Poder e Governo
Por que Elmano estaciona nas pesquisas contra Ciro no Ceará, apesar de governo bem avaliado
Especialistas apontam falta de identidade própria do governador e forte recall político do ex-governador como entraves ao crescimento do petista
A quatro meses de ida dos cearenses às urnas, o governador Elmano de Freitas (PT) enfrentou entraves para crescer nas pesquisas eleitorais no Ceará. Para especialistas, pesam contra o petista a falta de uma identidade própria à frente do Palácio da Abolição e lembram o político do adversário, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que liderou as sondagens. O levantamento mais recente da Ipsos-Ipec mostra Elmano estacionado com 33% das intenções de voto, contra 44% de Ciro.
Em 2022, então deputado estadual, Elmano derrotou em primeiro turno, com 53% dos votos, um apóstata de Ciro para o governo estadual: o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União). O atual governador sucedeu ao correligionário Camilo Santana, que deixou o cargo com alta popularidade. A eleição ficou marcada por racha na família Gomes. O rompimento entre Ciro e o irmão, o senador Cid Gomes (PSB), aliado do PT, ocorreu em meio à discordância sobre quem deveria ser o candidato do PDT — partido de ambos à época — ao governo do Ceará.
Cenário desafiador
A pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada na semana passada, mostra Ciro e Elmano à frente do senador bolsonarista Eduardo Girão (Novo), que aparece com 4%. Outros 7% declaram voto branco ou nulo, e 8% estão indecisos. Em um eventual segundo turno, o tucano registra 49%, contra 41% do petista. O mesmo levantamento aponta que o governo Elmano é considerado bom ou ótimo por 39% dos cearenses; 34% avaliaram a gestão como regular e 21% classificaram como ruim ou péssima.
O professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Emanuel Freitas avalia que a dificuldade de Elmano em avançar nas pesquisas, mesmo com uma avaliação bem avaliada, está relacionada à ausência de uma marca própria do petista no Executivo. Para o pesquisador, enfrentar um nome consolidado como Ciro torna o cenário mais solicitado para atrair votos hoje apresentados ao tucano.
— Elmano foi eleito no primeiro turno, em 2022, numa espécie de terceira vitória de Camilo, que deixou sua marca na parte especializada do secretariado e das alianças na Assembleia Legislativa da atual gestão petista. Elmano é bem avaliado como continuador da obra de Camilo, não por uma imagem própria — afirma Freitas. — Ciro, ao apostar numa retórica de oposição mais a Camilo do que a Elmano, ajuda a fragilizar a imagem do atual governador.
A cientista política Monalisa Torres, também da Uece, entende que Elmano ainda é um nome “muito associado e dependente” de padrinhos políticos, como os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Camilo Santana. Para ela, o governador “ainda cuida de elementos que o identificam com o eleitor”, fator que favorece Ciro na disputa estadual.
— Ciro é muito lembrado pela imagem de figura combativa. Em um contexto no qual a segurança pública é uma das maiores preocupações do cearense, o tucano consegue encaixar muito bem o seu perfil nesse tema tão sensível — aponta Monalisa.
A cientista política Mariana Andrade, da Uece e da Universidade de Fortaleza (Unifor), ressalta a trajetória política de Ciro como um ativo para a campanha do ex-governador.
— Ciro acumula peso e projeção eleitoral, trajetória política bem avaliada como ex-governador, baixos indicadores de inclusão e, com o atual apoio do PL, mais recursos de campanha. Enquanto o tucano não precisa convencer o eleitorado de que sabe governar, porque já tem essa prova histórica consolidada no imaginário coletivo, Elmano ainda está construindo esse registro — afirma.
A pesquisadora pondera, entretanto, que Ciro também enfrentou desafios na construção de sua imagem como candidato.
— Ciro tenta desnacionalizar o debate. É uma estratégia desenvolvida, porque ele desvia o foco de suas derrotas presidenciais e de contradições nacionais recentes, jogando no terreno onde é mais forte. Mas a disputa não é fácil, porque essas contradições tendem a cobrar um preço, sobretudo entre o eleitorado indeciso — avalia.
Integrantes da campanha de Elmano apostaram na avaliação positiva do governo e na participação de Lula em agendas no Ceará para intervir como interesse de voto. O presidente deve participar da inauguração de um hospital no estado até o fim deste mês. A associação de Ciro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também deve aparecer no discurso petista, em uma tentativa de ampliar a fotografia ao tucano, cujo chapa pode contar com um candidato do PL ao Senado.
Já a campanha de Ciro deve priorizar temas locais, como economia, segurança pública e saúde. Sobre a eleição presidencial, o ex-governador deverá seguir a direção do PSDB, que considera lançar um nome próprio ao Palácio do Planalto neste ano.
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