Poder e Governo

Sem Michelle, Flávio promete vouchers para creches e microcrédito a mulheres em primeiro ato após crise

Pré-candidato do PL evitou citar madrasta em evento no Ceará, mas aliado fez provocação ao chamar ex-presidente de 'nosso galego', apelido usado pela ex-primeira-dama

Agência O Globo - 11/07/2026
Sem Michelle, Flávio promete vouchers para creches e microcrédito a mulheres em primeiro ato após crise
Flávio Bolsonaro - Foto: © AP Photo / Eraldo Peres

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) prometeu nesta sexta-feira criar vouchers para que mães matriculem os filhos em creches privadas quando não houver vagas na rede pública e ampliar linhas de microcrédito para mulheres empreendedoras. As propostas foram apresentadas durante evento do PL em Fortaleza, na primeira agenda do senador no Ceará desde a crise que culminou no rompimento político com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e em sua saída da presidência nacional do PL Mulher.

Ao discursar para candidatos e militantes do partido, Flávio também defendeu o endurecimento da legislação penal para crimes sexuais, afirmando que estupradores a partir dos 14 anos devem responder como adultos, e voltou a associar a pauta da segurança pública ao discurso da campanha presidencial.

— Nós vamos dar vouchers para as mulheres deixarem os filhos em creche privada se não tiver vaga em creche pública. Vamos dar microcrédito para todas que querem abrir um negócio, um pequeno comércio, um salão de beleza — afirmou.

Ao longo de todo o discurso, Flávio evitou qualquer referência à crise com Michelle Bolsonaro, conforme a orientação traçada por aliados para a agenda.

A estratégia, porém, não impediu que um dos principais aliados do senador no Ceará voltasse a fazer referência ao episódio. Ao discursar, o deputado federal André Fernandes (PL-CE), personagem central da disputa que levou ao rompimento entre Flávio e Michelle, afirmou sentir falta do ex-presidente Jair Bolsonaro e fez referência ao apelido "galego", usado pela ex-primeira-dama para se dirigir ao marido. A fala foi interpretada como uma provocação.

— Que saudade eu tenho do nosso presidente. É o nosso galego, não é individual de ninguém, não. É nosso — afirmou.

Ao som do funk "01", Flávio entrou no evento vestindo uma camiseta com a frase "Menos imposto, mais comida na mesa". Cercado por apoiadores, repetiu a dança que costuma fazer em agendas de campanha, cumprimentou candidatos e militantes e posou para fotos antes de subir ao palco. Em seguida, o mestre de cerimônias apresentou, um a um, os candidatos do partido no estado. Quando Flávio foi anunciado como presidenciável, uma imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro apareceu no telão, sob aplausos do público.

O senador também fez referências ao pai, preso desde o ano passado, e prometeu sua volta à vida política.

— Ele (Jair Bolsonaro) não vai poder assistir ao que estamos dizendo aqui hoje, mas um dia vai assistir. Vamos chamar ele de volta? Volta, Bolsonaro! Ele vai voltar e vai voltar mais forte ainda. Eu e vocês vamos enterrar o PT — disse.

Em outro momento, voltou a defender a ofensiva internacional feita por ele nos Estados Unidos para que facções criminosas brasileiras fossem classificadas como organizações terroristas e criticou o governo Lula.

— Me dá uma tristeza saber que o Ceará está entregue aos narcoterroristas. É por isso que eu fui aos Estados Unidos pedir que fossem classificados como terroristas. O PT foi para lá pedir que eles não fossem classificados.

Flávio também saiu em defesa do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, alvo de bloqueio de bens determinado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e acusou o governo de utilizar órgãos de investigação para perseguir adversários políticos.

— Onde está o Lulinha hoje? Ninguém sabe, ninguém viu. Aí vem o governo e muda o delegado da Polícia Federal que estava investigando. Mas, para perseguir a oposição, tem Polícia Federal. Persegue parlamentar, presidente de partido de direita e tenta, a todo momento, interferir nas eleições.

Crise no Ceará

A agenda marcou o primeiro compromisso de Flávio no Ceará desde o rompimento com Michelle Bolsonaro, desencadeado justamente pela definição do palanque no estado. O evento lançou oficialmente a pré-candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE) ao Senado.

Michelle defendia que a então vereadora Priscila Costa (PL-CE), uma de suas principais aliadas, fosse a candidata da legenda à vaga. Ao optar pela composição com o grupo do deputado federal André Fernandes e abrir espaço para a aliança com o PSDB de Ciro Gomes, Flávio contrariou a estratégia defendida pela ex-primeira-dama.

Era esperado que Priscila fosse anunciada durante o evento como pré-candidata à Câmara dos Deputados, mas seu nome não foi exibido ao lado dos demais integrantes da nominata.

O impasse ganhou dimensão nacional depois que Michelle divulgou um vídeo de quase 30 minutos acusando Flávio de tê-la desrespeitado durante as negociações e afirmando que o grupo de André Fernandes trabalhava para retirar Priscila da disputa. Dias depois, a ex-primeira-dama deixou a presidência nacional do PL Mulher, aprofundando o distanciamento entre os dois.

Mesmo fora da disputa ao Senado, Priscila continuou ligada à organização do evento. Segundo interlocutores, ela ficou responsável pela mobilização das mulheres para o ato antes de embarcar para uma viagem já programada a Portugal, onde participa de um encontro de mulheres conservadoras.

Ciro ausente

A aliança costurada entre PL e PSDB, porém, também mostrou seus limites. O pré-candidato ao governo do Ceará Ciro Gomes não participou do evento.

Procurada pelo GLOBO, a assessoria do ex-ministro informou que ele não compareceu por se tratar de "um evento do PL" e afirmou que Ciro sequer estava no Ceará nesta semana.

Nos bastidores, interlocutores das duas campanhas afirmam que a ausência evidencia o caráter estritamente estadual da composição. Segundo relatos, nem Ciro nem Flávio têm interesse em transformar o acordo em uma aproximação política de alcance nacional. A avaliação compartilhada é que a parceria atende exclusivamente ao objetivo de construir um palanque competitivo contra o governador Elmano de Freitas (PT), preservando a autonomia dos dois pré-candidatos em suas respectivas disputas eleitorais.