Política
Helô Bezerra denuncia traição da direção nacional do Solidariedade e retira candidatura a deputada federal
Advogada afirma que teve o projeto político inviabilizado após intervenção nacional comandada por Paulinho da Força; nos bastidores, decisão é atribuída à influência de Arthur Lira, a pedido de concorrentes de Palmeira
A advogada Helô Bezerra anunciou que não será mais candidata a deputada federal por Alagoas nas eleições deste ano. Em uma declaração carregada de emoção, a palmeirense afirmou que não desistiu da disputa por vontade própria, mas teve sua candidatura politicamente inviabilizada depois que a direção nacional do Solidariedade ignorou a decisão tomada pelo partido em Alagoas.
A retirada expõe uma verdadeira traição política sofrida por Helô dentro da própria legenda. A direção estadual da Federação Renovação Solidária, formada pelo Solidariedade e pelo PRD, havia aprovado uma aliança com o MDB e decidido acompanhar o candidato Renan Filho.
A Executiva Nacional, entretanto, interveio no processo e produziu uma segunda ata, mudando completamente a posição aprovada pelos dirigentes alagoanos. Sob influência da cúpula nacional, o partido foi deslocado para o palanque de JHC e de Arthur Lira, contrariando a decisão anteriormente tomada em Alagoas.
O Solidariedade é nacionalmente comandado pelo deputado federal paulista Paulinho da Força. Ele também ocupa posição de destaque na Federação Renovação Solidária e participou da reunião nacional que modificou o rumo da legenda em Alagoas. A documentação partidária mostra que a decisão nacional colocou a federação no mesmo projeto político articulado por Arthur Lira no Estado.
Para Helô Bezerra, permanecer candidata nessas condições significaria pedir votos para um grupo político com o qual não possui identificação.
“O nosso partido aqui em Alagoas escolheu marchar com outro candidato para o Governo do Estado. Já lá na Nacional, escolheram outro candidato para seguir junto, não respeitando a nossa vontade”, declarou.
A advogada foi ainda mais direta ao explicar por que não aceitou permanecer na chapa subordinada ao arranjo nacional.
“Seguir a ata da Nacional significa colocar o meu nome ao lado de um projeto que não me representa. Significa me colocar ao lado de quem não tem nada a ver comigo. E isso eu não vou fazer. Eu não vou olhar para vocês e pedir voto em quem eu não votaria”, afirmou.
Decisão nacional teria atendido Arthur Lira
Nos bastidores da política alagoana, comenta-se que a intervenção nacional teria ocorrido para atender aos interesses de Arthur Lira. O deputado, candidato ao Senado, trabalhou para ampliar o número de partidos reunidos em torno de sua candidatura e da chapa encabeçada por JHC.
Também circula entre lideranças políticas de Palmeira dos Índios a informação de que adversários locais de Helô Bezerra, igualmente interessados em uma vaga na Câmara Federal, teriam procurado Arthur Lira para pedir que sua candidatura fosse inviabilizada.
Essa versão ainda não foi confirmada publicamente por Arthur Lira, por Paulinho da Força ou pelos supostos candidatos envolvidos. Não há, até o momento, documento divulgado que comprove a autoria dos pedidos. O fato objetivo, porém, é que a mudança determinada em Brasília desautorizou a direção alagoana, beneficiou o grupo liderado por Lira e tornou politicamente insustentável a permanência de Helô na disputa.
A candidatura da advogada vinha ganhando projeção, especialmente em Palmeira dos Índios, onde vários nomes disputam o mesmo espaço eleitoral para a Câmara dos Deputados. A retirada de Helô reduz a concorrência local e beneficia diretamente os demais candidatos com base política no município.
“Inviabilizaram minha candidatura”
Em sua manifestação, Helô fez questão de afastar qualquer interpretação de desistência, fraqueza ou abandono dos apoiadores.
“Eu não desisti. Eu não abandonei ninguém. Eu não fugi da briga. Inviabilizaram a minha candidatura e o meu propósito de seguir com quem eu confio”, declarou.
Helô contou que inicialmente resistiu ao convite para entrar na política. Advogada, habituada ao trabalho em escritório e à defesa de clientes, disse que preferia permanecer nos bastidores. A experiência da pré-campanha, entretanto, mudou sua relação com a atividade política.
“Cheguei pensando que não era o meu lugar. Mas eu me encontrei. Eu me encontrei na estrada, na casa das pessoas, na cozinha com as mulheres, dando aperto de mão na mão calejada, abraçando cada um de vocês”, relatou.
A declaração evidencia que a retirada não representa uma rejeição à política nem o encerramento definitivo do projeto. Helô afirmou que continuará atuando como advogada e defendendo professores, mulheres, agricultores e outros segmentos que passaram a integrar sua caminhada.
“Eu não abro mão dos meus princípios e nem das minhas convicções só para caber em uma chapa e ser candidata por vaidade”, ressaltou.
Uma conta política que ainda poderá ser cobrada
O episódio deixa consequências para a direção nacional do Solidariedade em Alagoas. Ao ignorar uma decisão unânime tomada no Estado e impor uma composição negociada em Brasília, a cúpula partidária sacrificou uma candidatura feminina, jovem e oriunda do interior para atender a um arranjo político comandado pelas grandes lideranças estaduais.
A decisão também coloca Paulinho da Força no centro das explicações. Caberá ao dirigente esclarecer por que a vontade dos filiados e dirigentes alagoanos foi desconsiderada e quais interesses justificaram a intervenção.
Helô encerrou seu pronunciamento agradecendo às pessoas que a receberam durante a caminhada e indicando que a pausa poderá não ser definitiva.
“O que eu comecei não dependia de cargo para existir e não vai depender agora. Isso não é um adeus, é uma pausa. Obrigada a cada pessoa que me recebeu em sua casa, que me ouviu, que orou e acreditou em mim. Fiquem todos com Deus e até breve”, concluiu.
A direção nacional do Solidariedade, Paulinho da Força e Arthur Lira ainda não se pronunciaram especificamente sobre as declarações de Helô Bezerra e sobre as informações de bastidores relacionadas à retirada da candidatura. O espaço permanece aberto para manifestação dos citados.
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