Política
Curso de enfermagem indígena recebe reconhecimento na Comissão de Educação
Iniciativa da Unemat forma profissionais indígenas e pode inspirar experiências semelhantes em outras regiões do país
O curso de Enfermagem Intercultural Indígena, desenvolvido pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), foi apresentado em audiência pública da Comissão de Educação e Cultura (CE) nesta quinta-feira (11). O requerimento foi apresentado pelo senador Wellington Fagundes (PL-MT), com o objetivo de reconhecer o pioneirismo da iniciativa e estimular sua replicação em outras regiões do país.
Segundo Fagundes, o fortalecimento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, integrante do Sistema Único de Saúde (SUS), exige a formação de profissionais de saúde preparados para compreender as especificidades tradicionais, culturais e sociais dos povos originários. Para isso, o parlamentar defendeu a união de esforços institucionais e parcerias com a recém-criada Universidade Federal Indígena.
O senador também afirmou que buscará incluir recursos financeiros para o curso da Unemat na previsão orçamentária do próximo ano.
— Muito mais do que uma experiência acadêmica, ao longo desta audiência ficou muito claro que o curso representa um modelo de inclusão, de respeito à diversidade cultural e de fortalecimento da saúde indígena. Os relatos que ouvimos mostram como essa experiência inovadora é necessária para o Brasil. Vimos como a educação pode transformar vidas e como a formação de profissionais indígenas gera resultados concretos para as comunidades — destacou Fagundes.
Formação
De acordo com a coordenadora do curso de Enfermagem Intercultural Indígena, Ana Cláudia Pereira Trettel, a graduação atende 42 povos indígenas. Ela informou que 570 profissionais já foram formados pela instituição e que 308 estudantes estão atualmente matriculados.
Ana Cláudia reforçou que a principal finalidade da audiência pública foi “construir pontes” e buscar o envolvimento de outras universidades do país, respeitando as características de cada região.
— Nosso objetivo aqui é dar as mãos a todos os que queiram replicar ou adaptar a formação desses profissionais em todo o Brasil, já que cada região tem a sua especificidade — afirmou.
A reunião foi conduzida pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que pediu aos debatedores mais detalhes e sugestões sobre formas de atuação do Congresso Nacional para fortalecer a iniciativa.
— A importância desse curso vai além de dar uma oportunidade de emprego, porque trata, inclusive, da preservação da cultura e da preservação do povo — disse a senadora.
'Avanço concreto'
Membro da Câmara Técnica de Enfermagem em Atenção à Saúde dos Povos Originários do Conselho Federal de Enfermagem, Marcelo Carvalho Conceição afirmou que a entidade reconhece a relevância acadêmica, sanitária, social, cultural e histórica do curso de Enfermagem Intercultural Indígena da Unemat.
Ele defendeu incentivos financeiros e acadêmicos para a instituição, além do fortalecimento das políticas educacionais voltadas à área.
— Essa iniciativa representa um avanço concreto para a saúde dos povos originários. Trata-se de uma enfermagem que reconhece o Brasil em sua diversidade, respeita os territórios, valoriza os saberes tradicionais e compreende a saúde indígena como um campo estratégico — declarou.
Aluno do curso, Yakagi Kuikuro Mehinaku disse sentir orgulho do projeto e afirmou que cada aula, estágio e desafio tem contribuído para a formação dos enfermeiros indígenas.
— Para mim, significa muito mais do que receber um diploma. Significa voltar para a minha comunidade com mais conhecimento para cuidar das crianças, dos jovens, dos adultos e dos anciãos, além de ajudar a fortalecer a saúde indígena — relatou.
Saúde indígena
O chefe da Divisão de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Gustavo Hoff, observou que a Organização Mundial da Saúde reconhece como desafio a permanência de profissionais em áreas remotas. Segundo ele, evidências internacionais indicam que apenas 20% dos enfermeiros permanecem na mesma unidade por mais de um ano.
Ao afirmar que a política de saúde indígena do governo atende atualmente a mais de 800 mil indígenas, Hoff classificou a experiência da Unemat como uma resposta a uma questão estratégica para o país.
— Mais do que formar enfermeiros indígenas, trata-se de construir evidências, metodologias e redes de cooperação capazes de sustentar uma política nacional de formação intercultural para os povos indígenas do país — afirmou.
Também participaram da audiência Gersem Baniwa, integrante da Coordenação do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI); Fernando Augusto Kreismann, coordenador de projetos estratégicos e articulação institucional substituto do Ministério da Educação; e Adailton Alves da Silva, representante da reitoria da Unemat.
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