Política
Centrais sindicais articulam pressão nos estados para antecipar votação da PEC do fim da escala 6x1
Entidades acusam cúpula do Senado de ceder ao setor patronal e planejam ofensiva nas ruas e redes para forçar deliberação antes do primeiro turno das eleições de 2026
As principais centrais sindicais do país decidiram unificar forças para pressionar senadores em todas as unidades da federação e antecipar a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019). O texto põe fim à escala de trabalho de seis dias por um de descanso (6x1) e reduz a jornada semanal máxima para 40 horas.
A mobilização começou neste fim de semana e visa reverter a decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de pautar a matéria apenas para depois das eleições de 2026. A mudança no cronograma ocorreu logo após a proposta ter sido aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na última quarta-feira (2).
Para os líderes sindicais, o adiamento serve aos interesses de setores empresariais que buscam evitar o desgaste dos parlamentares durante o período eleitoral.
"Os empresários falam que querem que vote depois da eleição porque sabem que o senador vai trair o povo. Fala que vota a favor do povo e, no dia seguinte, trai a população. É isso que nós vamos denunciar", afirmou o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sérgio Nobre. "Se os senadores forem cobrados nos estados, eles vão querer resolver essa situação. Vai pedir voto? Cadê a 6x1 primeiro?"
Plano de ação e busca por audiência
A estratégia das entidades foi desenhada em reunião emergencial do Fórum das Centrais Sindicais, que reúne as seis maiores representações do funcionalismo e da iniciativa privada no Brasil.
Entre as medidas aprovadas pelo fórum estão:
Panfletagem intensa em polos comerciais e centros urbanos onde a escala 6x1 é predominante;
Campanhas de conscientização e cobrança direta aos parlamentares em redes sociais;
Organização de manifestações e atos públicos de rua;
Pedido formal de audiência com a presidência do Senado para requerer a inclusão da matéria na pauta antes do primeiro turno.
O presidente da Força Sindical, Miguel Torres, classificou a decisão do Senado como uma "surpresa negativa", destacando que pesquisas indicam aprovação de mais de 70% da população à medida. "Se deixar para depois da eleição, podemos voltar para a estaca zero", alertou.
A frustração também é compartilhada por outras lideranças. Paulo de Oliveira, diretor executivo da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), considerou a medida "desleal com os trabalhadores", argumentando que a mudança tira a responsabilidade dos parlamentares perante seus eleitores.
Já o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, lembrou que a adequação da jornada é uma reivindicação histórica. Ele ressaltou a expressiva vitória na CCJ — onde a proposta teve apenas quatro votos contrários, todos de senadores que não disputarão o pleito deste ano —, o que reforçaria o viés favorável da casa à pauta.
Procurada pela reportagem para se manifestar sobre os questionamentos dos sindicatos, a assessoria do senador Davi Alcolumbre não retornou até o fechamento desta edição.
Qualidade de vida versus custo empresarial
No centro do debate estão visões opostas sobre a sustentabilidade econômica e social da mudança:
Argumento sindical: As centrais sustentam que o fim da jornada 6x1 é fundamental para a saúde mental, o bem-estar e o convívio familiar do trabalhador. Defendem ainda que a elevação de custos para os empregadores é marginal e facilmente absorvível pelo mercado, repetindo a dinâmica vista durante a promulgação da Constituição de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas semanais.
Argumento patronal: Por outro lado, confederações empresariais alertam para o risco de aumento do custo Brasil, potencial de retração no Produto Interno Bruto (PIB) e pressões inflacionárias.
Em nota, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, representando a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), defendeu o adiamento do debate.
"Mudanças constitucionais nas relações de trabalho exigem análise técnica, diálogo e previsibilidade. Não é uma discussão que deva ser conduzida sob a pressão do calendário eleitoral, mas sim em um ambiente que permita avaliar com responsabilidade seus impactos em empresas, empregos e trabalhadores", pontuou Tadros.
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