunicação dentro da igreja.
Dinheiro público e transparência
Os números são expressivos: R$ 3,1 milhões do Fundo Eleitoral, R$ 3,111 milhões de receita total, R$ 1,505 milhão já contratado e R$ 1,150 milhão efetivamente pago.
E há uma particularidade nesta candidatura: todo o dinheiro arrecadado até o recorte da prestação veio do próprio partido.
Não se trata de afirmar ilegalidade onde os documentos não demonstram nenhuma. O Fundo Eleitoral existe por lei e os partidos têm competência para distribuir os recursos segundo critérios previamente definidos.
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