Poder e Governo

Lula aposta em encontro com Trump para reforçar prestígio diante de crise com Congresso

Presidente busca desarmar estratégias de Flávio Bolsonaro e se projetar como estadista em meio a desafios internos

Agência O Globo - 05/05/2026
Lula aposta em encontro com Trump para reforçar prestígio diante de crise com Congresso
- Foto: © ANSA/AFP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende utilizar o encontro previsto para quinta-feira com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como uma oportunidade para demonstrar sua prestígio internacional em um momento de forte tensão com o Congresso Nacional neste terceiro mandato.

Após o Senado rejeitar, pela primeira vez em 132 anos, uma indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal (STF), a oposição intensificou o discurso de que o governo estaria enfraquecido e que Lula se tornaria, até o fim do ano, um "pato manco" — expressão usada para presidentes em fim de mandato e com baixo capital político.

Com uma visita aos Estados Unidos, agendada na semana após a passada conversa telefónica entre os dois presidentes, Lula procura reafirmar a sua força política, mesmo após a revés com a recolha do advogado-geral da União, Jorge Messias.

Há expectativa de que o encontro também desvie o foco da crise política, enquanto Lula avalia como reagir diante da constatação de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), atuou contra sua indicação ao STF.

O presidente brasileiro ainda pretende, com a reunião, neutralizar os planos do senador Flávio Bolsonaro (PL-RS), que tenta se apresentar como aliado de Trump durante a campanha eleitoral.

Durante discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, em março, Flávio Bolsonaro pediu que os Estados Unidos e o mundo "observem as eleições do Brasil com enorme atenção", "monitorem a liberdade de expressão" e "apliquem pressão diplomática" para garantir o funcionamento adequado das instituições.

Flávio também afirmou que "o Brasil é a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China em relação aos minerais críticos, especialmente terras-raras". Com a visita, Lula busca mostrar que também mantém boa relação com o presidente americano e pode se apresentar como um “estadista” respeitado internacionalmente.

Entre os temas previstos para discussão entre os presidentes estão, além da guerra contra o Irã, o recente tarifaço sobre as exportações brasileiras. Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou uma tarifa de 50% imposta por Trump a produtos brasileiros. No entanto, dias após a decisão, Trump reiterou que o seu governo segue investigando o Brasil e a China por supostas práticas comerciais desleais.

"Essas investigações concluírem que existem práticas comerciais desleais e que medidas corretivas são justificadas, as tarifas são uma das ferramentas que podem ser impostas", destacou nota divulgada na época pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR).

Outro tema sensível é a possibilidade de os EUA classificarem as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. As autoridades brasileiras têm que essa eventual classificação representa riscos à soberania nacional. Em março, o Departamento de Estado dos EUA afirmou ao jornal O GLOBO que considera as facções brasileiras uma ameaça relevante à segurança regional.

No mesmo contexto, Lula deve discutir com Trump a intenção de fortalecer a cooperação bilateral no combate ao crime organizado, com foco em lavagem de dinheiro, tráfico de armas e intercâmbio de informações financeiras.

Os dois líderes também trataram da exploração de minerais críticos. Em fevereiro, os EUA convidaram o Brasil a integrar uma coalizão internacional focada em riqueza, mineração e refino desses minerais. A proposta de parceria inclui para garantir o acesso a insumos como lítio, grafita, cobre, níquel e terras raras, além da criação de mecanismos de preço mínimo para dar maior previsibilidade ao mercado e reduzir a volatilidade.

A situação política da Venezuela e seu impacto na América do Sul será outro ponto de pauta. Lula é crítico da intervenção militar americana que levou à prisão do ditador Nicolás Maduro em 3 de janeiro. Desde então, a vice Delcy Rodríguez assumiu a presidência interna com apoio dos EUA.