Política
“Recalculou a rota” para a humilhação: Ronaldo Lessa renega a própria história para continuar no palanque de JHC
Depois de ser preterido para vice e relegado à segunda suplência de Marina Candia, ex-governador diz que “não tem mais idade” e reafirma apoio a uma aliança que inclui o PL de Flávio Bolsonaro
Há derrotas eleitorais que fazem parte da política. Há mudanças de posição que podem ser explicadas pelas circunstâncias. E há decisões que colocam um homem público diante de sua própria biografia.
É exatamente nesse último ponto que se encontra Ronaldo Lessa.
O vice-governador de Alagoas decidiu romper o silêncio nesta sexta-feira (28) para reafirmar seu apoio a JHC (PSDB), mesmo depois de ter sido publicamente preterido na composição da chapa majoritária.
Lessa chegou a anunciar que seria candidato a vice-governador de JHC. A vaga, porém, terminou entregue à ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha. Para o ex-governador, sobrou a condição de segundo suplente de Marina Candia, esposa de JHC e candidata ao Senado.
É difícil encontrar definição mais clara para um rebaixamento político.
Ainda assim, em vez de questionar o tratamento recebido, Ronaldo Lessa resolveu transformar o episódio em uma espécie de manifesto sobre renovação.
“Eu não tenho mais idade nem motivo para estar onde não acredito”, declarou.
A frase, porém, provoca uma pergunta inevitável: se Ronaldo Lessa considera que a idade já pesa nas suas decisões políticas, por que simplesmente não encerra sua carreira?
Seria mais coerente.
Lessa poderia ter escolhido sair como saem os grandes personagens quando percebem que seu ciclo terminou: preservando a trajetória e o respeito acumulados.
No futebol, essa imagem ficou eternizada por Pelé. O maior jogador de todos os tempos soube deixar os gramados carregando consigo a condição de vencedor. Daí nasceu até uma expressão incorporada ao vocabulário popular: “sair por cima, como Pelé”.
Ronaldo Lessa escolheu outro caminho.
Depois de uma das trajetórias políticas mais importantes da história recente de Alagoas, aceita terminar uma eleição como segundo suplente da esposa do candidato que lhe retirou a vaga de vice.
E chama isso de “recalcular a rota”.
Que rota é essa?
Ronaldo Lessa afirmou: “Por isso recalculamos a rota. Mudei o caminho, mas não mudei aquilo em que acredito.”
É justamente aí que a declaração encontra sua maior contradição.
Lessa construiu praticamente toda a sua identidade pública no campo progressista.
Foi um político identificado historicamente com a esquerda, com movimentos populares, com o trabalhismo e com discursos voltados aos segmentos menos favorecidos da sociedade.
Foi vereador de Maceió.
Deputado estadual.
Deputado federal.
Prefeito da capital.
Governador de Alagoas por duas vezes.
E chegou novamente ao centro do poder estadual como vice-governador.
São décadas de uma trajetória que, independentemente das concordâncias ou divergências políticas que possa provocar, deu a Ronaldo Lessa lugar próprio na história política alagoana.
Agora, aos 77 anos, ele diz ter “mudado o caminho” sem mudar suas convicções.
Mas como conciliar essa afirmação com o palanque no qual decidiu permanecer?
A coligação de JHC reúne forças de direita e conta formalmente com o PL, partido de Flávio Bolsonaro.
É o mesmo campo político que, durante boa parte de sua trajetória, Lessa combateu.
Pode-se mudar de partido.
Pode-se mudar de aliado.
Pode-se rever conceitos.
O que não se pode fazer sem despertar questionamentos é atravessar praticamente todo o espectro ideológico e depois afirmar que permaneceu “exatamente do mesmo lado”.
De vice-governador a segundo suplente
A dimensão política do episódio também não pode ser ignorada.
Ronaldo Lessa não era um personagem periférico em busca de espaço.
É o atual vice-governador de Alagoas.
Foi governador duas vezes.
Foi prefeito da maior cidade do estado.
Ocupou mandatos no Legislativo estadual e federal.
Foi ele próprio quem tornou pública sua disposição de integrar a chapa de JHC como candidato a vice-governador.
Quando chegou a hora da composição, no entanto, ficou de fora.
JHC escolheu Célia Rocha.
À esposa de JHC, Marina Candia, coube a candidatura ao Senado.
À mãe de JHC, Eudócia Caldas, a primeira suplência.
E Ronaldo Lessa, ex-governador por dois mandatos e atual vice-governador do Estado, terminou acomodado na segunda suplência.
É um retrato político difícil de esconder atrás da expressão “recalcular a rota”.
“Renovação” com velhas contradições
Lessa também afirmou enxergar em JHC uma “renovação importante para Alagoas”.
“Tem experiência, capacidade de gestão e traz a esperança de um novo ciclo”, disse.
Depois acrescentou que “uma democracia forte também se faz com alternância de poder, novas ideias e novos caminhos”.
Alternância de poder é, de fato, princípio saudável de qualquer democracia.
O problema é utilizá-la como argumento conveniente apenas depois de ser descartado da posição que pretendia ocupar.
Até poucas semanas atrás, Ronaldo Lessa estava disposto a ser vice do próprio JHC.
Portanto, sua conversão à tese de que sua idade recomenda outro papel político só apareceu depois que outra pessoa recebeu a vaga.
Se tivesse sido confirmado como vice, estaria velho demais?
Provavelmente não.
Uma biografia colocada em xeque
Talvez essa seja a parte mais lamentável de toda a história.
Ronaldo Lessa teve momentos de enorme importância política em Alagoas.
Enfrentou grupos poderosos.
Representou, em diferentes momentos, setores progressistas e populares.
Participou de batalhas políticas marcantes.
Construiu uma biografia própria.
Não precisava terminar sua trajetória dessa maneira.
Não precisava ser candidato a coisa alguma.
Muito menos aceitar o papel secundário de segundo suplente numa chapa comandada pela esposa daquele que acabara de lhe negar a candidatura a vice-governador.
E tampouco precisava justificar essa escolha dizendo que permanece “do mesmo lado de sempre”.
Porque política também é símbolo.
E o símbolo que fica não é o de alguém que simplesmente “recalculou a rota”.
É o de um ex-governador que anunciou que seria vice, perdeu a vaga, foi deslocado para a segunda suplência da esposa de quem o preteriu e, mesmo depois de tudo isso, voltou a público para reafirmar fidelidade ao mesmo grupo.
Do lado de quem?
Ronaldo Lessa encerra sua manifestação dizendo:
“Continuo exatamente do mesmo lado de sempre: do lado do povo, do lado de quem mais precisa.”
É uma frase bonita.
Mas, depois de mais de quatro décadas de vida pública, Lessa sabe melhor do que ninguém que na política não bastam frases.
Existem escolhas.
Existem alianças.
Existem palanques.
E existem companhias.
Hoje, o PL de Flávio Bolsonaro está dentro da aliança política que sustenta JHC em Alagoas.
Ronaldo Lessa também está.
Esse fato não apaga sua história.
Mas certamente cria uma contradição enorme com boa parte dela.
Talvez Lessa esteja correto em uma única coisa: a rota realmente mudou.
Mudou ideologicamente.
Mudou politicamente.
E mudou, sobretudo, o lugar reservado a Ronaldo Lessa.
De governador por duas vezes e atual vice-governador de Alagoas para segundo suplente da esposa de JHC.
A política conhece muitas formas de encerrar uma carreira.
Ronaldo Lessa poderia ter escolhido sair como Pelé: por cima, respeitado, carregando consigo uma trajetória construída durante décadas.
Preferiu permanecer.
E corre o risco de permitir que a última fotografia de sua carreira política seja justamente a mais constrangedora de todas.Os fatos centrais que sustentam a crítica estão confirmados: Lessa declarou hoje que “não tem mais idade” para permanecer onde não acredita e que “recalculou a rota”; ele pretendia ser vice de JHC, mas a vaga ficou com Célia Rocha, enquanto Lessa foi deslocado para a segunda suplência de Marina Candia.
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