Mundo Científico
Mosquitos transmissores da malária podem ter desenvolvido preferência por sangue humano há 1,8 milhão de anos
Estudo genético indica que mudança ocorreu no sudeste asiático e pode estar ligada à chegada do Homo erectus à região
Uma pesquisa internacional sugere que a preferência de mosquitos do gênero Anopheles, vetores da malária, por sangue humano surgiu há cerca de 1,8 milhão de anos no sudeste asiático. O fenômeno estaria associado à presença dos primeiros hominídeos na região, em especial o Homo erectus.
O estudo, publicado nesta quinta-feira (26) na revista Scientific Reports, analisou a evolução dos mosquitos do grupo Anopheles leucosphyrus, reconhecidos por transmitir a doença em partes da Ásia. Para isso, os cientistas sequenciaram o DNA de 38 espécimes coletados entre 1992 e 2020 em diferentes áreas do sudeste asiático.
Mudança alimentar ao longo da evolução
A equipe, liderada por Upasana Shyamsunder Singh, da Universidade Vanderbilt, e Catherine Walton, da Universidade de Manchester, combinou dados genéticos e modelos computacionais para reconstruir a história evolutiva desses insetos.
Os resultados indicam que a transição para a alimentação em humanos ocorreu entre 2,9 milhões e 1,6 milhão de anos atrás, na região conhecida como Sundalândia, que hoje compreende a Península Malaia, Bornéu, Sumatra e Java. Antes dessa mudança, os ancestrais desses mosquitos alimentavam-se principalmente de primatas não humanos.
De acordo com os pesquisadores, esse período coincide com as estimativas mais antigas da chegada do Homo erectus ao sudeste asiático. A hipótese é que mosquitos que já picavam primatas arborícolas passaram a explorar uma nova fonte de alimento quando os hominídeos começaram a circular pelo solo.
Para que essa adaptação ocorresse, segundo os autores, foram necessárias várias mutações em genes relacionados à detecção de odores corporais, permitindo que os insetos reconhecessem os humanos como hospedeiros.
Os cientistas destacam que essa adaptação só teria sido possível diante de uma população significativa de Homo erectus na região. Assim, o estudo também fornece uma evidência biológica indireta da presença desses ancestrais humanos no sudeste asiático há quase dois milhões de anos, período em que o registro fóssil ainda é limitado.
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