Política

Quem é o deputado Delegado da Cunha, demitido da Polícia Civil pelo governador Tarcísio

Suspeitas de agressão e simulação de prisões marcam a trajetória do parlamentar.

Estadao Conteudo 03/09/2026
Quem é o deputado Delegado da Cunha, demitido da Polícia Civil pelo governador Tarcísio
Delegado da Cunha - Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Carlos Alberto da Cunha, conhecido como Delegado da Cunha, é um deputado federal eleito em 2022, representando o Progressistas (PP) de São Paulo. Atualmente, ele está filiado ao União Brasil. O parlamentar faz parte de uma tendência crescente de candidatos policiais e delegados que conquistam o eleitorado por meio de uma abordagem conservadora em relação à segurança pública. O Estadão pediu uma manifestação do deputado, que ainda não se pronunciou.

Nesta quinta-feira, 3, o deputado foi demitido pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ele é acusado de simular prisões espetaculares, incluindo a de um chefe de facção criminosa, e de filmar operações de grande impacto para exibição em suas redes sociais e na televisão. Devido a isso, tornou-se alvo de processos administrativos disciplinares na Corregedoria da Polícia.

Em 2023, o deputado foi acusado de agredir sua esposa, Betina Raísa Grusiecki Marques, nutricionista. De acordo com o boletim de ocorrência registrado por ela, o deputado a xingou, ameaçou matá-la, bateu sua cabeça na parede e tentou enforcá-la. A vítima relata que chegou a desmaiar em decorrência das agressões e solicitou uma medida protetiva para que Da Cunha não se aproximasse ou realizasse qualquer contato.

A bandeira policial que sustenta a carreira política de Da Cunha é evidenciada pela sua atuação nas redes sociais. A plataforma onde ele possui o maior número de seguidores é o YouTube, onde, desde 2013, apresenta o cotidiano da Polícia Civil de São Paulo.

A descrição do seu canal diz: "Um canal de documentários retratando a Rotina da Polícia Civil de SP no combate ao crime organizado e às facções criminosas. O objetivo do canal é produzir conteúdo cultural para incentivar jovens a ingressar na honrosa carreira policial e se afastar do crime organizado".

Apesar de ostentar o título de delegado - que, ao contrário de juízes e promotores, não é vitalício - Da Cunha está afastado da Polícia Civil paulista desde junho de 2021. O Conselho da corporação finalizou dois processos administrativos que pedem a sua demissão. Na conclusão do primeiro, em junho de 2022, ficou evidenciado que o deputado forjou a prisão de um suposto líder do PCC e divulgou a operação em seu canal do YouTube sem a autorização de seus superiores. O vídeo teve mais de 30 milhões de visualizações e, durante o processo administrativo, Da Cunha admitiu a farsa.

O segundo pedido de demissão, de agosto do mesmo ano, foi motivado por críticas públicas feitas por Da Cunha a superiores hierárquicos. Como o cargo de delegado é público, depende de aprovação em concurso e nomeação pelo governador do Estado, a demissão segue o mesmo rito.

Tarcísio de Freitas (Republicanos) herdou o caso de Da Cunha e também de outro delegado influencer que se lançou na política, o deputado federal Paulo Bilynskyj, filiado ao PL de Jair Bolsonaro.

Como delegado de polícia da 1ª classe, Da Cunha recebia R$ 17 mil. Ele é bacharel em direito pela Universidade Católica de Santos, uma das exigências para o concurso. Hoje, como deputado federal, sua remuneração é de R$ 41,6 mil brutos, ou seja, aproximadamente duas vezes e meia mais.

Além disso, segundo informações disponíveis no site da Câmara dos Deputados, Da Cunha recebe R$ 4,2 mil de auxílio-moradia. Ao todo, seu rendimento mensal supera 34 salários mínimos.

A medida protetiva solicitada pela esposa do deputado não afeta sua permanência no cargo. Isso porque, juridicamente, funciona apenas como uma cautelar acessória à investigação criminal por violência doméstica. Da Cunha só perderá a cadeira na Câmara caso seja condenado pelas agressões, após esgotar todas as possibilidades de recurso. Atualmente, o caso está em fase de inquérito, e ele nega as acusações.