Política
Bolsonarismo radical transforma ato em “evento de Deus” e mistura fé com disputa de poder
A participação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em um ato político realizado neste domingo (25), em Brasília, reacendeu um traço recorrente do bolsonarismo mais radical: a tentativa de revestir disputas políticas com linguagem religiosa, apresentando mobilizações partidárias como manifestações de vontade divina.
O ato foi organizado pelo deputado federal Nikolas Ferreira e reuniu apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, com críticas diretas a decisões do Supremo Tribunal Federal. Michelle chegou de surpresa, discursou por poucos minutos e classificou a manifestação como “um evento conduzido por Deus”.
Fé como instrumento político
Ao atribuir caráter divino a um ato político, Michelle Bolsonaro reforçou uma narrativa messiânica já conhecida no campo bolsonarista: a de que seu grupo representaria uma espécie de “missão sagrada”, enquanto adversários políticos e instituições republicanas seriam tratados como inimigos morais ou espirituais.
Especialistas em ciência política e religião apontam que esse tipo de discurso não busca apenas mobilizar apoiadores, mas também deslegitimar o contraditório, transformando divergências democráticas em uma luta entre “bem” e “mal”. Nesse enquadramento, quem discorda deixa de ser adversário político e passa a ser visto como alguém que se opõe à vontade de Deus.
Discurso curto, recado simbólico
Durante a fala, Michelle pediu que os participantes seguissem as orientações de Nikolas Ferreira, afirmou que o ato era pacífico e citou pautas religiosas, sem entrar em detalhes jurídicos ou políticos. Logo após, deixou o local alegando compromissos familiares.
Apesar da brevidade, o recado foi claro: a sacralização do movimento, estratégia que tenta blindar o bolsonarismo de críticas e responsabilizações, inclusive no contexto das investigações e condenações que envolvem o ex-presidente.
Risco à democracia
Analistas alertam que o messianismo político é incompatível com o funcionamento saudável da democracia. Ao se colocar como instrumento divino, um grupo político passa a rejeitar limites institucionais, como decisões judiciais, eleições ou regras constitucionais, vistas não como parte do jogo democrático, mas como obstáculos a serem superados.
No caso do bolsonarismo extremista, essa retórica tem sido usada para pressionar instituições, questionar decisões do Judiciário e manter uma base mobilizada emocionalmente, mesmo diante de fatos jurídicos consolidados.
Entre a fé e a República
O episódio deste domingo mostra, mais uma vez, como setores da extrema direita brasileira insistem em confundir religião com projeto de poder, tentando persuadir a população de que apoiar um líder político é um ato de fé.
Em um Estado laico, a instrumentalização da crença religiosa para legitimar disputas políticas não apenas empobrece o debate público, como ameaça princípios básicos da convivência democrática, ao substituir argumentos, leis e votos por supostas revelações divinas.
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