Poder e Governo

Governo libera três vezes mais emendas a aliados de Lula no Senado do que ao PL

Levantamento aponta que senadores de PT, PSB e PDT receberam, em média, R$ 34,1 milhões em emendas de comissão; no PL, valor médio foi de R$ 9,7 milhões

Agência O Globo - 11/06/2026
Governo libera três vezes mais emendas a aliados de Lula no Senado do que ao PL
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: © Foto / Ricardo Stuckert / Palácio do Planalto

O governo federal liberou o triplo de emendas de comissão a senadores de partidos que já acertaram participação na aliança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a reeleição, em comparação com parlamentares do PL, maior bancada da Casa e legenda de Flávio Bolsonaro, apontado como principal adversário de Lula na disputa.

Levantamento do O Globo , com base em dados de 2026, mostra que cada representante do PT, PSB e PDT teve empenhados, em média, R$ 34,1 milhões. Entre os integrantes do PL, o valor médio foi de R$ 9,7 milhões por senador.

Até o momento, além do PT, partido de Lula, já confirmaram a presença na coligação do PSB, do vice-presidente Geraldo Alckmin, e do PDT, aliado histórico do petismo e responsável pelo Ministério da Previdência neste mandato.

O senador que mais recebeu emendas de comissão no ano, até agora, foi Cid Gomes (PSB-CE), líder do partido no Senado, com R$ 72,9 milhões. Ele deverá disputar a reeleição na mesma chapa do PT no Ceará, onde enfrentará o grupo político do próprio irmão, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB-CE).

O capital político obtido por meio das emendas tem peso relevante na relação com prefeitos, que costumam atuar como importantes cabos eleitorais nas disputas ao Senado.

Procurada, a Secretaria de Relações Institucionais negou que tenha privilégios e afirmou que a distribuição das emendas de comissão entre partidos e parlamentares é atribuição das presidências das comissões, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal.

“O SRI faz a gestão das liberações financeiras junto à Secretaria do Tesouro Nacional de acordo com a disponibilidade de recursos e mediante demanda dos ministérios”, informou a pasta.

“Despesa muito grande”

No dia 27 de maio, o prefeito de Coreaú (CE), Edézio Sitonio (PSB), agradeceu Cid Gomes nas redes sociais após o envio de R$ 1 milhão para a saúde do município. O gestor integra o grupo político do ex-ministro Camilo Santana e do governador Elmano Freitas (PT), que disputará a reeleição com apoio de Lula.

— Agradecemos ao nosso senador Cid Gomes pela ajuda de sempre. Hoje ele ligou dizendo que tinha destinado R$ 1 milhão para a saúde do nosso município. Já olhamos e estamos na conta. Nesse momento importante, inauguramos um centro cirúrgico, uma despesa muito grande, e você todos os anos tem ajudado a saúde do nosso município com emendas parlamentares — afirmou o prefeito.

A portaria com o envio do recurso de R$ 1 milhão foi publicada em 13 de maio. Na observação do compromisso, por determinação do Supremo Tribunal Federal, consta o nome do senador como solicitante. Procurado, Cid Gomes não se manifestou.

Outro exemplo é o senador Weverton Rocha (PDT-MA), terceiro colocado na lista, com R$ 55,7 milhões. Vice-líder do governo no Senado, ele foi responsável por relatórios elaborados para iniciativas de interesse do Planalto, como os regulamentos de Flávio Dino e Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Procurado, Weverton não comentou.

Partidos com grupos alinhados tanto ao Planalto quanto à oposição — como MDB, PP, PSD, Republicanos e União — receberam média de R$ 23,5 milhões por senador, valor superior ao dobro registrado pela bancada do PL. É nesse bloco de legendas de centro que o Planalto enxerga espaço para ampliar o arco de alianças de Lula, ainda que sem apoio formal das cúpulas partidárias.

Também essas siglas parlamentares são consideradas decisivas para a aprovação de pautas que o governo pretende fazer avançar até a eleição, como as Propostas de Emenda à Constituição (PECs) do fim da jornada de trabalho 6x1 e da segurança pública.

A senadora Professora Dorinha (União-TO), que já foi vice-líder do governo no Senado, é a segunda parlamentar que mais recebeu recursos, com R$ 63,2 milhões. Ela deu iniciativas importantes para o governo, como a Medida Provisória que concedeu reajuste aos professores e a nova lei que regulamenta a reforma do Ensino Médio. Dorinha afirma que o volume de emendas é explicado pelo fato de presidir a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo.

— Os recursos que foram definidos para os senadores pelas emendas de comissão estão concentrados em três comissões. Eu sou presidente de uma delas, de Desenvolvimento Regional e Turismo. Recursos para cidades e infraestrutura, Codevasf, Calha Norte e turismo ficam dentro da comissão — disse.

Senador do PL aparece em 44º lugar

Os senadores emedebistas Eduardo Braga (AM) e Marcelo Castro (PI) completam a lista dos cinco primeiros apresentados. Braga, líder do MDB, foi relator da Reforma Tributária e costuma articular-se a favor de iniciativas de interesse do governo. Ele recebeu R$ 52,2 milhões. Castro, por sua vez, teve R$ 53,6 milhões empenhados.

Os dois senadores do MDB disputarão a reeleição neste ano e firmaram acordos para estar na mesma chapa do PT em seus estados. Braga e Castro não comentaram.

No ranking por partidos, o PSD liderou em valores totais, com R$ 359 milhões, seguido pelo MDB, com R$ 313 milhões; PT, com R$ 288 milhões; e PSB, com R$ 255 milhões. Embora tenha a maior bancada do Senado, com 16 membros, o PL aparece apenas em quinto lugar, com R$ 155 milhões.

O senador do PL com maior volume de verbas asseguradas surge somente na 44ª posição geral: Efraim Filho (PB), com R$ 22,3 milhões. Pré-candidato à Presidência da República e principal adversário de Lula nas pesquisas de intenção de voto, Flávio Bolsonaro tem valor ainda menor em prazos de emendas de comissão: R$ 12,7 milhões.

Para o levantamento, foram considerados os casos em que apenas um senador aparece como solicitante da emenda no documento em que o governo federal informa que a verba está reservada.

Diferentemente das emendas individuais e de bancada, cujo pagamento é obrigatório pela Constituição, as emendas de comissão são discricionárias. Isso significa que o Poder Executivo tem a prerrogativa de decidir se, como e quando o dinheiro será efetivamente liberado. Na prática, o Palácio do Planalto pode definir o ritmo dos repasses e associar o fluxo de pagamentos a interesses políticos e eleitorais.

“Não é republicana”

O líder do PSD no Senado, Omar Aziz (AM), minimizou a diferença e afirmou que os senadores da oposição já contam com recursos de pagamento obrigatório pelo governo.

— Existem as emendas impositivas, que têm que ser pagas — disse.

Já o senador Izalci Lucas (PL-DF), líder da oposição no Congresso, criticou os critérios de distribuição.

— Infelizmente, a distribuição não é republicana. Ainda bem que temos as emendas individuais impositivas, porque antes delas eu não recebia nada — afirmou.

Segundo a legislação, os recursos de emendas de emendas deverão financiar projetos de caráter nacional ou regional. Na prática, porém, consolidaram-se como uma das principais engrenagens de articulação entre o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.

As emendas de comissão ganharam força depois que o Supremo Tribunal Federal barrou as antigas emendas de relator, conhecidas como RP 9 ou “orçamento secreto”. Desde o ano passado, a determinação do ministro Flávio Dino, tornou-se obrigatória incluir, nas observações do compromisso, as informações sobre o parlamentar que solicita o envio do recurso para um beneficiário específico.

A medida foi adotada após Câmara dos Deputados e Senado atribuir os recursos apenas às comissões, sem transparência e rastreabilidade sobre seus padrinhos políticos.