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Jornalistas mulheres que cobriram Dia D foram vítimas de machismo e 'esquecimento'

Elas enfrentaram o sexismo para conseguirem reportar os fatos históricos, mas não tiveram o mesmo valor dos homens posteriormente

Agência O Globo - EXTRA 06/06/2024
Jornalistas mulheres que cobriram Dia D foram vítimas de machismo e 'esquecimento'

Há exatos 80 anos, as jornalistas que cobriram de perto o Dia D tiveram que driblar as proibições impostas pelos militares a presença delas nas frentes de batalha, acabaram punidas e, mesmo assim, não tiveram o mesmo reconhecimento que seus pares do sexo oposto. No dia 6 de junho de 1944, as tropas Aliadas apontaram na Normandia, na costa oeste da França, dando início a derrocada do regime nazista.

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Quando a operação Overlord foi iniciada, a repórter americana Martha Gellhorn soube da informação logo nas primeiras horas, em Londres, junto a outros colegas. Mesmo sem muitas esperanças de embarcar, por conta das restrições, ela se apressou para chegar à zona portuária da capital britânica, determinada a reportar de perto o momento histórico.

— Ela eludiu os controles militares disfarçando-se de enfermeira da Cruz Vermelha, e ao soar a sirene de partida, ela se trancou no banheiro — conta Caroline Moorehead, biógrafa de Martha.

Em "Martha Gellhorn: uma vida", a autora conta que Martha teve que ser astuta, mas conseguiu: ao que tudo indica, ela foi a única mulher jornalista que desembarcou nas praias da Normandia naquele dia que se tornaria crucial nos rumos da Segunda Guerra, com a queda do nazismo em território francês.

No entanto, ela pagou pelo ato de bravura. Os Aliados a detiveram no retorno a Londres e proibiram seu retorno ao outro lado do Canal da Mancha.

A repórter Lee Carson foi outra americana que resistiu as determinações oficiais, e por isso também acabou sendo punida. Ela convenceu um piloto de caça a levá-la para sobrevoar o campo de batalha costeiro e obteve uma visão aérea privilegiada do desembarque.

Assim que aterrissou, os militares a convocaram para um conselho disciplinar, levando a sua fuga, tudo isso narrado por Nancy Caldwell Sorel, em seu livro "The Women Who Wrote War". Ao ser questionada se sabia que era proibido, Lee afirmara que seu trabalho era cobrir a informação.

Meses depois da invasão, a fotógrafa da edição britânica da revista Vogue Lee Miller estava na cidade de Saint-Malo, na costa atlântica da França, ainda sob domínio alemão. Os registros que ela fez da cidade devastada rodaram o mundo, mas, como punição, exército a colocou em prisão domiciliar,

— Era escandaloso e estúpido, ela só estava fazendo seu trabalho. Um homem em sua posição teria sido elogiado — comenta seu filho, Antony Penrose, à AFP.

Machismo entre militares

Especialistas apontam que naquela época as repórteres tiveram que desobedecer frequentemente, lutar contra a ordem moral encarnada por generais e comandantes, sempre homens. O sexismo costumava falar bem mais alto, por todos os lados.

— O exército tinha um medo visceral de que uma jornalista morresse na frente de batalha, acreditando que isso significaria que os homens não conseguiram protegê-la — observa o historiador Denis Ruellan.

Segundo ele, os comandantes das forças armadas asseguravam que os soldados se sentiriam "perturbados" pela presença de mulheres jornalistas, o equivalente a sexualizá-las.

Em sua página web, o American Air Museum descreve Lee Carson como "a mais bonita" das jornalistas, e que "utilizava seu charme para obter favores".

Ódio e esquecimento

Apesar das dificuldades, as jornalistas conseguiram informações exclusivas, o que não era muito bem aceito pelos colegas homens. "Eu a odiava", "ela obtinha coisas que os homens não conseguiam", relatavam, em 1945, no The Boston Globe, os rivais de Iris Carpenter — que foi correspondente para vários meios britânicos e estava na Normandia desde 10 de junho de 1944.

Apesar do esforço das coberturas, os nomes dessas grandes jornalistas teriam caído no esquecimento:

— Ao final da Segunda Guerra, os jornalistas homens retornaram triunfantes, com carreiras em ascensão, enquanto as mulheres muitas vezes foram realocadas para tarefas secundárias — indica Ruellan, e acrescenta: — Outras retornaram traumatizadas pelo que viram, e deixaram o jornalismo para deixar a guerra.