Política

Relatório da PF revela divisão interna sobre Lulinha e sugere acionar Corregedoria

Investigação aponta fragilidade de provas contra filho do presidente Lula.

Estadao Conteudo 05/09/2026
Relatório da PF revela divisão interna sobre Lulinha e sugere acionar Corregedoria
Lulinha - Foto: Reprodução

O relatório de inteligência da Polícia Federal divulgado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes expõe uma divisão interna envolvendo as investigações sobre Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Lula. O documento critica a produção de relatórios sobre Lulinha e sugere acionar a Corregedoria para apurar a conduta de investigadores ao batizar uma operação com o nome de Elli, em referência à letra L de Lula.

O próprio documento se descreve como "sem valor probatório" e diz que não pode ser utilizado para imputar acusações de infrações. Em vários trechos, afirma que as informações registradas são de confiabilidade "baixa ou moderada", por depender apenas de relatos verbais.

Produzido por uma unidade de inteligência ligada à Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores (Cinq), o relatório foi inicialmente enviado apenas ao diretor-geral Andrei Rodrigues e classifica como "frágeis" os elementos de prova que citaram Lulinha na investigação sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O documento indica que a nova equipe da PF, que assumiu a Operação Sem Desconto a partir de maio -- em meio a uma troca que gerou suspeitas de interferência no caso --, passou a fazer uma espécie de pente-fino no trabalho realizado e apontou ressalvas na investigação sobre o filho do presidente.

Além disso, critica a equipe de investigação por ter produzido um relatório sobre as menções a Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Embora alvo de críticas, esse relatório compila fatos encontrados na investigação em relação a todos os personagens mencionados, não apenas a Lulinha.

Ainda assim, o relatório de inteligência afirma que Lulinha ainda não era formalmente investigado e que a produção de um documento a respeito resultou em "risco reputacional" ao filho do presidente, uma vez que estava disponível nos autos da investigação.

O relatório registra que a fase da Sem Desconto, que resultou em busca e apreensão contra a lobista Roberta Luchsinger e nas primeiras suspeitas sobre Lulinha, foi batizada internamente como Operação Elli, pronunciada como a letra L, o que configuraria uma referência indevida a Lulinha.

"A preocupação é legítima e deve ser registrada. Denominações de fase que codifiquem uma pessoa não formalmente investigada constituem indicador reconhecido de risco em programas de integridade. Isso sugere que o objetivo real da diligência difere do declarado, compromete a aparência de imparcialidade perante o controle externo e, quando torna-se público, produz dano reputacional a quem não é parte", diz a análise.

A conclusão do tópico recomenda que seja identificado quem batizou a operação como Elli e que o caso seja levado à Corregedoria da PF: "Apurar, por via documental, quem a atribuiu, quando e com que registro; verificar a existência de norma interna sobre nomenclatura de fases; e, confirmada a codificação de pessoa não investigada, submeter a questão à Corregedoria, que é a instância própria".

Com base nas informações, a defesa de Lulinha divulgou uma nota dizendo que o relatório de inteligência corrobora suspeitas apontadas sobre o direcionamento da investigação e defende o arquivamento das suspeitas sobre o filho do presidente.

Embora o relatório tenha classificado como "frágil" o vínculo de Lulinha com os fatos investigados no estágio inicial da apuração, o avanço das investigações, com informações do celular da lobista Roberta Luchsinger, revelou que ela efetivamente intermediou negócios de empresários com o governo federal. A própria PF passou a apontar indícios de que ela tinha uma sociedade oculta com Lulinha nesses negócios. Em decorrência disso, a PF solicitou a abertura de três inquéritos para apurar suspeitas de tráfico de influência e apontou a possibilidade de que Roberta fosse responsável por bancar as despesas do filho do presidente, a partir dos contratos firmados com empresários interessados em negócios no governo federal.

Tensões funcionais crescentes

O relatório de inteligência foi produzido com a intenção de informar o diretor-geral da PF sobre impressões dos investigadores e questões internas. Contudo, Moraes tornou públicas até mesmo as divisões dentro da PF com a divulgação do documento usado para incluir André Mendonça no inquérito da Fake News.

O documento faz um panorama sobre o surgimento de atritos nas equipes, depois que a direção da PF decidiu trocar a coordenação da Operação Sem Desconto em maio deste ano. A investigação, que estava sob o comando do delegado-chefe da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários, responsável por pedir busca e apreensão contra uma lobista amiga de Lulinha e a quebra do sigilo do próprio filho do presidente, foi retirada da Coordenadoria de Repressão a Crimes Fazendário (Cgfaz) e enviada para a Coordenadoria de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro (Cgrc), resultando na troca do delegado que coordenava as apurações.

"Desde a transferência da coordenação da operação da Cgfaz para a Cgrc, foram reportadas tensões funcionais crescentes", relata o documento. Cita como fontes os quatro delegados da Cgrc que assumiram a Operação Sem Desconto após a mudança promovida pela direção, sendo um dos poucos trechos em que as fontes da informação são nomeadamente apontadas, uma vez que a maior parte dos relatos são anônimos.

De acordo com o relatório, essa tensão ocorreu porque os novos coordenadores passaram a questionar os delegados responsáveis pelos inquéritos sobre os motivos das medidas adotadas na investigação. O relatório também registra a avaliação de que os investigadores da Operação Sem Desconto atuavam com maior autonomia funcional, que foi reduzida com a mudança na coordenação, que adotou um "crivo jurídico e investigativo" sobre as ações adotadas na apuração. As tensões, conforme o relatório, também envolveram "insinuações" dos delegados responsáveis pelos inquéritos, de que a mudança na coordenação tinha o objetivo de "matar" a Operação Sem Desconto.