Política

Gonet admite encontro com Vorcaro em Londres, mas afirma não ser amigo do banqueiro

Declaração foi feita em documento ao Conselho Superior do Ministério Público Federal.

Estadao Conteudo 16/09/2026
Gonet admite encontro com Vorcaro em Londres, mas afirma não ser amigo do banqueiro
Paulo Gonet - Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, admitiu ter se encontrado com Daniel Vorcaro em Londres, em abril de 2024, mas afirma que não mantém relações de amizade com o banqueiro. Em uma manifestação de 37 páginas, enviada ao Conselho Superior do Ministério Público Federal, Gonet foi enfático: "Em termos bastante diretos e simples, posso afirmar que não tenho com o sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado."

A declaração de Gonet respondeu a uma solicitação do subprocurador-geral da República, Francisco Sanseverino, relator de um procedimento no Conselho Superior que analisa a representação do partido Novo para o eventual impedimento do procurador-geral no caso Master. O Conselho agendou para o próximo dia 25 uma sessão para apreciar a suspeita de ligação de Gonet com Vorcaro, com base em um documento produzido pela Polícia Federal e levado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, nos autos da Operação Compliance Zero.

Mensagens de Gonet para o advogado Ciro Soares indicam, segundo a PF, que o procurador disse, certa vez, que estava com 'saudade' de Vorcaro, a quem teria chamado de 'máquina'. As mensagens extraídas do celular de Vorcaro e reveladas pelo Estadão apontam que o banqueiro pediu reiteradamente ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, que interviesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, delegado Andrei Rodrigues, e ao próprio Gonet em relação às investigações sobre negócios fraudulentos do Master.

Gonet, então, argumentou: "Não é crível que se impute à minha frase 'saudade de você' como direcionada ao sr. Vorcaro, pessoa com a qual eu mal havia me encontrado..." Ele adicionou que a frase 'você é uma máquina' não era dirigida a Vorcaro, mas sim a Ciro Soares, reiterando que qualquer interpretação maliciosa não estava sob seu controle.

O Conselho Superior é um colegiado de cúpula que atua como instância máxima administrativa do Ministério Público Federal. Composto por dez integrantes, é presidido pelo próprio procurador-geral, membro nato, junto do vice-PGR, e conta com quatro subprocuradores-gerais eleitos pelo Colégio de Procuradores para mandatos de dois anos.

A sessão marcada para o dia 25 será presidida pelo vice-presidente do Conselho, Nicolao Dino — irmão do ministro Flávio Dino, do STF — eleito por todo o colegiado. O grupo apreciará as razões da agremiação política e os argumentos do PGR em uma sessão específica.

Gonet categorizou as imputações a ele como 'descabidas e estapafúrdias' e dividiu em dois blocos suas explicações. O primeiro esclarece a interlocução com Vorcaro, mencionada pelo advogado Ciro Soares, e a participação em um evento social. O segundo demonstra sua atuação no contexto da Operação Compliance Zero.

Ele enfatizou que sua 'única interação presencial' com Vorcaro ocorreu em abril de 2024, durante um evento sobre temas jurídicos e de atualidade política, onde participaram diversas personalidades.

Gonet não admite ter cometido erro. Ele informou ao Conselho Superior que continuará a atuar nos procedimentos envolvendo o Banco Master. Declara que não há elementos que comprometam sua atuação nem justificativa para a abertura de uma investigação criminal sobre sua conduta.

"É, enfim, com a descrição de tais fatos e do meu agir que venho, renovando o compromisso dos últimos 39 anos como membro do Ministério Público Federal..."

Ele sustentou que 'eventual propósito de constranger o procurador-geral da República não pode conduzir ao afastamento da sua atuação neste processo', especialmente quando a ilegalidade da própria abertura da investigação é evidente.

Gonet negou ter atuado para barrar investigações sobre o Master. Segundo ele, as anotações de Vorcaro em que aparece seu nome, em 30 de outubro e em 5 e 15 de novembro de 2025, tratavam de medidas que o banqueiro temia.

Gonet declarou: "O fato é que não recebi interferência nenhuma para obstar investigações..." Reforçou que cuidou de garantir total suporte institucional e material para a correta apuração dos fatos.

Sobre o encontro em Londres, o procurador esclareceu que foi convidado para falar no painel 'O papel do Judiciário para a estabilidade democrática'. Estavam presentes, segundo Gonet, os ministros do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do ministro da Justiça à época, Ricardo Lewandowski, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entre outras personalidades.

Gonet concluiu: "Até aquele momento, o sr. Daniel Vorcaro me era pessoa desconhecida..." O Banco Master, que não constava como patrocinador do evento, até então, era apenas uma instituição financeira em atividade aparentemente regular. O procurador finalizou esclarecendo que sua única interação com Vorcaro foi em um contexto de convívio social, e que em nenhum momento houve conversas de ordem profissional.