Internacional
Bode expiatório na eleição dos EUA, imigração impulsionará crescimento econômico do país em US$ 7 trilhões
Recorde de entradas na fronteira, calcanhar de Aquiles de Biden, ajudou o país a se recuperar após a pandemia com aquecimento no mercado de trabalho e fomento ao consumo
Após ordenar, na terça-feira, o fechamento temporário da fronteira EUA-México para solicitantes de asilo, o presidente americano, Joe Biden, foi acusado de agir como seu rival, Donald Trump, quando ele estava à frente da Casa Branca — com a diferença de que, na época, as ações do republicano foram barradas na Justiça. Por trás do tema que promete dominar mais um pleito americano, estudos mostram que a chamada "crise migratória", na verdade, impulsiona o crescimento do país. Projeções do Departamento de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO, em inglês) apontam que, até 2034, a expansão da absorção de mão de obra estrangeira no mercado de trabalho adicionará US$ 7 trilhões ao PIB americano e US$ 1 trilhão às receitas do governo federal.
Contexto: De olho na eleição, Biden fechará temporariamente fronteira EUA-México para solicitantes de asilo
Visto como calcanhar de Aquiles do governo Biden, o aumento nos cruzamentos na fronteira — que em dezembro bateu recorde de 370 mil entradas — fomentou a economia também pelo aumento no consumo, destaca um estudo do Hamilton Project com base em dados do CBO.
Para Roberto Spighel, especialista em migração e CEO da SG Global Group, embora existam custos iniciais associados à alta imigração — como aumento das despesas com educação, saúde e programas de bem-estar social —, eles são compensados com benefícios econômicos a longo prazo.
— A mão de obra de imigrantes ajudou a preencher o boom de vagas disponíveis na economia americana pós-pandemia — explica Spighel ao GLOBO, destacando outras vantagens, como a maior procura por bens e serviços e a contribuição para as receitas fiscais. — Imigrantes frequentemente ocupam empregos que são menos atrativos para os trabalhadores nativos, ajudando a manter a competitividade de setores essenciais como agricultura, construção e serviços.
Guga Chacra: Biden dá guinada anti-imigração
No caso dos solicitantes de asilo, alvos diretos da ordem executiva de Biden, Spighel avalia que a sua situação poderia ser resolvida por "leis que os coloquem no caminho da documentação, e consequentemente maior contribuição financeira ao país". Hoje, os migrantes com esse status só podem se candidatar para trabalhar legalmente 150 dias depois de ingressarem com o pedido de asilo. Com os atrasos no processo e o tempo necessário para se estabelecer no país, pode levar meses (ou até anos) para que sejam incorporados ao mercado de trabalho formal — o que eleva os gastos com políticas assistencialistas e, muitas vezes, os empurra para a informalidade.
Por outro lado, não faltam exemplos de estrangeiros que, após instalados, impulsionaram a geração de empregos. Na última edição da lista das 500 maiores empresas dos EUA, publicada pela revista Fortune, 44% foram fundadas por "novos americanos", como são chamados imigrantes ou a primeira geração de filhos nascida no país.
Solução para crise futura
No último censo demográfico, realizado em 2020, os EUA registraram o menor crescimento populacional desde a Grande Depressão, na década de 1930. O levantamento também apontou um aumento na quantidade de adultos, com três quartos da população com mais de 18 anos, e uma queda no número de crianças, reflexo da baixa natalidade.
A queda no crescimento populacional foi ainda mais expressiva em 2020 e 2021, "quando a pandemia de COVID-19 afetou significativamente as mortes e, em menor escala, os nascimentos", diz o estudo do Hamilton Project. Desde então, a imigração se tornou o principal impulsionador do aumento no número de habitantes dos EUA, projeta o CBO — no momento em que o envelhecimento da população se tornou uma dor de cabeça para países como Itália, Japão e o próprio Brasil.
— A imigração desempenha um papel crucial na mitigação dos desafios econômicos e sociais associados ao envelhecimento da população nativa — afirma Spighel. — A entrada de imigrantes no mercado de trabalho aumenta a proporção de trabalhadores em relação aos aposentados, reduzindo a pressão sobre os sistemas de previdência social e saúde. Ironicamente, os imigrantes legais pagam muito mais impostos do que recebem de benefícios, então no lápis, eles contribuem desproporcionalmente para a previdência dos americanos aposentados.
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Retórica antiga
Apesar das estatísticas positivas, as imagens milhares de migrantes atravessando a fronteira México-EUA falam mais alto na campanha eleitoral. A suposta crise migratória no país é ecoada por Trump desde a sua primeira tentativa de chegar à Casa Branca, em 2015. O magnata já os acusou de "envenenar" o sangue americano e promete promover uma deportação em massa caso seja eleito para um segundo mandato em novembro.
Mas a narrativa anti-imigração não é recente. Segundo Renata Geraissati, historiadora especialista em imigração, a resistência à entrada de estrangeiros nos EUA remete ao início do século passado, quando uma comissão foi criada para analisar seus efeitos na sociedade. Com base em crenças eugênicas que predominavam na época, o grupo produziu um relatório com recomendações como testes de alfabetização para reduzir o número migrantes.
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As teorias de hierarquia social levaram à formulação de leis, a partir de 1921, que limitavam a quantidade de cidadãos que poderiam entrar no país em 2% para cada nacionalidade. Até 1980, apenas 165 mil migrantes estavam autorizados anualmente, explica Geraissati.
— A imigração sempre foi percebida como um “problema” devido as associações ao crescimento desordenado e à dificuldade de rápida assimilação desse grande contingente de pessoas — pontua a historiadora. — De forma geral, a imigração é percebida como um desafio à integração nacional, sendo associada à criminalidade, ainda que estudos mostrem que os imigrantes são menos propensos a cometer crimes do que os nativos.
Para Geraissati, a percepção negativa do grupo é "exacerbada em períodos de crise econômica e alta inflação, quando a ideia de concorrência no mercado de trabalho se torna mais prevalente". Nesses contextos, alimenta-se a narrativa de que eles também são culpados pelos entraves econômicos do país.
Fator eleição
David Schultz, cientista político e professor da Universidade Hamline, afirma que a mudança de postura de Biden — que se elegeu em 2020 criticando a retórica anti-imigração trumpista e prometeu reformar o sistema de asilo — faz parte de uma estratégia para atrair eleitorados-chave favoráveis ao maior controle da fronteira, como independentes, indecisos e moderados que vivem no subúrbio. A medida, no entanto, irritou outros grupos, como os mais jovens e democratas progressistas.
— Ele está mostrando que pode agir como o Trump sem ser o Trump — avalia Schultz. — A segurança nas fronteiras é uma das duas ou três principais questões para muitos eleitores. Ele precisa fazer algo para eliminar a imagem visual de muitas pessoas cruzando a fronteira. Ao tomar essa atitude, ele está tentando tirar a questão [da pauta] de Trump e dos republicanos.
O momento para a ação também foi calculado, afirma o cientista político.
— Isso foi feito logo antes do primeiro debate. Ele está tentando tirar o foco de Trump e destacar o que ele, como presidente, está fazendo, como parte de um esforço de Biden para reverter as pesquisas em que aparece atrás — destaca Schultz. — Além disso, ele quis fazer isso agora antes que os eleitores entrem em férias de verão [no Hemisfério Norte] e parem de prestar atenção na política por alguns meses.
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