Política

Crises, disputas e reconciliações: os conflitos entre Michelle e filhos de Bolsonaro

Entenda a complexa relação entre a ex-primeira-dama e os herdeiros do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Estadao Conteudo 24/07/2026
Crises, disputas e reconciliações: os conflitos entre Michelle e filhos de Bolsonaro
Conflitos familiares marcam a relação entre Michelle e filhos de Jair Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A relação entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) passou por anos de desgaste, evoluindo para uma disputa aberta dentro do núcleo político da família. O conflito, que apresentou os primeiros sinais ainda na posse presidencial de 2019, abrangeu divergências sobre redes sociais, declarações públicas, disputas por espaço dentro do PL e diferenças nas estratégias eleitorais.

Ao longo desse período, os atritos envolveram principalmente o ex-vereador do Rio, Carlos Bolsonaro (PL-SC), mas também se manifestaram ao senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em diferentes momentos, Jair Bolsonaro admitiu o distanciamento entre Michelle e Carlos, enquanto a ex-primeira-dama declarou ter sido desrespeitada pelos enteados.

A seguir, a cronologia dos episódios principais.

Primeiros sinais exibidos na posse presidencial

O primeiro episódio público ocorreu em 1º de janeiro de 2019, durante uma coletiva de posse de Jair Bolsonaro. No tradicional desfile em carro aberto, Carlos Bolsonaro ocupou o banco traseiro do Rolls-Royce ao lado do pai e de Michelle, quebrando o protocolo que normalmente reserva esse espaço ao casal presidencial.

Na ocasião, uma atitude foi interpretada pelos aliados como um reconhecimento ao papel de Carlos na campanha presidencial, mas rapidamente passou a ser vista como um dos primeiros acusados ​​da disputa pela proximidade com o então presidente.

Redes sociais ex estabeleceram os primeiros atritos

Após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, a relação ganhou um novo capítulo. Michelle e Jair Bolsonaro deixaram de seguir no Instagram, alimentando especulações sobre um possível desgaste entre o casal. A então primeira-dama declarou que as redes do marido eram administradas por terceiros, garantindo que os dois permanecessem unidos.

Nos bastidores, porém, esse episódio foi associado à atuação de Carlos Bolsonaro, responsável por administrar os perfis digitais do pai durante mais de uma década. Michelle também não seguiu Carlos nem Jair Renan nas redes sociais.

Trocas de indiretas envolvem a família

Em julho de 2024, Carlos Bolsonaro reclamou publicamente do pai após uma fotografia em que Jair Bolsonaro aparecia com a filha do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Nas redes sociais, Carlos escreveu: "Legal o cara fazer isso com sua filha e com a minha não".

Poucas horas depois, Michelle publicou uma mensagem desejando que Deus livrasse a criança “de toda inveja e maldade”. Embora não mencionesse o entendimento, a publicação foi interpretada como uma resposta ao comentário de Carlos.

Bolsonaro confirma rompimento entre Michelle e Carlos

A tensão foi confirmada pelo próprio Jair Bolsonaro em fevereiro de 2025. Em entrevista ao canal Leo Dias TV, o ex-presidente afirmou que Michelle e Carlos não se conversavam, revelando que o conflito estaria ligado a questões pessoais e ciúmes.

Segundo Bolsonaro, a relação da ex-primeira-dama com seus filhos sempre teve “altos e baixos”.

Michelle disse que perdoou, mas preferia manter distância

Um mês depois, Michelle comentou publicamente a situação. Em entrevista ao jornalista Alexandre Garcia , afirmou que havia perdoado Carlos, mas que não tinha intenção de conviver com ele. Ela explicou que o relacionamento nunca foi fácil, atribuindo parte do desgaste à diferença de idade entre ela e Jair Bolsonaro, e enfatizou a preferência pela distância para evitar conflitos.

Michelle também destacou que nunca tentou impedir a relação entre pai e filho, reafirmando que Bolsonaro estava livre para viajar e passar tempo com Carlos.

Cirurgia de Bolsonaro mudou os dois lados

Em abril de 2025, no período de recuperação de Jair Bolsonaro após uma cirurgia abdominal, ocorreu um movimento de aproximação. Carlos elogiou publicamente Michelle, afirmando que ela o cuidava "como uma leoa" e desempenhava um papel crucial em sua recuperação.

Dias antes, durante um ato na Avenida Paulista, Michelle havia cumprimentado Carlos com um beijo no rosto, um gesto proposto por aliados devido ao histórico de desentendimentos.

Divergência política ampliada crise familiar

A relação voltou a estremecer no final de 2025, agora por questões políticas. Durante um evento no Ceará, Michelle criticou a união do deputado André Fernandes (PL-CE) com o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) – atualmente candidato ao governo do Ceará com apoio do PL.

A declaração provocou a ocorrência dos três filhos de Bolsonaro, que afirmaram que o entendimento havia ocorrido com a autorização do ex-presidente. Carlos publicou que era preciso respeitar a liderança do pai, enquanto Eduardo classificou a postura de Michelle como injusta e desrespeitosa.

Após a repercussão, Michelle divulgou uma nota afirmando respeito a opinião dos enteados e pedindo que eles compreendam sua posição. Flávio, posteriormente, declarou ter conversado com ela e pedido desculpas por tê-la chamada de autoritária.

Ano eleitoral acirrou disputas internas

Em 2026, Michelle anunciou que não participaria da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, embora também não pretendesse criticá-lo publicamente. Logo após, Eduardo Bolsonaro declarou que tanto Michelle quanto Nikolas Ferreira deveriam se dedicar mais intensamente à candidatura do irmão, alegando que ambos sofriam de "amnésia" ao não demonstrarem apoio suficiente.

Na mesma época, Michelle fez um pronunciamento apoiando a deputada Caroline de Toni na disputa por uma vaga ao Senado em Santa Catarina, um movimento visto como contrário à pretensão eleitoral de Carlos Bolsonaro no estado.

Acusação de humilhação marcou pior momento da crise

Em junho de 2026, Michelle divulgou um vídeo afirmando que Flávio Bolsonaro havia tratado de forma ríspida durante uma conexão telefônica. Segundo ela, o senador indicou que seria melhor que ela se mantivesse afastada das decisões do partido, alegando sua falta de entendimento sobre política, o que ela classificou como uma "punhalada".

As declarações divulgaram a crise familiar e tiveram ampla repercussão entre aliados do PL.

Eduardo criticou Michelle e Flávio tentaram encerrar conflitos

Em julho, Eduardo Bolsonaro afirmou que Michelle havia cometido uma “imaturidade” ao divulgar o vídeo contra Flávio, atribuindo a exposição pública do conflito à disputa pelo espaço político deixado por Jair Bolsonaro. Dias depois, Flávio divulgou um vídeo pedindo desculpas à madrasta, elogiando sua atuação à frente do PL Mulher e liberando seu papel no cuidado com Jair Bolsonaro, que se encontra sob prisão domiciliar, e defendendo a união da direita para as eleições.

Michelle respondeu aceitando o pedido de desculpas no mesmo dia, às vésperas da convenção do PL que oficializará Flávio como candidato à Presidência. Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou ter recebido as palavras do enteado "com muita paz", verificando que todos cometem erros e propondo uma reconciliação em nome da união do grupo político liderado por Jair Bolsonaro.

A resposta marcou, até o momento, um dos pontos mais concretos de reaproximação pública entre Michelle e Flávio após anos de conflitos familiares, disputas internas e divergências sobre os rumores políticos do bolsonarismo.