Internacional
Sem Rússia, EUA e Europa celebram data sob temor de ampliação da guerra na Ucrânia
Evento em homenagem à vitória dos aliados deve dividir espaço entre a valorização da memória e tratativas geopolíticas atuais
As imagens de uma Europa em guerra não estarão restritas às memórias do Dia D, nesta quinta-feira, quando veteranos e líderes mundiais se reúnem para celebrar os 80 anos da invasão da Normandia. A guerra na Ucrânia vai dividir a atenção — e o espaço na agenda — dos aliados durante os atos solenes, em um momento em que as relações entre Ocidente e Rússia se deterioram rapidamente e cresce o temor de que um conflito armado volte a ganhar dimensões continentais.
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Maior apoiador de Kiev desde que a Rússia invadiu as fronteiras do país vizinho — desde a invasão russa, em 2022, os EUA já enviaram US$ 175 bilhões a Kiev —, os EUA ampliaram seu envolvimento com a guerra no Leste Europeu ao autorizar, expressa e publicamente, o uso de armas fornecidas pelo país aos ucranianos, sob certas condições, contra o território russo em 30 de maio. Cinco dias antes, a medida havia sido defendida por Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Ocidental), aliança militar liderada pelos EUA. Até então, autoridades americanas e europeias classificavam a decisão como uma questão interna do país em guerra, sem nunca dar um sinal verde definitivo.
Para o presidente Joe Biden, explicou o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Kirby, não há como o conflito não ter um lugar de destaque na agenda de política externa americana.
— (O presidente Biden) realmente acredita que estamos em um ponto de inflexão na História — disse Kirby, que acompanha o líder americano nas cerimônias na França. — Isso está ligado à forma como a geopolítica está mudando, como os desafios estão sendo apresentados ao redor do mundo.
A resposta de Moscou à decisão ocidental foi imediata. O Kremlin afirmou que a autorização expressa dos EUA era uma prova do extenso envolvimento de Washington na guerra no Leste Europeu — o que Stoltenberg rebateu classificando como um esforço narrativo russo para impedir o bloco ocidental de ajudar a Ucrânia a se defender. Em meio à discussão, a Ucrânia atacou nesta terça-feira o primeiro alvo em território russo usando o sistema de foguetes americano HIMARS, uma base na província fronteiriça de Belgorod.
Em reação, o presidente russo, Vladimir Putin, ameaçou nesta quarta-feira fornecer armas a países que estão em conflito com potências ocidentais.
— Se alguém pensa que é possível fornecer essas armas a uma zona de guerra para atacar nosso território (...), por que não teríamos o direito de enviar armas do mesmo tipo [a outros países]? — indagou durante uma entrevista coletiva com a imprensa estrangeira em São Petersburgo.
Nos próximos dias, o presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu anunciar novas medidas contra a Rússia durante a visita do presidente Volodymyr Zelensky para as cerimônias — além de uma bilateral com o líder francês, o ucraniano também se reunirá com Biden. Uma das iniciativas em discussão seria o envio de instrutores e adidos militares franceses ao território ucraniano para auxiliar nas tomadas de decisão sobre o combate. Antes mesmo do anúncio, o chanceler russo, Serguei Lavrov, disse que qualquer enviado francês seria visto por Moscou como um alvo lícito.
Relação estremecida
Quando os aliados ocidentais desembarcaram na França, em 1944, a União Soviética (de quem a Rússia herdou a maior parte dos territórios, arsenal militar e capital político) era um aliado importante na luta contra o nazismo. Para muitos historiadores, foram as batalhas em Stalingrado e Kursk, no front Oriental, vencidas pelos soviéticos a um custo elevadíssimo, que definiram a derrota alemã.
A posição de aliado não significa, contudo, que as decisões de combate eram tomadas de forma coordenada entre Washington-Londres e Moscou. A relação era pragmática, pautada no combate a um inimigo comum — ou, como lembra o coronel Flávio Morgado, instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME):
— Países não têm amigos, têm interesses — disse.
Quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a fatia ocidental dos aliados criou a Otan, bloco que por décadas confrontou a União Soviética, com crises históricas que levaram o mundo à beira de um novo conflito de escala global. Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, porém, os ocidentais mantiveram uma postura de reconhecimento e valorização da Rússia em termos históricos, mesmo em momentos de crise política.
Há uma década, na comemoração dos 70 anos do Dia D, o já presidente Putin foi convidado e compareceu à Normandia poucos meses após anexar a Península da Crimeia ao território russo. O fato, que está na origem do conflito atual, já era motivo de preocupação naquele período, mas aliados ocidentais reagiram naquele contexto com a criação de vias diplomáticas. A cerimônia memorial acabou sendo o primeiro encontro presencial entre Putin e o então presidente ucraniano, Petro Poroshenko, após a anexação.
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A partir da interação inicial, estabeleceu-se a plataforma conhecida como Quarteto da Normandia, que incluiu Rússia e Ucrânia, como partes beligerantes, e Alemanha e França, como partes mediadoras. Os diálogos resultaram, nos anos seguintes, nos acordos de Minsk — tratados que nunca interromperam de fato a guerra no Leste ucraniano, e foram interpretados de forma ambígua por Moscou e Kiev, até a deflagração do conflito atual.
Quando a guerra estourou novamente, em fevereiro de 2022, Macron e Olaf Scholz, chanceler da Alemanha, tentaram se apresentar como possíveis mediadores de uma saída diplomática, recorrendo ao formato criado anos antes em solo francês. As conversas não evoluíram, e os europeus foram relegados a um papel secundário à medida que os EUA exerciam sua liderança na tomada de decisão do bloco ocidental.
Até às vésperas do evento deste ano na Normandia, Macron considerava enviar convites a Moscou. A ausência de Putin já era dada como certa — alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra na Ucrânia, o líder russo teria de ser preso —, mas o presidente francês pretendia convidar uma delegação de representantes russos. O contragosto dos demais aliados parece ter influenciado a desistência do francês, que declarou nos últimos dias que o convite não foi oficializado por não haver condições de um diálogo normal com os russos diante da guerra de agressão na Europa.
Em paralelo, o líder francês adotou tom que deve ser recebido com cautela por Moscou. Após ter dito, em janeiro, que os aliados não poderiam descartar a possibilidade de enviar soldados à Ucrânia por considerar que a Europa "pode morrer", Macron escreveu, em uma mensagem para a celebração que este "é um período que nos obriga a questionar o preço que estamos dispostos a pagar por nossa liberdade e para defender nossos valores".
— É hoje que a questão da paz e da guerra em nosso continente está sendo respondida, assim como a nossa capacidade de assegurar a nossa própria segurança — completou ele em um discurso recente.
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Sem fim à vista
Nenhum caminho parece próximo de levar a um fim do conflito. A Rússia anexou oficialmente quatro áreas da Ucrânia ao seu próprio território, algo que Kiev diz ser inadmissível. Nenhum diálogo pela paz tem efetivamente o aval dos dois governos para tentar negociações. No campo de batalha, a Rússia avança em frentes no nordeste e no sul, enquanto bombardeia o sistema elétrico da Ucrânia, que por sua vez encontra dificuldades para repor armas, munições e tropas.
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Zelensky, o líder aliado convidado à Normandia, investiu esforços diplomáticos na convocação de uma Conferência pela Paz, que será realizada entre 15 e 16 de junho, na Suíça. Apesar da confirmação de vários países, mesmo os maiores parceiros da Ucrânia deram sinais de que o evento tem importância secundária — e chances limitadas de sucesso sem, antes, combinar com os russos.
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