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No musical 'Wonder', jovens atores com diferenças faciais encontram suas vozes no palco.

MICHAEL CASEY, Associated Press 23/02/2026
No musical 'Wonder', jovens atores com diferenças faciais encontram suas vozes no palco.
O ator Max Voehl, que interpreta o personagem principal Auggie, se apresenta durante o musical "Wonder" no American Repertory Theater em Cambridge, Massachusetts, na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026 - Foto: AP/Charles Krupa

CAMBRIDGE, Massachusetts (AP) — Quando Max Voehl fez o teste para interpretar um menino no musical "Wonder", ele sentiu que estava interpretando uma versão de si mesmo no palco.

Voehl, que nasceu com lábio leporino e fenda palatina bilateral , passou por múltiplas cirurgias, assim como Auggie Pullman — 13 contra as 28 de Auggie. O garoto de 12 anos, do estado de Utah, também sofreu bullying, assim como Auggie, que é alvo de bullying por causa de sua rara condição genética conhecida como síndrome de Treacher Collins, que causa subdesenvolvimento dos ossos e tecidos faciais.

“Interpretar o Auggie no palco é, na verdade, bem fácil para mim, porque eu já senti as emoções que ele sentiu e passei pelo que ele passou”, disse Voehl após uma apresentação vespertina no American Repertory Theater da Universidade de Harvard. Voehl, que alterna o papel de Auggie com Garrett McNally, que tem síndrome de Treacher Collins, descreveu a experiência como “pura alegria”.

Livro popular vira musical

Adaptado do romance juvenil de RJ Palacio, de 2012, "Extraordinário" é uma história sobre o poder da bondade e da resiliência. A trama gira em torno de Auggie, um menino de 10 anos que mora em Nova York e está frequentando a escola pela primeira vez depois de anos estudando em casa. O livro também foi adaptado para um filme de sucesso em 2017, estrelado por Julia Roberts e Owen Wilson como os pais de Auggie.

Atores se apresentam durante uma produção do musical "Wonder" no American Repertory Theater em Cambridge, Massachusetts, na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026. (Foto AP/Charles Krupa)

Grande parte da história se concentra no ano escolar de Auggie, onde o gênio da ciência e fã de "Star Wars" inicialmente enfrenta olhares curiosos dos colegas e perguntas incômodas sobre seu rosto. Ele chega a cogitar abandonar os estudos, mas, graças a alguns amigos e à sua família, persevera e recebe uma medalha na formatura por sua força e coragem.

O musical também aborda a experiência de Auggie sob a perspectiva daqueles que o cercam, incluindo sua irmã Via, que se sente ofuscada pelo irmão, e a luta de seus pais para proteger Auggie e, ao mesmo tempo, lhe dar mais independência. Há também Jack, que se torna o melhor amigo de Auggie apenas para traí-lo e ganhar popularidade com os alunos mais populares. Ele acaba se reconciliando com Auggie, escolhendo fazer seu projeto de ciências com ele em vez de com o valentão da escola.

Um mundo mais ameno

A diretora Taibi Magar descobriu "Extraordinário" no auge da pandemia, em 2021, quando não tinha certeza se o teatro voltaria a funcionar. Magar recebeu uma proposta para transformar "Extraordinário" em um musical e passou a apreciar como a história mostra às pessoas uma maneira de viver que é "um pouco mais suave e um pouco mais gentil".

“Eu estava bastante triste e o mundo parecia muito frio e cruel”, disse Magar, que anteriormente dirigiu “Night Side Songs; The Half-God of Rainfall” e “Macbeth In Stride; We Live in Cairo” no teatro. “Então recebi um telefonema do meu agente pedindo para eu dar uma olhada nesse material, e isso simplesmente me comoveu profundamente.”

Um dos primeiros desafios foi encontrar jovens atores com problemas de saúde facial para interpretar Auggie. O filme conta com um ator sem qualquer problema de saúde facial, que interpretou o menino usando maquiagem e próteses.

O ator Reese Levine, ao centro, que interpreta Julian, o valentão da turma, provoca Auggie, interpretado pelo ator Max Voehl, durante o musical "Wonder" no American Repertory Theater em Cambridge, Massachusetts, na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026. (Foto AP/Charles Krupa)

Matthew Joffee, consultor do projeto e terapeuta aposentado, especialista em dificuldades de aprendizagem, argumentou que o papel deveria ser dado a alguém com uma diferença facial. Como portador da síndrome de Moebius, uma condição facial, Joffee temia que dar o papel a um ator sem essa característica pudesse "alienar" essa comunidade.

“Eles estavam tão desesperados para encontrar atores que pudessem interpretar o papel. Estavam dispostos a considerar a possibilidade de procurar atores e improvisar a maquiagem, mas eu me impus”, disse ele. “A comunidade ficaria completamente indignada ao saber que um ator com uma deformidade craniofacial não estava sendo utilizado.”

Nervosismo da primeira noite

No final, a produção encontrou Voehl e McNally para o papel de Auggie, a quem Magar descreveu como "dois atores extraordinários".

McNally, um jovem de 16 anos da Califórnia que nunca havia atuado antes, viu a publicação do anúncio para o papel em um grupo do Facebook e achou que seria divertido fazer um teste. Ele se identificou com Auggie, disse, por causa da maneira como as pessoas o olham "de forma diferente" e às vezes não o tratam como uma pessoa "normal".

Quando ele participou de uma chamada de Zoom para descobrir que iria para o Nordeste para participar de um grande musical, ficou entusiasmado — mas um pouco ansioso naquela primeira noite.

"Eu estava nervosa porque achei que ia errar ou ter medo do palco, mas no geral correu tudo muito bem, exceto por aquela vez em que bati a canela em uma das mesas", disse McNally. "Fora isso, foi um show muito bom e fiquei muito orgulhosa de mim mesma."

Mães presentes para dar apoio

Sentada ao lado da nova estrela estava sua mãe, Jules McNally, que nunca duvidou do potencial do filho, mas ficou surpresa com a capacidade dele de demonstrar tanta dedicação e comprometimento com o papel. Enquanto o público assiste ao filho, a quem ela descreveu como "uma pessoa única", ela espera que a peça inspire as pessoas a agirem.

“Quero que as pessoas saiam do espetáculo levando consigo as sensações que vivenciaram, a empatia que experimentaram”, disse ela. “Quero que elas saiam para suas próprias comunidades e façam o que for preciso para que as pessoas se sintam seguras, aceitas e acolhidas.”

Garrett McNally e Voehl também parecem apreciar como o papel de Auggie lhes oferece uma plataforma inesperada para mudar as percepções sobre pessoas com diferenças faciais.

“Estou fazendo a diferença ao ajudar as pessoas a entenderem que, embora algumas pessoas possam parecer diferentes ou ter alguma diferença facial, no final das contas somos todos iguais por dentro”, disse Voehl. “Não importa a nossa aparência, porque somos todos humanos.”

O ator Nathan Salstone, à esquerda, que interpreta o amigo imaginário do personagem principal Auggie, à direita, interpretado por Max Voehl, durante o musical "Wonder" no American Repertory Theater em Cambridge, Massachusetts, na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026. (Foto AP/Charles Krupa)

Jovens estudantes torcem por Auggie.

Em uma das últimas apresentações, centenas de crianças em idade escolar, gritando, lotaram o teatro. O espetáculo encerrou sua temporada de dois meses em 15 de fevereiro. Muitas, como Dylan Marion, um jovem de 14 anos de Malden, Massachusetts, fizeram fila depois para conseguir autógrafos — e conseguiram que sete atores assinassem um exemplar físico do livro. Muitas haviam lido o livro na escola e logo compararam a narrativa com o que viram no palco.

“Eu adorei. Foi incrível”, disse Aili Sparandara, de 10 anos, de uma escola em Cambridge, cuja turma inteira leu o romance. “É legal ver como ele tem pessoas que podem ajudá-lo. Mostrou muita igualdade. Eu gostei. Este livro é sobre alguém com diferenças que podem ser representadas. Não é como se todos os personagens de todos os livros tivessem que ser perfeitos.”

O ator Max Voehl, que interpreta o personagem principal Auggie, abraça a atriz Alison Luff, que interpreta sua mãe, durante o musical "Wonder" no American Repertory Theater em Cambridge, Massachusetts, na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026. (Foto AP/Charles Krupa)