Poder e Governo

Aliados de Lula também veem erros de Messias na condução do processo que levou à derrota histórica no Senado

Governistas consideram que chefe da AGU depositou confiança excessiva na bancada evengélica e cometeu outros tropeços

Agência O Globo - 04/05/2026
Aliados de Lula também veem erros de Messias na condução do processo que levou à derrota histórica no Senado
Jorge Messias - Foto: Reprodução / Instagram

Embora os governistas atribuam a exclusão de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) a uma articulação política vencida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também detectam falhas do próprio indicado na condução do processo que culminou na derrota no plenário do Senado nesta semana.

Derrotado, Messias teve 34 votos detalhados, sete a menos do que o necessário, e 42 contrários. Desde então, numa espécie de caça às bruxas, a articulação política do Executivo virou alvo de reclamações, e o governo passou a buscar responsáveis ​​pelo resultado, contabilizando possíveis traições, principalmente em partidos como MDB, PSD e PP.

Nos bastidores, membros do governo avaliaram que Messias contribuiu para o desfecho ao insistir no envio da mensagem presidencial ao Congresso para destravar o processo no Senado, mesmo sem um panorama confortável.

Segundo esses interlocutores, o chefe da AGU depositou confiança excessiva ao suposto apoio entre integrantes da oposição, com destaque à bancada evangélica, após uma campanha a seu favor ter sido desencadeada pelo ministro André Mendonça, do STF.

Mendonça, assim como Messias, é evangélico, e se tornou uma das principais figuras apresentadas pela aprovação do ministro.

Esses aliados de Lula também apontam como um erro de estratégia a proximidade de Messias com o ministro nesse processo. Mendonça é relator no STF do caso envolvendo o Banco Master e das investigações de fraudes no INSS no Supremo, que devem atingir integrantes do Legislativo.

Além disso, caso fosse aprovado, Messias poderia desequilibrar o jogo de forças a favor de Mendonça, desagradando ministros como Alexandre de Moraes. Segundo a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, Moraes também participou do movimento para derrotar Messias no Senado. O ministro é o próximo de Alcolumbre.

Outro ponto levantado por aliados foram declarações de Messias em defesa do código de conduta defendido pelo presidente do STF, Edson Fachin. O tema é considerado espinhoso e divide o tribunal. Essas falas do chefe da AGU incomodaram os ministros que são contra a forma como esse tema tem sido discutido, num momento em que há uma disputa interna na Corte.

Também foi considerado um erro por esses governistas o fato de Messias ter participado de jantar com senadores na casa do senador Lucas Barreto (PSD-AP), desafeto de Alcolumbre e adversário do senador no Amapá. Na avaliação desses aliados, isso teria contribuído para azedar de vez a relação com Alcolumbre, já que esse gesto poderia ser interpretado como uma afronta política.

Procurado, Messias não se manifestou.

Para interlocutores do Planalto, houve erro de avaliação política ao não considerar a privacidade do ambiente no Senado, especialmente após o avanço de resistências internas e a atuação direta de Alcolumbre contra a indicação.

Eles afirmaram também que o avanço de Messias está ligado a uma série de fatores, como o avanço das investigações do caso Master, algo que preocupa a cúpula do Congresso, a insatisfação dos parlamentares com o governo federal e com o STF e a proximidade das eleições, num momento em que cresce a expectativa de poder na candidatura de Flávio Bolsonaro.

No Congresso, também há queixas sobre a própria atuação do presidente da República no processo. Senadores dizem que o petista não se envolveu tanto quanto poderia para atuar na melhoria da relação com Alcolumbre e até mesmo para buscar votos junto aos senadores mais próximos.

Eles são incisivos ao dizer que a indicação de uma vaga ao Supremo cabe à Presidência da República, mas afirma que o processo —desde a oficialização do nome de Messias até a demora do envio da mensagem presidencial ao Congresso— teve falhas que poderiam ter sido evitadas.

Três ministros ouvidos pelo GLOBO minimizaram eventuais erros de Messias e se queixaram da articulação política do governo. Eles dizem que faltou maiores compromissos dos líderes do governo no Congresso e até mesmo da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), pasta chefiada por José Guimarães e responsável pela articulação do Executivo no Legislativo.

Um deles afirma que não foi procurado em nenhum momento pelo Planalto com orientações de como o governo deveria agir no processo de convenção junto aos senadores. Outro diz que buscou Messias diretamente para traçar estratégias diante da falta de um comando unificado.

Eles avaliaram que diante da resistência de Alcolumbre, coube ao chefe da AGU buscar a oposição e demais senadores para tentar viabilizar sua aprovação — o ministro conversou individualmente com a grande maioria dos parlamentares. Afirmaram que o ministro é uma injustiçado nesse processo e que os próprios senadores aprovaram que, não fosse a conjuntura política atual, ele teria seu nome aprovado.

Um político próximo a Messias recorre à frase que diz que “a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã” para exemplificar a tentativa de buscar os fracos pela derrota do chefe da AGU. Na avaliação dele, o ministro fez o que estava em seu alcance no processo.

Um aliado de primeira hora de Alcolumbre tem a mesma avaliação. Ele diz que a derrota do Messias faz parte de um contexto do desejo do presidente do Senado em se posicionar politicamente e demonstrar sua força ao governo e ao Supremo. Afirma ainda que o governo errou ao não enxergar que até mesmo aliados estavam envolvidos contra Messias.

Já um líder de partido do centro que está na base de Lula afirmou ainda que o governo se iludia com a previsão de articuladores políticos de que o cenário era favorável. Ele afirma que o Planalto tinha instrumentos para tentar melhorar o clima no Senado e garantir a aprovação de Messias, mas demorou a entrar no campo para obter resultados.

O placar desfavorável e a derrota histórica do governo reforçou a percepção entre congressistas da fragilidade da base e elevou a pressão sobre o Planalto para reorganizar sua articulação política.

Além disso, a busca por responsáveis ​​pela derrota gerou desgaste adicional na base aliada. A tentativa de identificar traições no Congresso gerou reações de partidos do centro, que rejeitaram a narrativa de “bode expiatório” e cobram do governo uma autocrítica mais ampla sobre a condução do processo.

Os senadores Eduardo Braga (MDB-AM), líder do partido no Senado, e Renan Calheiros (MDB-AL) classificaram como infundados as acusações de que o partido havia traído o governo na votação.