Mundo Científico
China quer criar rebanho com mais de 100 iaques clonados até 2028; entenda
Parente do boi, o iaque é um bovino adaptado ao frio e ao ar rarefeito das montanhas do Tibete, onde tem importância econômica e cultural
A China pretende ampliar seu rebanho de iaques clonados para mais de 100 animais até 2028, em uma iniciativa que combina clonagem e seleção genética para acelerar o melhoramento da espécie adaptada às altas altitudes do Planalto Tibetano. O projeto, liderado por pesquisadores da Universidade de Zhejiang, já produziu 11 filhotes saudáveis e representa uma nova etapa da estratégia chinesa para fortalecer a pecuária local, preservar recursos genéticos e, futuramente, tentar salvar subespécies ameaçadas de extinção.
Entenda:
Reino Unido:
O plano foi anunciado após o nascimento, entre março e abril deste ano, de dez iaques clonados que completaram a gestação e nasceram por parto natural na região de Damxung, no Tibete. Segundo o coordenador da pesquisa, o professor Fang Shengguo, a meta agora é passar da atual fase de produção em pequena escala para um sistema capaz de formar um núcleo com mais de 100 animais considerados geneticamente superiores.
O iaque (Bos grunniens) é um mamífero da família dos bovinos, parente do boi, adaptado às condições extremas das regiões de alta altitude do Planalto Tibetano e do Himalaia, onde vive a mais de 4 mil metros acima do nível do mar. Com pelagem longa e espessa, o animal suporta temperaturas muito baixas e desempenha papel essencial na economia e na cultura das comunidades locais, fornecendo carne, leite, lã e couro, além de ser utilizado como animal de carga em áreas montanhosas. Também é considerado importante para o equilíbrio do ecossistema da região.
Primeiras clonagens e futuro do projeto
Os cientistas afirmam que a técnica reúne análise completa do genoma e clonagem por células somáticas. A equipe sequenciou cerca de 9 mil iaques para identificar exemplares com características consideradas desejáveis, como crescimento acelerado, maior fertilidade, resistência a doenças e adaptação às condições extremas da região. Esses animais passam a servir como doadores do material genético utilizado na clonagem.
De acordo com Fang, a tecnologia reduz o tempo necessário para desenvolver novas linhagens de 20 a 30 anos para aproximadamente cinco anos, permitindo ampliar rapidamente rebanhos com características específicas.
O primeiro sucesso do projeto ocorreu em julho de 2025, com o nascimento do iaque clonado conhecido como Nam Co Nº 1, considerado o primeiro exemplar da espécie obtido por clonagem. Segundo os pesquisadores, o animal nasceu com 16,75 quilos e atingiu 183,25 quilos aos nove meses, resultado apontado como evidência do bom desempenho da técnica.
Em julho deste ano, outro iaque clonado nasceu por cesariana em uma base de reprodução em Damxung. O filhote, de pelagem totalmente preta, pesou 33,5 quilos ao nascer — acima da média da espécie — e foi descrito pelos pesquisadores como saudável e capaz de caminhar normalmente poucas horas após o parto.
Além de aumentar a produtividade, autoridades locais afirmam que a iniciativa busca enfrentar a deterioração genética observada nos rebanhos nas últimas décadas. Segundo o governo do condado de Damxung, fatores como cruzamentos inadequados e mudanças ambientais reduziram o porte físico, o peso, a fertilidade e a resistência a doenças dos animais.
O projeto também prevê a criação de um centro de inovação voltado ao melhoramento genético e à conservação de germoplasma, inaugurado nesta semana a cerca de 4.300 metros de altitude, onde os filhotes clonados estão sendo criados. Os pesquisadores planejam ampliar a produção de embriões, aumentar o número de fêmeas receptoras e desenvolver sistemas específicos de alimentação para sustentar a futura linhagem.
Conservação e controvérsia
Embora os primeiros clones sejam de iaques domésticos, o governo chinês também pretende aplicar a tecnologia à conservação de iaques selvagens, especialmente do raro iaque-dourado, subespécie da qual restariam cerca de 300 indivíduos no Tibete, segundo a mídia estatal chinesa.
Pesquisadores já anunciaram a produção de mais de 200 embriões clonados de iaques selvagens e híbridos, utilizando células coletadas de animais mortos. Até o momento, porém, não houve confirmação do nascimento de nenhum clone da espécie selvagem.
A iniciativa desperta debate entre especialistas em bioética e conservação. Defensores argumentam que a clonagem pode acelerar programas de preservação e fortalecer populações ameaçadas pelas mudanças climáticas, perda de habitat e redução da diversidade genética.
Por outro lado, pesquisadores alertam para a necessidade de maior transparência sobre o projeto. Ainda não foram divulgados dados sobre quantas tentativas fracassaram antes dos 11 nascimentos bem-sucedidos, quantos embriões não sobreviveram, quais critérios garantem diversidade genética entre os clones nem quais protocolos de bem-estar animal e fiscalização ética são adotados.
Especialistas também destacam que a clonagem continua sendo uma técnica imperfeita, capaz de gerar anomalias genéticas e elevadas taxas de insucesso. Para eles, embora a tecnologia possa complementar estratégias de conservação, ela não substitui medidas consideradas essenciais, como proteção dos habitats naturais, redução das emissões de gases de efeito estufa e combate à degradação ambiental que ameaça as populações selvagens.
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