Poder e Governo

Tereza Cristina mantém candidatura ao comando do Senado e busca dissidentes do PL e Centrão

Ex-ministra aposta em maior trânsito entre partidos e na bancada feminina; ala próxima a Valdemar resiste à candidatura do ex-coordenador da campanha de Flávio

Agência O Globo - 03/11/2026
Tereza Cristina mantém candidatura ao comando do Senado e busca dissidentes do PL e Centrão
Tereza Cristina mantém candidatura ao comando do Senado e busca dissidentes do PL e Centrão - Foto: © Foto / Carlos Moura / Agência Senado

A senadora Tereza Cristina (PP-MS) reafirma sua candidatura à presidência do Senado e busca ampliar seu apoio entre os integrantes do Centrão e dissidentes do PL que mostram resistência ao nome de Rogério Marinho (PL-RN). Apesar da tentativa de unificação da oposição para enfrentar a reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP), a ex-ministra da Agricultura do governo Jair Bolsonaro pretende persistir na disputa, apostando em seu trânsito entre diferentes partidos para conquistar votos. Essa movimentação acontece enquanto a bancada do PL sustenta o lançamento da candidatura de Marinho, previsto para esta quarta-feira.

Ainda assim, a estratégia ocorre mesmo após a federação União Progressista, formada pelo União Brasil e pelo PP, ter declarado apoio à reeleição de Alcolumbre na semana passada. Em nota assinada pelos presidentes das duas siglas, Antonio Rueda e Ciro Nogueira, a federação justificou que a continuidade do senador na presidência contribui para a “estabilidade institucional e o equilíbrio político”.

Contudo, a decisão enfrenta dissidências. O senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP), por exemplo, já anunciou que não votará em Alcolumbre, contrariando as diretrizes partidárias. A adesão formal da federação não impede, ainda, que Tereza, filiada ao PP, mantenha sua candidatura e busque apoios individuais entre os senadores, considerando que a eleição será realizada por voto secreto.

A candidatura de Tereza conta com simpatia de uma ala do PL próxima ao presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto. Nos bastidores, integrantes desse grupo avaliam que Marinho enfrenta resistências entre os partidos do centro e que sua insistência na candidatura pode levar a oposição a uma derrota. Para esses interlocutores, Tereza tem uma maior capacidade de unir parlamentares que não desejam a recondução de Alcolumbre, mas que também não apoiam o líder da oposição.

A avaliação desse grupo sugere que o PL deveria abrir mão de uma candidatura própria se realmente deseja aumentar suas chances de conquistar a presidência do Senado. Integrantes da legenda argumentam que Marinho não pode ser considerado o único nome da direita e defendem uma composição em torno da ex-ministra.

Marinho, por sua vez, conta com o apoio do senador em final de mandato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que foi derrotado na eleição presidencial, e de Carlos Bolsonaro (PL-SC), recém-eleito senador por Santa Catarina. A partir de fevereiro, o PL terá 29 senadores e visa aproveitar esse crescimento para ampliar sua influência sobre o funcionamento da Casa.

Tereza e Marinho realizaram uma reunião na semana passada a fim de discutir a possibilidade de unificar a oposição em torno de uma única candidatura, mas não houve consenso. Ambos mantiveram suas pretensões. A ex-ministra pretende acompanhar, nesta semana, a evolução do placar e avaliar a possibilidade de atrair novos apoios antes da eleição, prevista para 1º de fevereiro.

Aliados da senadora contestam, ainda, as contas apresentadas pelo grupo de Alcolumbre. A avaliação deles é de que o atual presidente do Senado teria entre sete e oito votos a menos do que os 48 que seus interlocutores afirmam reunir. Nas projeções da oposição, há parlamentares que estão contabilizados simultaneamente nas projeções de diferentes candidaturas, o que aumenta a incerteza sobre o resultado.

Aposta na bancada feminina

Outro fator relevante na movimentação de Tereza é a possibilidade de ampliar a representatividade de lideranças femininas na reorganização da direita após a derrota de Flávio Bolsonaro. A ex-ministra é uma das principais representantes desse campo no Senado e pretende explorar o argumento de que sua candidatura representa uma alternativa à disputa entre Marinho e Alcolumbre.

Tereza também busca se diferenciar dos concorrentes pela agenda que se compromete a defender à frente do Senado. Ela não descarta discutir pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), mas considera que esse tema não deve dominar os trabalhos da Casa. Seus aliados defendem que a próxima legislatura também priorize reformas econômicas.

Disputa pelos votos do Centrão

Na semana passada, a bancada do PL e senadores da oposição rejeitaram uma proposta de acordo para apoiar a reeleição de Alcolumbre. A articulação envolvia uma negociação entre Congresso, governo e Judiciário para amenizar a situação judicial de Jair Bolsonaro, condenado por liderar uma trama golpista.

A proposta encontrou resistência entre os parlamentares da direita, que questionaram a capacidade de Alcolumbre em assegurar o cumprimento de um eventual entendimento. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS) se opuseram à possibilidade de vincular a eleição da Mesa à situação do ex-presidente.

Com os 29 senadores do PL e os três eleitos pelo Novo, a oposição estima uma base potencial de 32 parlamentares contrários à reeleição de Alcolumbre. Contudo, esse número não representa, necessariamente, um apoio consolidado a Marinho, considerando as divergências sobre quem deve encabeçar a candidatura.

Alcolumbre conta com o respaldo de direções partidárias do Centrão e de legendas da base governista, mas enfrenta resistências dentro de algumas dessas bancadas. A federação União-PP, por exemplo, terá 11 senadores e reúne parlamentares que não têm intenção de seguir a orientação favorável à recondução do atual presidente.

Além disso, os votos de Republicanos, Podemos e PSDB também estão em disputa, somando 16 parlamentares na próxima legislatura.