Política
Aliado de Arthur Lira é socio de empresas que receberam quase R$ 750 milhões da Prefeitura de Maceió
Duas empresas que prestam serviços à Prefeitura de Maceió em frentes completamente diferentes, a coleta de lixo da cidade e o fornecimento de mão de obra terceirizada a órgãos municipais, têm, nos registros societários, o mesmo nome por trás: Murilo Sérgio Jucá Nogueira Júnior, policial civil em Alagoas apontado como aliado do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira.
Somando o período em que ele de fato tem vínculo com cada uma delas, não o histórico completo de cada contrato, mas apenas a fatia posterior à entrada dele em cada sociedade, as duas empresas receberam, juntas, R$ 413.638.175,99 da Prefeitura de Maceió até o fim da gestão de JHC, em abril de 2026.
As duas pontas do mesmo nome
Na Via Ambiental, o vínculo é o mais direto possível: Murilo Jucá é administrador da empresa desde julho de 2023, junto com Romero Carneiro Leão, administrador mais antigo. Na BRA, o vínculo é indireto e mais recente: desde agosto de 2024, a empresa tem como uma de suas sócias a M S J Participações, holding da qual ele é sócio desde 2020, mas a BRA tem outros sócios, entre eles Alexandre Lima Costa, administrador desde 2016, e a Caetés Investimentos e Participações, sócia desde janeiro de 2026, cujos donos esta reportagem não identificou.
As duas empresas, somadas, receberam da Prefeitura R$ 747,5 milhões desde 2021, mas 61% do valor da BRA (R$ 213 milhões) e 30% do valor da Via Ambiental (R$ 120,8 milhões) foram pagos antes de qualquer vínculo societário de Murilo Jucá com cada uma delas. Então vale o adendo: a Empresa O que faz Via Ambiental Engenharia e Serviços SA Coleta e transporte de resíduos sólidos e limpeza urbana BRA Serviços Administrativos Ltda Fornecimento de mão de obra terceirizada (apoio administrativo, operacional) a dezenas de órgãos TOTAL soma apenas da fatia posterior à entrada dele em cada sociedade é de R$ 413,6 milhões.
Quem é Murilo Jucá e o caso das robóticas
Murilo Sérgio Jucá Nogueira Júnior é policial civil em Alagoas e apontado, por reportagens publicadas em 2023, como aliado do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Naquele ano, ele foi alvo da Operação Hefesto, deflagrada pela Polícia Federal, que investigava desvios em contratos de kits de robótica custeados com recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) em municípios alagoanos, onde a operação encontrou R$ 4,4 milhões em espécie num cofre ligado a ele.
A operação foi integralmente anulada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que invalidou todas as provas, arquivou os inquéritos, determinou a devolução dos bens apreendidos e mandou destruir o material recolhido, por entender que a Justiça Federal de Alagoas não tinha competência para conduzir o caso, dado o foro por prerrogativa de função de autoridades citadas na investigação (entre elas o próprio Arthur Lira e o deputado Gilvan Máximo).
Não há condenação contra Murilo Jucá. Reportagens da época apontaram que empresas ligadas a ele somavam cerca de R$ 1 bilhão em contratos com prefeituras, estados e a União.
É esse mesmo nome, de um empresário cuja única investigação conhecida girou em torno de dinheiro público de educação, e foi anulada por incompetência de foro, não por mérito, que aparece agora, anos depois, em duas frentes distintas da máquina pública de Maceió: uma que recolhe o lixo da cidade, outra que põe gente para trabalhar dentro de secretarias, gabinetes e do próprio fundo de previdência dos servidores municipais.
Para onde foi o dinheiro
Via Ambiental, desde que Murilo Jucá é administrador (04/07/2023): R$ 38,5 milhões em 2023 (a partir de julho), R$ 107,0 milhões em 2024, R$ 100,3 milhões em 2025 e R$ 33,2 milhões em 2026 (até a renúncia de JHC).
BRA Serviços, desde que a M S J Participações é sócia (26/08/2024): R$ 31,0 milhões em 2024 (a partir de agosto), R$ 83,8 milhões em 2025 e R$ 19,9 milhões em 2026 (até a renúncia). Mais de 62% desse valor saiu do Fundo Municipal de Educação.
A Via Ambiental, apesar de ter recebido quase R$ 280 milhões nesse período, é hoje credora de R$ 26,9 milhões que a Prefeitura reconhece dever e não pagou, dívida que motivou, em julho de 2026, uma Ação Civil Pública da Defensoria Pública para forçar a quitação.
Procurados, a Prefeitura de Maceió, a Via Ambiental, a BRA Serviços Administrativos não se manifestaram até a publicação. A assessoria de Murilo Sérgio Jucá Nogueira Júnior não foi encontrado.
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