Poder e Governo

Rasteira de João Caldas em Aldo Rebelo causa divisão e ameaça judicialização no Democracia Cristã

Ex-ministro do STF filiou-se ao partido em abril e, por decisão da direção, teve o nome incluído em pesquisas eleitorais

Agência O Globo - 19/05/2026
Rasteira de João Caldas em Aldo Rebelo causa divisão e ameaça judicialização no Democracia Cristã
Aldo Rebelo - Foto: Reprodução / Agência Brasil

A pré-candidatura de Joaquim Barbosa , ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), à Presidência da República pela Democracia Cristã (DC) provocou a saída de cena de Aldo Rebelo, até então nome cotado para a disputa pelo partido. A mudança, feita pelo presidente da legenda, o ex-deputado João Caldas, pai do ex-prefeito de Maceió JHC, foi motivada segundo ele, pelo baixo desempenho de Rebelo nas pesquisas, gerou uma racha interna e manifestações públicas de insatisfação entre os membros da sigla.

Filiado ao PCdoB há décadas, Rebelo buscou aproximação com o bolsonarismo nos últimos anos e foi lançado como opção da direita em janeiro, durante evento do partido. Sem bancada no Congresso e sem tempo na propaganda partidária de rádio e TV, o DC apostava em Rebelo para ganhar visibilidade no debate presidencial, estabelecendo prazo de seis meses para que ele melhorasse seu desempenho nas pesquisas. No entanto, nas últimas três rodadas do levantamento Genial/Quaest, Rebelo não só não avançou como deixou de pontuar — em março, tinha entre 1% e 2%; no início deste mês, caiu para 0%.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Aldo afirmou: “Se houver ameaça à minha pré-candidatura, nesta hipótese, a questão será judicializada”. Joaquim Barbosa não se pronunciou sobre o caso.

Novo nome, novo potencial

Barbosa decidiu filiar-se ao DC em abril e, por determinação da direção nacional, comandada por João Caldas, passou a ser incluída em pesquisas qualitativas para avaliar a percepção do eleitorado. Primeiro homem negro a integrar o STF, Barbosa apareceu na Corte por 11 anos (2003–2014) e foi presidente do tribunal entre 2012 e 2014. Foi relator do processo do mensalão, escândalo que marcou os dois primeiros mandatos de Lula e confirmados nas denúncias de 24 réus, incluindo o ex-ministro José Dirceu.

No STF, Barbosa também teve atritos com colegas como Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Cezar Peluso. Segundo o publicitário Adriano Gehres, responsável pelo acompanhamento interno do partido, a experiência de Barbosa foi avaliada positivamente e influenciou a decisão de apoiar sua pré-candidatura.

— Por não se encaixar em polos ideológicos e possuir qualidades que atraem participantes de diferentes espectros, Joaquim Barbosa tem potencial para conquistar votos tanto da esquerda quanto da direita. Ele também atrai candidatos indecisos e aqueles candidatos que não ultrapassaram 5% nas pesquisas — avaliou Gehres.

Em 2018, Barbosa chegou a se filiar ao PSB com intenção de disputar a Presidência, mas desistiu em maio daquele ano: "Está decidido. Após várias semanas de muita reflexão cheguei, finalmente a uma conclusão. Não pretendo ser candidato a presidente da República. Decisão indireta pessoal", publicado no Twitter (atual X). Agora, pretendo focar na discussão sobre a “moralização” do STF, em meio ao caso Master, e estudar propor mandato para ministros da Corte.

Reação e internas

A decisão do DC de apostar em Barbosa gerou protestos de Aldo, que afirmou, em nota nas redes sociais, que seguirá na disputa: “Candidaturas são projetos coletivos e não de grupos e interesses específicos”, escreveu. O presidente do diretório paulista do DC, Cândido Vaccarezza, aliado de Rebelo, classificou Barbosa como “inapoiável” e afirmou que ele “não tem compromisso com a democracia, nem experiência política”.

Durante a convenção do partido em Roraima, o presidente estadual Paulo César Quartiero chamou Barbosa de “vigarista”, elogiou Aldo como “estadista” e disse que o ex-ministro seria um “traidor” por votar pela demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, decisão que influenciou o julgamento do Marco Temporal no STF.