Poder e Governo

Arquivos de coronel revelam colaboração entre regime militar e serviço secreto britânico

Documentos apontam que Cyro Etchegoyen recebeu instruções do MI5 para criar a 'Casa da Morte', centro de tortura no RJ

Agência O Globo - 08/05/2026
Arquivos de coronel revelam colaboração entre regime militar e serviço secreto britânico
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Documentos inéditos do acervo do coronel do Exército Cyro Etchegoyen, datados dos anos 1970, revelam indícios de colaboração entre o serviço secreto britânico e a ditadura militar brasileira. Segundo os registros, Etchegoyen e outros militares – Milton Machado Martins, Moacyr Coelho e Milton Masselli Duarte – participaram de um estágio no Reino Unido em dezembro de 1970, conforme reportou o ICL Notícias.

Durante o treinamento, os militares brasileiros foram instruídos por agentes do MI5, serviço de inteligência interna do Reino Unido, sobre técnicas e estratégias para a criação de um “centro de interrogatório próprio, em local afastado e isolado”, onde os presos seriam mantidos incomunicáveis. Pouco depois de retornar ao Brasil, Etchegoyen fundou a chamada "Casa da Morte", utilizada pelo Centro de Informações do Exército (CIE) como centro clandestino de prisão, tortura, execução e ocultação de cadáveres de opositores do regime, no morro do Caxambu, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro.

A Casa da Morte foi instalada durante o governo Emílio Garrastazu Médici, considerado o período mais violento da ditadura. O local funcionava como centro de tortura e, segundo estimativas, pode ter sido palco da execução de pelo menos 22 presos políticos.

O historiador João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro "Segredo de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)", afirma que a colaboração britânica já era conhecida nos meios acadêmicos, mas nunca havia encontrado um documento tão detalhado sobre o funcionamento dessa parceria.

De acordo com Martins Filho, além de orientarem a criação da "Casa da Morte", os agentes do MI5 ensinaram aos militares brasileiros as chamadas "Cinco Técnicas", posteriormente empregadas nos centros de repressão, conforme relatos de sobreviventes.

Entre as práticas ensinadas estavam a colocação de capuz nas vítimas imediatamente após o sequestro, obrigá-las a permanecerem por horas na ponta dos pés e oferecer refeições precárias em horários irregulares, como servir café da manhã logo após o almoço. As orientações também previam controle rigoroso da iluminação, alternando períodos de luz intensa e escuridão total, além da exposição constante a ruídos desagradáveis, como o som de vazamento de gás. Outro método descrito era a chamada "geladeira", que submetia a vítima a temperaturas extremamente baixas em ambientes com ar-condicionado.

Considerada a única sobrevivente da Casa da Morte, a ex-guerrilheira Inês Etienne Romeu, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), relatou a execução de sete pessoas reconhecidas pelo Estado brasileiro como desaparecidas políticas, cujos corpos jamais foram localizados. Ela também trouxe à tona detalhes sobre o assassinato de outros quatro opositores do regime. Inês faleceu em 2015, aos 72 anos.

Os documentos do coronel Etchegoyen também trazem outros episódios sombrios da repressão, como o caso do estupro da vendedora de joias Marilene dos Santos Mello. Em 19 de dezembro de 1969, Marilene foi sequestrada por agentes do CIE e violentada dentro de uma viatura do Exército e em um imóvel em Copacabana, utilizado como base da Ação Libertadora Nacional (ALN). Mãe de três filhos e moradora da Tijuca, Marilene acolhia militantes da ALN que retornavam de treinamentos em Cuba.

Além disso, os documentos revelam relatos de militares a Etchegoyen sobre furtos cometidos por colegas durante diligências em imóveis, incluindo o roubo de canetas, estantes, dinheiro e até automóveis.