Política
Betânia Melo recebe R$ 2 milhões do Fundo Eleitoral; valor é 91 vezes o patrimônio que declarou ao TSE
Vereadora de Boca da Mata e candidata a deputada federal pelo PP teve, no recorte disponível no DivulgaCandContas, 100% da receita bancada pelo Fundo Especial; campanha já contratou R$ 297 mil, com R$ 100 mil para advocacia e R$ 77,9 mil em locação de veículos
A série sobre o volume de dinheiro público destinado às campanhas para deputado federal em Alagoas chega a outro número que chama a atenção pela dimensão: R$ 2 milhões destinados à candidatura de Maria Betânia Melo Duda, a Betânia Melo, do Progressistas.
No demonstrativo de prestação de contas disponível no sistema DivulgaCandContas, da Justiça Eleitoral, os R$ 2 milhões representam 100% de tudo o que a candidata havia arrecadado no período apresentado. O dinheiro aparece como proveniente da Direção Nacional do PP e identificado como recurso do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o Fundo Eleitoral.
O FEFC é constituído por recursos públicos da União e destinado ao financiamento de campanhas. Para as eleições de 2026, o fundo nacional soma R$ 4,961 bilhões, dos quais o PP recebeu R$ 417,067 milhões para distribuição conforme os critérios internos aprovados pela legenda.
No caso de Betânia, portanto, não se trata, nesse retrato da prestação, de uma campanha construída principalmente com pequenas contribuições de apoiadores ou recursos próprios. A receita informada é integralmente proveniente do Fundo Eleitoral repassado pelo partido.
R$ 2 milhões diante de um patrimônio declarado de R$ 22 mil
Outro dado produz um contraste expressivo.
Betânia Melo declarou à Justiça Eleitoral patrimônio total de R$ 22 mil para disputar a eleição de 2026. São apenas dois bens relacionados: R$ 12 mil em uma caderneta de poupança no Banco do Brasil e um terreno avaliado em R$ 10 mil.
Os R$ 2 milhões de recursos públicos colocados à disposição de sua campanha correspondem, matematicamente, a cerca de 91 vezes o valor de todo o patrimônio pessoal declarado pela candidata.
São grandezas de naturezas distintas — patrimônio pessoal e financiamento eleitoral — e essa comparação, por si só, não representa qualquer irregularidade. Ela serve, porém, para dimensionar o tamanho financeiro de uma campanha eleitoral diante da realidade patrimonial informada pela própria candidata.
O limite legal de gastos para uma candidatura a deputado federal em Alagoas é de R$ 3.176.572,53. Assim, somente o repasse de R$ 2 milhões recebido por Betânia equivale a aproximadamente 63% de todo o teto que ela poderia gastar durante a campanha.
R$ 297 mil já contratados
O segundo ponto que merece atenção é para onde o dinheiro começou a ser direcionado.
No demonstrativo encaminhado pelo leitor e extraído do DivulgaCandContas, a candidatura registrava:
R$ 2.000.000,00 em receitas; R$ 297.178,10 em despesas contratadas; e R$ 8.800,10 em despesas efetivamente pagas.
Isso significa que, naquele momento, a maior parte dos compromissos assumidos ainda não havia sido quitada.
Dos R$ 297,1 mil contratados, R$ 288,3 mil ainda figuravam como compromissos a pagar.
E a distribuição das despesas também chama atenção pela concentração.
R$ 100 mil para advogados
A maior rubrica apresentada era justamente a de serviços advocatícios: R$ 100 mil, correspondendo a cerca de 33,6% de todas as despesas contratadas.
O principal fornecedor informado é Gomes Pereira Advogados, com contrato de R$ 100 mil.
Logo depois aparecem as despesas com cessão ou locação de veículos, que totalizam R$ 77.900, ou cerca de 26,2% dos gastos registrados.
A terceira maior categoria é de serviços contábeis, com R$ 50 mil, equivalentes a aproximadamente 16,8% das despesas. O ranking de fornecedores mostra nesse valor o escritório Nogueira, Albuquerque e Freire Associados S/S.
Somente advocacia, locação de veículos e contabilidade absorvem R$ 227,9 mil, ou aproximadamente 76,7% de tudo o que a candidatura havia contratado.
Também constam R$ 35 mil para atividades de militância e mobilização de rua e R$ 19,5 mil em despesas com pessoal.
Essas cinco categorias, juntas, somam R$ 282,4 mil — cerca de 95% de todas as despesas registradas no período.

Quem recebeu
Além dos dois escritórios, o ranking disponibilizado pelo sistema eleitoral mostra entre os principais fornecedores:
Marco Aurélio Cavalcante Celestino — R$ 33 mil;
Paulo Alberico Neves da Graça — R$ 19 mil;
Cristina da Silva Jatobá — R$ 13,5 mil.
Os valores fazem parte de uma prestação de contas ainda em andamento e poderão sofrer acréscimos, correções ou novos lançamentos até a apresentação e análise das contas definitivas pela Justiça Eleitoral.
De vereadora de Boca da Mata para uma campanha estadual de R$ 2 milhões
Betânia Melo tem 51 anos, é administradora, possui ensino superior completo e atualmente exerce mandato de vereadora em Boca da Mata. A Câmara Municipal também a relaciona como primeira-secretária da Mesa Diretora.
Sua trajetória eleitoral até agora esteve concentrada naquele município. Em 2020, disputou uma vaga de vereadora e obteve 430 votos, ficando como suplente. Em 2024, voltou a concorrer e foi eleita com 1.084 votos. Agora, em 2026, tenta ampliar sua base e conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados, em uma disputa estadual.
A candidatura está registrada pelo número 1188, pelo PP, dentro da Federação União Progressista, e aparece atualmente como concorrendo na eleição.
O ponto central é o dinheiro público
Não há ilegalidade no simples fato de uma candidatura receber recursos do Fundo Eleitoral. A legislação permite o financiamento e atribui aos partidos a definição dos critérios de distribuição, observadas as normas eleitorais e as cotas previstas em lei. O próprio TSE destaca que a definição dos critérios é responsabilidade das executivas nacionais das legendas.
Mas a legalidade do mecanismo não elimina o interesse público sobre sua aplicação.
No caso de Betânia Melo, o quadro é objetivo: uma candidata que declarou patrimônio pessoal de R$ 22 mil recebeu R$ 2 milhões de recursos públicos para financiar sua campanha de deputada federal. Até o recorte analisado, não aparecia outra fonte de receita.
E, dos primeiros R$ 297 mil já comprometidos, R$ 100 mil foram destinados a serviços advocatícios, R$ 77,9 mil à locação de veículos e R$ 50 mil à contabilidade.
São esses números — candidatura por candidatura — que a série O Custo da Campanha pretende colocar diante do eleitor: quanto cada candidato recebeu, de onde saiu o dinheiro e para onde ele está indo.
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