Poder e Governo
Gonet ausente, recado a Mendonça, troca de olhares e indiretas: como foi a sessão que barrou investigação sobre procurador-geral
Dureza de algumas das manifestações gerou surpresa dos bastidores da PGR
A sessão do Conselho Superior do Ministério Público Federal que decidiu pela permanência do procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, à frente das investigações sobre o Banco Master e rejeitou, por 5 votos a 4, a abertura de uma apuração sobre sua conduta, foi marcada por embates fortes, diretos e indiretos, entre os integrantes do MP.
O ambiente em plenário foi de tensão e divergência. Gonet não estava presente, enquanto conselheiros se revezavam em manifestações que, em alguns momentos, contrariavam o voto do relator, Francisco de Assis Vieira Sanseverino.
A decisão sobre a investigação foi apertada, e o conselho acabou rachado. A dureza de algumas das manifestações gerou surpresa dos bastidores da PGR.
A deliberação ocorreu após Gonet ter sido mencionado em diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do banco, e a divulgação de uma foto em que os dois aparecem juntos em um evento em Londres.
Em meio à discussão, houve troca de olhares e anotações entre os integrantes do colegiado. A sessão também teve recados e referências laterais ao embate que envolve o caso Master.
Sanseverino retomou uma discussão que teve com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, enquanto outros conselheiros questionaram a atuação de Gonet na análise de questões que diziam respeito à própria conduta.
Alexandre Camanho, ao iniciar seu voto, saudou o “destemor dos votos divergentes”, numa referência aos colegas que haviam defendido uma apuração mais aprofundada.
A divergência entre os conselheiros acabou se refletindo no resultado. Enquanto Sanseverino defendeu o arquivamento de procedimento e a permanência de Gonet no caso, quatro conselheiros sustentaram que ainda havia questões a serem esclarecidas sobre a relação do PGR com Daniel Vorcaro e defenderam uma apuração preliminar.
A permanência de Gonet no caso Master, por outro lado, foi aprovada por unanimidade, por 9 votos a 0.
Um dos momentos de maior tensão ocorreu quando Sanseverino retomou o episódio envolvendo Mendonça. O conselheiro lembrou o embate ocorrido em março, quando o ministro havia dado prazo de 72 horas para que Gonet se manifestasse após a prisão de Vorcaro.
O PGR pediu mais tempo, alegando que precisava analisar mais de 700 páginas. Sanseverino classificou como “necessário e indispensável” um período razoável para a análise diante da “quantidade excessiva de trabalho” e do “volume de processos”.
A referência a Mendonça não foi a única mensagem indireta da sessão. Ao defender o arquivamento, o conselheiro Hindenburgo Chateaubriand Filho criticou o que chamou de “criminalização da suspeição e do impedimento” e questionou a ideia de que a simples menção a Gonet em informações relacionadas a Vorcaro seria suficiente para indicar interesse pessoal do procurador-geral.
— Não consigo perceber qual a possibilidade de se cogitar que a não declaração de suspeição pelo simples fato de o PGR ter sido mencionado nessas informações já indicasse o propósito dele de criar uma situação para seu próprio interesse. Em momento algum o PGR pediu o arquivamento do fato, ele pediu o arquivamento da petição — disse Hindenburgo.
O clima de divergência ficou ainda mais evidente nos votos de Samantha Dobrowolski e José Adonis. Os dois defenderam que Gonet não deveria ter participado da análise de questões relacionadas à sua própria conduta.
Samantha afirmou que o procurador-geral não poderia ser “promotor natural de si próprio” nem “juiz da própria conduta” diante de elementos que mencionavam sua pessoa e seu círculo.
— Ele não tinha o direito de ser promotor natural de si próprio e nem juiz da própria conduta ao se deparar com elementos dando conta da sua pessoa e do seu círculo, por mais indiciários que esses elementos sejam ou fossem — afirmou Samantha.
Adonis, por sua vez, levou o debate para a discussão sobre o sistema acusatório e fez críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal em investigações. Ao defender a separação entre as funções de acusação e julgamento, citou a condução do inquérito das fake news pelo próprio ministro relator, Alexandre de Moraes, desde 2019.
— A condução do inquérito 4781, pelo próprio ministro relator no STF desde 2019, com o objeto que vem sendo ampliado para alcançar novos fatos e pessoas, é o maior exemplo de clara e contundente violação do sistema acusatório. Rotineiramente lemos notícias sobre decisões de ministros do STF determinando à Polícia Federal de ofício a investigação de fatos delituosos. Nesses casos notórios não se tem notícia de atuação do PGR Paulo Gonet na defesa da observância do sistema acusatório — afirmou Adonis.
Ana Borges, que também votou pela abertura da apuração, afirmou que os elementos disponíveis não permitiam afirmar a existência de um crime, mas justificavam esclarecer os fatos.
— Quanto mais alta a autoridade da República, maiores têm que ser os cuidados. É por isso que precisa do dolo específico, porque equívocos podem acontecer. Mas, neste caso, é preciso saber o que aconteceu — afirmou.
A proposta de aprofundamento partiu especialmente de Janice Ascari, que afirmou que os elementos disponíveis não eram suficientes para uma investigação criminal imediata, mas também não permitiam simplesmente arquivar o caso. Ela defendeu uma “apuração preliminar” para esclarecer uma série de questões factuais relacionadas à relação entre Gonet e Vorcaro.
Janice citou diretamente a fotografia de Gonet e Vorcaro em Londres, revelada pelo GLOBO, e afirmou que a imagem não parecia ser uma selfie ou um registro casual. Segundo ela, os quatro aparecem “posando e sorrindo”, em um “claro momento de descontração social”. A conselheira queria esclarecer, entre outros pontos, quem havia iniciado a consulta sobre a participação do filho de Gonet, Pedro, na viagem, se houve convite, reserva ou pagamento e qual havia sido o conteúdo de uma breve ligação entre Gonet e Vorcaro.
Tony Blair entrou no voto
Em meio à discussão sobre a fotografia de Gonet e Vorcaro em Londres, Sanseverino também fez referência ao evento em que os dois apareceram juntos. Ao defender que a imagem não seria suficiente para estabelecer uma relação de proximidade capaz de justificar a abertura de uma apuração, o relator mencionou a presença de outras autoridades no mesmo encontro, entre elas o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Sanseverino também citou um pedido de desculpas feito pelo organizador do fórum, em meio à discussão sobre o contexto da fotografia.
Café e problemas na transmissão
A sessão teve ainda momentos menos formais. Em determinado momento, um comentário de Sanseverino ficou aberto no microfone. Ao falar sobre o café servido durante a reunião, ele disse — “Prefiro sem açúcar”. Houve duas rodadas de café ao longo da sessão.
Outro episódio ocorreu durante problemas técnicos na transmissão. Nicolao Dino reagiu a comentários nas redes sociais de que a reunião não estaria sendo realizada de forma pública e reafirmou que a sessão estava sendo transmitida.
O ambiente presencial também chamou atenção pela quantidade reduzida de integrantes do MPF. Ubiratan Cazetta, chefe de gabinete de Gonet, acompanhou a sessão da primeira fila. Na segunda fila, um representante do Novo pediu esclarecimentos após o voto de Sanseverino, mas Dino afirmou que não havia previsão regimental para “sustentações orais” naquele momento.
A ausência de Gonet foi outro elemento marcante. O procurador-geral não participou da sessão que discutiu sua própria conduta. Ao fim, apesar da divisão entre os conselheiros sobre a necessidade de aprofundar os fatos, o Conselho rejeitou a abertura da apuração por 5 votos a 4 e manteve, por unanimidade, o PGR à frente das investigações do Banco Master.
Mais lidas
-
1MÚSICA
Joelson dos Oito Baixos leva o forró pé-de-serra ao Giro das Tradições nesta terça-feira (22)
-
2SEGURANÇA PÚBLICA
Homem apontado como integrante de 'Equipe Caos' do CV no Morro do Fubá morre em confronto com PMs
-
3CULTURA
Rick e Renner: dupla que atravessou quatro décadas e teve separações e polêmicas ao longo da carreira
-
4INCLUSÃO DIGITAL
Ministério das Comunicações autoriza novos canais de TV aberta em dois municípios de Alagoas
-
5CULTURA
Cantor Rick, da dupla com Renner, ostenta mansões nos Estados Unidos e interior de São Paulo; conheça