Poder e Governo
Douglas Ruas busca se desvencilhar de Castro e Bacellar e associa Paes a envolvidos com crime durante sabatina
Candidato do PL ao governo do Rio está empenhado em reforçar seu vínculo com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o filho dele, Flávio, presidenciável de seu partido.
Candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro, Douglas Ruas está empenhado em reforçar seu vínculo com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o filho dele, Flávio, presidenciável de seu partido, mas tenta se afastar de um incômodo correligionário: Cláudio Castro. Na primeira sabatina da série dos jornais O GLOBO, Extra e Valor e da rádio CBN, Ruas buscou ontem se desvencilhar do ex-governador, de quem foi secretário de Cidades até março. Apesar de ter exercido por quase três anos um papel de destaque no governo de Castro — que renunciou para concorrer ao Senado, mas perdeu o lugar na chapa de Ruas ao ser condenado à inelegibilidade por abuso de poder político e econômico e entrar na mira da Polícia Federal (PF) por suspeita de corrupção —, o candidato do PL ao Palácio Guanabara não fez uma boa avaliação da gestão do ex-chefe e chegou a acusar o rival Eduardo Paes (PSD) de ser mais próximo que ele do ex-governador.
Atual presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Ruas está em segundo lugar na corrida eleitoral no estado e tenta impedir uma vitória no primeiro turno do ex-prefeito do Rio, que tem mais que o dobro em intenções de voto (veja na página 16). Em seu primeiro mandato de deputado estadual, Ruas buscou um discurso de renovação, recorrendo aos seus 37 anos como um contraponto geracional a Paes, de 56, que já cumpriu quatro mandatos na prefeitura da capital. No entanto, foi cobrado ao longo de uma hora e meia de entrevista no estúdio da Redação do GLOBO, no Centro do Rio, sobre sua ligação com Castro e outros protagonistas da cena política estadual, como o deputado federal Altineu Côrtes, presidente do PL fluminense, e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), que foi preso e cassado.
Policial civil, Ruas é filho do ex-policial militar e prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL), mas buscou afastar a ideia de que teve seu ingresso na política como subsecretário da cidade da Região Metropolitana facilitado pelo pai. Apesar de ter atuado por pouco tempo em delegacias, ele citou essa experiência várias vezes como credencial para conduzir um endurecimento na política de segurança pública, uma das muitas áreas do governo Castro que criticou. Defendeu a retirada de metas de redução da letalidade policial, que vê como um desincentivo ao enfrentamento de criminosos por policiais, mas recusou uma “licença para matar”.
Sobre a corrupção e a infiltração do crime organizado na Alerj, Ruas defendeu “individualizar” condutas no aprofundamento de investigações, mas se queixou de ter de responder sobre aliados quando frisa não ser alvo de processos. Ele minimizou apurações internas do governo interino sobre suspeitas de irregularidades em secretarias de Castro como a que dirigiu, mas atribuiu diretamente ao ex-governador o rombo bilionário do Rioprevidência, entidade responsável pelas aposentadorias de servidores estaduais, provocado por investimentos no Banco Master. Ruas defendeu a punição de todos que a investigação mostrar envolvidos com os crimes financeiros de Daniel Vorcaro, mesmo que seja Flávio Bolsonaro.
O deputado estadual afirmou que, se for eleito governador, vai manter o Rio no Propag, o programa de renegociação de dívidas com a União, e prometeu um teto de gastos estaduais.
As sabatinas com os principais candidatos ao governo do Rio continuam ao longo da semana, sempre às 10h30, com transmissão ao vivo na CBN, nos canais do YouTube e nas plataformas digitais de O GLOBO, Extra e Valor. Hoje é a vez de William Siri (PSOL). Amanhã, o entrevistado será Anthony Garotinho (Republicanos) e, na sexta-feira, Eduardo Paes (PSD) encerra.
Descolamento de Castro: Relação sem ‘intimidade’ e responsabilidade com Master
Escolhido pelo PL para concorrer ao governo com apoio de Castro, Ruas alegou que nunca teve “intimidade” com o ex-governador, e que apenas “aceitou a missão” específica de atuar na secretaria de Cidades. O distanciamento veio após o ex-governador ser alvo de três operações da PF e ser considerado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas Ruas alegou que mantinha com ele uma relação “profissional”. E justificou a ausência de Castro de sua propaganda eleitoral:
— Eu não era o governador. O ex-governador não é candidato. Não sou responsável por atos dele. O que fiz na secretaria respondo com muita tranquilidade. Minha atuação era restrita a obras de infraestrutura nas cidades.
Nas muitas críticas ao antigo chefe que fez na sabatina para marcar distância, Ruas se referiu às suspeitas de desvios de recursos do Rioprevidência em negócios com o Banco Master como um “crime de tamanha barbaridade”, e disse que a responsabilidade sobre o desfalque nas aposentadorias é do governador, responsável pela indicação dos administradores da entidade.
Ao admitir vários problemas na gestão de Castro, da segurança à educação, Ruas foi questionado sobre que área do governo do qual participou merecia elogios. O deputado estadual citou dois aspectos que resvalam em sua própria atuação na máquina estadual: o “apoio a municípios em obras de infraestrutura” e o programa Limpa Rio, de prevenção de enchentes, que é tocado pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão pelo qual também passou.
Além de se distanciar de Castro, Ruas ainda tentou ligá-lo a Eduardo Paes, relembrando a relação dos dois como governador e prefeito, embora sempre na condição de adversários políticos. O candidato afirmou que há registros de Paes “sambando” e “tomando cerveja” com Castro. Mencionou aliados de Castro que apoiam o rival, como o ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, e lembrou que o candidato do PSD foi secretário e aliado do ex-governador Sérgio Cabral e buscou se afastar dele após a Operação Lava-Jato.
Ruas então recorreu ao corte geracional para defender sua campanha como um candidato de mudança, mesmo propondo um novo governo do PL:
— Meus adversários representam uma geração de políticos que está aí há 30 anos. Quando a gente fala de mudança, é mudança de uma geração de políticos que fracassou. Estou me apresentando com meus 37 anos como uma nova geração, no meu primeiro mandato eletivo. Estamos falando de mudança na maneira de governar.
Trajetória e investigações: ‘Inverdades’ em auditoria que mirou pasta de Cidades
Embora já tenha apoiado Rodrigo Bacellar, seu antecessor na presidência da Alerj, Ruas procurou se esquivar de investigações contra deputados estaduais que foram seus aliados. Bacellar era o nome preferido do PL e de Castro para concorrer ao governo antes de ser preso pela PF, no ano passado, sob suspeita de ligação com o crime organizado. Ruas rebateu apontando outros parlamentares investigados em partidos da aliança de Paes:
— Os casos sabidos de envolvimento, como o da deputada (estadual) Lucinha com milícia, pertence ao PSD de Eduardo Paes. O (ex-deputado) TH Joias (preso por envolvimento com o Comando Vermelho na mesma investigação que atingiu Bacellar) chegou na política pelo MDB. E o MDB é o partido que indicou a vice do Eduardo Paes.
Ele minimizou suspeitas envolvendo contratos da secretaria estadual de Cidades, sob sua gestão, reveladas pelo GLOBO, como a contratação de uma empresa para obras de pavimentação em São Gonçalo que, por sua vez, repassou recursos a uma pedreira de familiares do deputado Altineu Côrtes (PL), um dos principais aliados de Ruas. Ele argumentou que “não cabe” à secretaria fiscalizar os fornecedores das empresas contratadas. E alegou que uma auditoria da Controladoria-Geral do Estado (CGE) que questiona um aditivo que elevou o contrato de R$ 99,6 milhões para R$ 144,9 milhões, assinado pela pasta 17 dias depois da contratação, não é uma auditoria definitiva e que a apuração do governo interino contém “inúmeras inverdades”:
— Já informei ao governador em exercício e vou levar a todas as consequências esse vazamento de informação — disse. — Esse contrato foi auditado pelo Tribunal de Contas do Estado. Não há que se falar em irregularidades.
Na sabatina, Ruas negou que a influência do pai o tenha levado aos cargos comissionados que ocupou na Prefeitura de São Gonçalo, a partir de 2017, quando Capitão Nelson era vereador — ele foi eleito prefeito em 2020. O candidato do PL disse ter se preparado academicamente para os postos e que os assumiu por seus méritos. Ele incluiu nesse raciocínio o posto que teve no Inea, em 2019, ainda no governo de Wilson Witzel. O órgão estava na alçada de Altineu Côrtes, que foi secretário de Meio Ambiente naquela gestão. Segundo Ruas, sua atuação no Inea era de “fiscalização ambiental” e tinha “correlação” com sua formação de servidor concursado da Polícia Civil:
— Todas as vezes em que fui convidado para assumir algum cargo não foi por ser filho do Capitão Nelson ou parente de alguém. Foi pela minha capacidade de gestão.
Nacionalização da campanha: antipetismo e aceno a Mendonça
De olho no eleitorado mais à direita, Ruas fez muitas alusões ao candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, além de muitas críticas ao presidente Lula (PT). Ele também elogiou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, a quem chamou de “homem probo” indicado por Bolsonaro, na disputa interna em curso na Corte com o ministro Alexandre de Moraes sobre o escândalo do Banco Master. Em uma breve menção, Ruas defendeu que todos os envolvidos em crimes de Daniel Vorcaro sejam punidos, inclusive se for o caso de Flávio Bolsonaro, mas não teve tempo de comentar os áudios nos quais o senador pede dinheiro ao banqueiro para supostamente financiar o filme do pai.
Em um momento em que pesquisas de intenções de voto apontam Flávio numericamente à frente de Lula no Rio, Ruas reforçou o discurso antipetista. Criticou vetos de Lula a “dispositivos importantes que permitiam alívio das contas” do Rio na lei que instituiu o Propag e o chamou de “cara de pau” por ter feito no Rio uma cerimônia de adesão do estado ao refinanciamento da dívida da União com o governador interino, desembargador Ricardo Couto.
O candidato do PL defendeu “banir” políticos envolvidos em corrupção da vida pública e classificou o retorno de Lula à Presidência como uma “volta à cena do crime”, embora as sentenças que o condenaram na Lava-Jato tenham sido anuladas por falhas processuais como a parcialidade do juiz.
— Precisamos banir determinados personagens da política. O Lula foi condenado em três instâncias. Como pode ser candidato? Uma galera que foi alvo da Lava-Jato está concorrendo — criticou Ruas, incluindo no grupo Paes, que não foi condenado na Lava-Jato.
Na educação, ele chamou os índices da gestão de Castro de “vergonhosos” e defendeu a expansão de escolas cívico-militares, bandeira do bolsonarismo, que são 17 no estado. Disse que o desempenho delas no Ideb é melhor e que o modelo de disciplina, sem que policiais da reserva substituam professores, é aprovado por pais.
Endurecimento na segurança: elogio à megaoperação e a El Salvador e ação territorial
Na segurança pública, um dos temas que mais preocupam os eleitores, Ruas disse ver o desafio como “uma guerra” e repetiu a intenção de mudar o critério de avaliação dos agentes de segurança para não “punir o policial que enfrenta o crime organizado”. Ele defendeu a retirada de indicadores de letalidades da avaliação de desempenho das forças de segurança e prometeu criar a figura do advogado do policial para defender agentes em casos de confrontos com morte de suspeitos. No entanto, afirmou que isso não será a volta da “gratificação faroeste”, implementada nos anos 1990 no Rio para premiar policiais por mortes de suspeitos em operações. Ele disse que crimes de policiais contra inocentes não ficarão impunes, mas argumentou que abusos de agentes já são passíveis de punição pelo código penal. E recusou a ideia de que sua política poderia estimular mais erros letais da polícia contra a população.
— Hoje, na realidade dos fatos, o estado pune o policial que vai enfrentar o crime organizado. Se o criminoso vai a óbito, ele perde o bônus na avaliação do desempenho. É como se a gente estivesse descontando salário de bombeiro que apaga incêndio — alegou Ruas.
Ele prometeu criar uma bonificação policial por “retomada de território” e manter os agentes em favelas retomadas do tráfico. Elogiou a repressão do governo de El Salvador, alvo de críticas por atropelar garantias legais para promover encarceramento em massa. Segundo o candidato, o modelo tornou “o território mais seguro” naquele país, que passou a atrair mais turistas.
Ruas também usou a segurança para atacar ex-governadores impopulares, como Cabral e Castro. Criticou a expansão das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) na capital, na gestão do primeiro, como um dos fatores de expansão das facções criminosas para outras cidades do estado. Sobre Castro, Ruas afirmou que o correligionário não enfrentou devidamente os problemas e errou ao “não permanecer” no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, após a megaoperação de 2025 que deixou mais de 120 mortos.
Embora reforce constantemente sua condição de policial civil, Ruas teve dificuldades de detalhar experiências na atuação direta contra o crime organizado. Contou que trabalhou em delegacias, em investigações de casos relacionados à Lei Maria da Penha e numa unidade de preservação das condições de cenas de homicídios para perícia.
Subsídio e novas linhas de metrô: expansão ‘praticamente impossível’ em um mandato
Na sabatina, Ruas foi lembrado que o governo de Castro, do qual fez parte, foi o primeiro em décadas que não inaugurou uma única nova estação de metrô. O candidato atribuiu o insucesso ao ex-secretário estadual de Transportes, Washington Reis, do MDB, hoje aliado de Paes. Disse que o ex-secretário fez uma “opção por obras eleitoreiras” em detrimento do transporte de massa. O candidato do PL defendeu a retomada da expansão do metrô e o projeto da Linha 3, para ligar a capital a Niterói e São Gonçalo, e creditou ao senador Flávio Bolsonaro o envio de recursos à UFRJ, via emenda parlamentar, para os estudos. No entanto, argumentou que a iniciativa só permitirá a governos posteriores a concretização da obra ambiciosa, que contempla um túnel sob a Baía e Guanabara, já que seria “praticamente impossível” entregá-la até 2030, caso se eleja governador.
Ele também defendeu que “não existe outra forma” de reduzir a tarifa do metrô do Rio, a mais cara do país, sem subsídios do governo à concessionária, e disse que os recursos para essa medida podem vir de uma melhora na arrecadação estadual, possibilitada por melhores indicadores de segurança.
Equilíbrio fiscal: teto de gastos e dúvidas sobre projeções do governo interino
Com um discurso de equilíbrio fiscal, Ruas defendeu a adoção de um teto para conter a alta de despesas estaduais:
— Tivemos aumento de receitas de 21% nos últimos cinco anos, mas as despesas subiram 43%. Apresentei uma proposta para ter um teto de gastos indexando o aumento das despesas ao da receita. É um princípio básico.
O candidato do PL também contestou projeção do governo interino de encerrar o ano com superávit de R$ 5 bilhões, e disse que o projeto de lei de diretrizes orçamentárias enviado à Alerj prevê déficit de R$ 13 bilhões para o ano que vem. Por outro lado, Douglas Ruas elogiou iniciativas de Couto para reduzir os cargos comissionados no Executivo, e disse apoiá-lo nessas “louváveis decisões”.
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