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Exílio de opositor González significa duro golpe para transição democrática, mas não é o fim do jogo, dizem analistas

Maduro obtém ganhos internos com a partida do ex-diplomata, mas está longe de ser coroado vitorioso, com a oposição também podendo capitalizar algumas conquistas

Agência O Globo - GLOBO 09/09/2024
Exílio de opositor González significa duro golpe para transição democrática, mas não é o fim do jogo, dizem analistas

A partida do ex-candidato da oposição Edmundo González Urrutia para a Espanha, país onde desembarcou no domingo para buscar asilo político, significou uma derrota para a oposição e um duro golpe contra suas aspirações de uma transição democrática do poder, observam analistas. E mais: somado à clandestinidade imposta à líder da oposição, María Corina Machado, e à prisão, ameaça e perseguição a outros opositores, o exílio de González alertou ainda que o ditador Nicolás Maduro não está disposto a ceder.

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— Em primeiro lugar, na minha opinião, o exílio de Edmundo González é um golpe muito duro para a oposição e uma derrota moral para a causa democrática — disse o cientista político e consultor em comunicação política Luis Rendueles ao site independente venezuelano Efecto Cocuyo. — Um presidente eleito no exílio reforça a narrativa de que o chavismo permanecerá no poder e que as chances de uma transição política são cada vez menores.

O consultor político Ricardo Ríos descreveu o exílio ao site como "provavelmente a mais importante ou talvez a única" derrota da oposição desde as eleições presidenciais de 28 de julho e descartou a possibilidade de um cálculo político por María Corina, como foi o caso do site montado pela oposição para publicar cópias das atas a que alegam terem tido acesso e que, segundo afirmam, mostram a vitória de González — diferentemente do resultado divulgado pelo Conselho Nacional Eleitora (CNE) venezuelano, que declarou Maduro vencedor.

Aliás, o exílio mostrou que a "causa raiz da crise venezuelana não é eleitoral" e que os esforços de Brasil e Colômbia para construir um canal de diálogo entre oposição e situação "falharam" por não "entender a natureza do problema", pontuou o professor de Direito Constitucional e Administrativo na Universidade Central da Venezuela (UCV) e na Universidade Católica Andrés Bello (UCBA), José Ignácio Hernández:

— Uma pequena elite comprometida com flagrantes violações de direitos humanos e outras atividades criminosas decidiu manter o poder, independentemente das consequências — descreveu o professor à revista Americas Quarterly.

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Nesse caso, os analistas destacaram que o exílio concedeu uma espécie de vitória moral por Maduro. González é alvo no país de um mandado de prisão após não comparecer a três intimações do Ministério Público, que o acusa de cinco crimes, para depor. Mas a prisão representava um "risco", segundo o diretor da consultoria política Log, Giulio Celini, porque "algo poderia acontecer a ele na prisão", o que "teria um alto custo político".

— O governo não ousou prendê-lo; estava, claro, sendo sitiado. Sabiam que prender Edmundo [González] seria muito pior do que prender [Juan] Guaidó, que em nenhum momento se atreveram a prender — disse Ríos, em referência ao opositor que chegou a ser reconhecido como presidente interino da Venezuela por 50 países, incluindo o Brasil, acrescentando que o exílio assim "diminuiu a pressão interna" sem muitos riscos.

Desânimo e 'implosão'

A partida do ex-diplomata também significou outro ganho para Maduro ao desinflar o ímpeto dos venezuelanos, que tomaram as ruas nos dias seguintes às eleições para manifestar-se de maneira contrária à reeleição de Maduro, e incutir neles desespero, desânimo e desesperança. Em outras palavras, "implica um pouco de desolação no clima social", disse Celini.

— Se a população vê que a liderança está nessa situação, há menos incentivo para participar — explicou.

A professora universitária e cientista política María Aexandra Semprún concordou, observando ao Voz da América que os venezuelanos que votaram na oposição "podem se sentir derrotados ao pensar que não há mais nada a fazer" e que o chavismo "pode exercer sua tirania a ponto de dominar aqueles que derrotou".

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E, mesmo com "o custo político de ter um ex-candidato presidencial no exílio", o governo parece "muito mais coeso e organizado", sem nenhuma ruptura interna esteja prestes a ocorrer, acrescentou Quintero ao site La Patilla: há ainda, continuou, "uma enorme capacidade" de executar suas estratégias para permanecer no poder. A oposição, por sua vez, perdeu um conciliador e ator político moderado, e Quintero alertou para uma "implosão" dentro do partido, uma vez que María Corina enfrenta grandes resistência internamente no espectro da oposição.

Rendueles observou também que o controle da narrativa sobre o exílio fez diferença. A oposição, por exemplo, demorou um pouco mais do que os chavistas para se manifestarem, com Rodríguez anunciando a partida ainda no sábado. A declaração de María Corina veio apenas no domingo de manhã. Para o cientista político, "o chavismo não dá ponto sem nó", e o anúncio da notícia foi usado pelo governo para "aproveitar e derrotar moralmente os venezuelanos".

Sem xeque-mate

Mas, apesar da situação pender de maneira mais positiva para o chavismo, os especialistas pontuam que o episódio não significa o fim e tampouco um xeque-mate do governo. Semprún observou que, entre os pontos positivos que podem ser capitalizados pela oposição, está a conquista de "um porta-voz confiável" que agora pode falar livremente e com riscos ínfimos sobre a situação política na Venezuela.

Além disso, o exílio de González envia uma mensagem à comunidade internacional da "natureza ditatorial e tirânica" de Maduro: os EUA, a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia (UE) e a Alemanha já criticaram a partida do ex-diplomata. Assim, a "integridade pessoal de González Urrutia foi preservada".

A diretora do Programa Peter D. Bell sobre Estado de Direito do Diálogo Internacional e ex-diretora adjunta da Divisão das Américas da ONG Humas Rights Watach, Tamara Broner, para quem a partida de González não significou uma vitória total de Maduro, mas parte de "uma jogada de xadrez", "a realidade subjacente não mudou".

— O regime não conseguiu sustentar sua suposta vitória eleitoral e está aumentando a repressão. Nenhum governo democrático na região, incluindo os de esquerda que no passado não conseguiram se distanciar de Maduro, apoiou os supostos resultados oficiais. — analisou a diretora à Americas Quarterly.

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Tanto Broner quanto Hernández afirmaram que para impedir que o exílio coroe uma vitória final de Maduro é necessário que a comunidade internacional aja com força e aumente sua pressão sobre o governo, atingindo principalmente as altas lideranças chavistas. Para a diretora, as estratégias devem ocorrer em coordenação com a liderança da oposição e incluem, além das sanções, "aumentar as ameaças de processo no exterior por graves violações de direitos humanos, corrupção, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, e limitar o acesso aos mercados."

O professor adicionou ainda a medida de não reconhecer ou tratar Maduro "como presidente e [garantir] que os membros da elite governante e seus aliados, incluindo aqueles no setor empresarial, serão responsabilizados por suas ações."

— Dado que o poder no regime de Maduro não é monolítico, plantar as sementes da dissidência dentro dele é agora mais crítico do que nunca — afirmou Broner, com Hernández acrescentando: — A nova estratégia deve enfraquecer os líderes atuais, ao mesmo tempo em que deixa claro que não há saída para essa situação. (Com AFP)