Política
Fundo eleitoral abre crise no PSOL e expõe disputa por recursos
Parlamentares acusam direção do partido de desproporcionalidade na divisão de verbas e cobram transparência nos critérios para 2026
A disputa pela distribuição do fundo eleitoral provocou uma nova crise interna no PSOL. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), o deputado estadual paulista Carlos Giannazi, a deputada estadual fluminense Renata Souza e o vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo vieram a público nesta terça-feira, 23, para reclamar que suas candidaturas teriam sido preteridas no repasse dos recursos destinados ao partido para as eleições deste ano.
O grupo alega desproporcionalidade na divisão das verbas. Segundo os parlamentares, a legenda estaria priorizando o presidente da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, e nomes recém-chegados ao partido, como Manuela D'Ávila. Eles afirmam ainda que o programa de fomento a candidaturas de mulheres, negros e pessoas com deficiência estaria sendo "desmontado" pela presidente nacional do PSOL, Paula Coradi.
A insatisfação, de acordo com relatos de bastidores, também é compartilhada por outros integrantes do partido. Coube ao grupo liderado por Erika Hilton tornar pública a queixa.
"É um absurdo que a direção partidária feche os olhos para essa realidade. Hoje, Juliano Medeiros, em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade que eu. Manuela D'Ávila, que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro", escreveu Erika.
A deputada afirmou que o plano representa "o privilégio branco e cis sobrepondo tudo: os acordos feitos conosco, cálculos eleitorais sérios". "A inteligência política passou longe. É uma tentativa de asfixiar quem está na linha de frente em detrimento de um perfil de pré-candidaturas bem específico, de grupos que só pensam em si mesmos e estão, mais uma vez, arriscando a viabilidade do PSOL", declarou.
Rick Azevedo, aliado de Erika e um dos principais mobilizadores da pauta pelo fim da escala 6x1 no PSOL, reforçou os argumentos da deputada e cobrou transparência da direção partidária. "É imperativo questionar os critérios de distribuição de recursos eleitorais, pois toda direção tem o direito de fazer escolhas, mas também o dever de assumi-las publicamente", disse.
Renata Souza afirmou que o partido estaria repetindo práticas de "legendas que instrumentalizam a pauta de gênero e raça para, no fim, fortalecer os homens brancos no poder".
"O partido de Marielle Franco tem que ser exemplo. Não basta se dizer diverso e plural, é preciso ter uma prática política coerente e responsável com a representação popular. Que essa decisão seja reconsiderada, para que o PSOL não caia na vala comum dos partidos brasileiros, que nunca quiseram que nossa gente acessasse os espaços de poder", afirmou.
Carlos Giannazi também pediu que a direção nacional reavalie a distribuição dos recursos. "O PSOL enfrentará, neste ano, não apenas os adversários políticos e a extrema direita, mas também o desafio da cláusula de barreira. Diante desse cenário, é fundamental ter responsabilidade, planejamento e capacidade tática", declarou.
A insatisfação não se limita aos quatro parlamentares que se manifestaram publicamente. Outros psolistas relatam queixas semelhantes, mas preferiram manter a discussão no âmbito interno do partido.
Sob condição de reserva, integrantes do PSOL afirmam que a legenda ainda enfrenta desorganização eleitoral em razão de divergências entre tendências políticas internas e de disputas regionais, como a divisão entre os diretórios do Rio de Janeiro e de São Paulo. O cenário, segundo esses relatos, dificulta a construção de consenso.
O principal temor desse grupo está relacionado à cláusula de barreira, regra eleitoral que estabelece desempenho mínimo nas urnas para que os partidos tenham acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda no rádio e na televisão.
Esta não é a primeira exposição pública de divergências feita pelo grupo de Erika Hilton. No fim de fevereiro, uma ala liderada por Erika e pelo atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, defendeu publicamente a formação de uma federação com o PT como estratégia para garantir a sobrevivência do PSOL diante da cláusula de barreira.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo no início de março, o grupo de Boulos afirmou que, diante do avanço do bolsonarismo, "não existe espaço para um projeto de simples demarcação ou para gastar nossas energias em disputas internas menores". A posição, no entanto, acabou derrotada dentro do partido.
Em 2022, em federação com a Rede Sustentabilidade, o PSOL elegeu 14 deputados e ampliou a bancada após a reversão de um resultado eleitoral no Amapá. Atualmente, a federação conta com 11 deputados do PSOL e quatro da Rede.
Em 2026, para superar a cláusula de barreira, os partidos precisarão obter ao menos 2,5% dos votos válidos distribuídos em pelo menos nove Estados, com mínimo de 1,5% em cada um deles, ou eleger 13 deputados federais, também distribuídos em pelo menos nove Estados.
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