Poder e Governo

Dono da Refit vira alvo do governo Lula, que busca marca anticrime em novo encontro com Trump

Petista quer usar encontro na Casa Branca para mirar Ricardo Magro, que vive em Miami, e alavancar ‘combate a criminosos’

Agência O Globo - 23/02/2026
Dono da Refit vira alvo do governo Lula, que busca marca anticrime em novo encontro com Trump
Dono da Refit vira alvo do governo Lula, que busca marca anticrime em novo encontro com Trump - Foto: Reprodução

Enquanto tenta afinar um discurso para a área de segurança pública, o presidente Luiz Inácio da Silva deve voltar a pedir a , em encontro na Casa Branca, o estreitamento da cooperação para investigar e prender “grandes criminosos” tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Na conversa bilateral, que ocorrerá no próximo mês, um dos alvos de Lula, segundo integrantes do governo, deve ser o empresário Ricardo Magro, que vive em Miami, no estado da Flórida, e é acusado pela Polícia Federal (PF) de dar um calote R$ 26 bilhões nos cofres públicos ao sonegar impostos.

'Não vou embarcar em aventura':

'Não sou o carnavalesco':

O dono da Refinaria de Manguinhos, no Rio, controlada pelo Grupo Refit, foi alvo de operação no fim do ano passado e virou um exemplo concreto para dar visibilidade à gestão petista no combate ao crime organizado. Ele e a empresa negam as irregularidades.

No domingo, durante coletiva em Nova Délhi, Lula voltou a tratar o tema e, sem citar o nome de Magro e da empresa, lembrou da operação, em setembro do ano passado, que interditou operações da refinaria.

— Nós bloqueamos 250 milhões de litros de gasolina em cinco navios, entregamos para Petrobras, Essa pessoa mora em Miami, nós mandamos para o presidente Trump a fotografia da casa dele, o nome dele. E nós queremos essa pessoa no Brasil. É para combater o crime organizado? Então nos entregue os nossos bandidos — disse.

Em dezembro, Lula já havia iniciado a pressão pela “prisão” de Magro. O petista conversou por 40 minutos ao telefone com Trump e, em evento no Palácio do Planalto, afirmou que havia pedido para que o presidente americano detivesse o brasileiro.

— Eu liguei para o presidente Trump, dizendo para ele que, se ele quiser enfrentar o crime organizado, nós estamos à disposição. E mandei para ele, no mesmo dia, a proposta do que nós queremos fazer. Disse para ele, inclusive, que um dos grandes chefes do crime organizado brasileiro, que é o maior devedor deste país, que é importador de combustíveis fósseis, mora em Miami. Então se ele quiser ajudar, vamos ajudar prendendo logo esse aí.

Durante a campanha, a ideia do PT é divulgar que o terceiro mandato de Lula fechou o cerco a bandidos protegidos pelo poder econômico e que o presidente mira na “cabeça” de organizações criminosas.

Usando a mesma estratégia, o Palácio do Planalto também vem tentando faturar com os resultados de operação anterior, a Carbono Oculto, que investigou a infiltração de facções no sistema financeiro e no setor de combustíveis — esta última área a mesma em que atua Magro.

Além do foco no colarinho branco, o Planalto espera avançar neste ano em duas propostas estruturais que tramitam no Congresso — o PL Antifacção e a PEC da Segurança Pública. O objetivo é superar uma das principais críticas da oposição: a de que os governos do PT sempre foram lenientes com crime.

‘Campanha difamatória’

Em nota, Ricardo Magro e a Refit “lamentam” que Lula “esteja sendo induzido a erro por meio de uma campanha difamatória”. Na visão deles, a ofensiva seria “orquestrada” por um grupo de grandes empresas que “historicamente impedem que as reduções de preços do combustível pela Petrobras cheguem ao consumidor final”. “Não procede qualquer tentativa de equiparar a atuação da Refit e de seus acionistas ao crime organizado e/ou a traficantes”. A Refit ainda “refuta de forma categórica qualquer acusação de sonegação fiscal: a empresa declara integralmente suas receitas e emite regularmente notas fiscais”.

Segundo interlocutores do governo, a segurança têm ocupado um espaço constante na agenda do presidente, que combina pressão diplomática com coordenação interna de órgãos de inteligência. Lula tem repetidamente vinculado o tema a esforços bilaterais com os Estados Unidos e à necessidade de fechar lacunas usadas por organizações criminosas para movimentar recursos e expandir operações no Brasil.

Além da pauta de segurança, outro objetivo de Lula na conversa com Trump é o chamado tarifaço, que na última semana teve novos capítulos na Justiça americana. No ano passado, a administração Trump impôs sobretaxas a produtos do Brasil, e parte dessas tarifas foi retirada, mas o tema continua nas negociações entre os dois países.

São ainda esperados na pauta do encontro temas como o acesso dos americanos a minerais críticos e estratégicos do Brasil, a participação do governo brasileiro em iniciativas multilaterais propostas por Trump, a situação na Venezuela e as duras sanções econômicas aplicadas a Cuba pelos Estados Unidos. No momento, o petista cumpre viagem à Ásia, com compromissos na Índia e Coreia do Sul.