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'Vale tudo' na Argentina: por candidatura de ministro, governo zera imposto para milhões a dois meses da eleição

Pesquisas indicam crescimento do candidato da extrema direita, Javier Milei, que teria chances de vencer no primeiro turno

Agência O Globo - GLOBO 12/09/2023

O governo argentino tem até o dia 26 de setembro para fazer anúncios que possam ter impacto na campanha eleitoral, e está aproveitando ao máximo esse prazo na tentativa de turbinar a candidatura presidencial do ministro da Economia, Sergio Massa. Esta semana, a Casa Rosada anunciou a isenção de milhões de trabalhadores do imposto de renda para quem ganha o equivalente até US$ 5 mil mensais, e, segundo antecipou o ministro e candidato, sua equipe está trabalhando para criar instrumentos de financiamento bancário, num país no qual o crédito para pessoas físicas e jurídicas é praticamente inexistente.

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— Teremos novos anúncios antes do dia 26, porque nesse dia se encerra a possibilidade de comunicar medidas de caráter eleitoral — declarou Massa, nesta terça-feira.

Segundo analistas políticos, as pesquisas que estão circulando nos últimos dias indicam que o candidato presidencial da extrema direita, o economista Javier Milei, continua na liderança, com chances, inclusive, de vencer no primeiro turno.

— Milei está na frente, como esteve nas primárias de 13 de agosto, e em algumas pesquisas acima dos 30% que obteve. A aliança opositora Juntos pela Mudança está em queda, e Massa com um leve crescimento, mas não pelas medidas anunciadas e sim por captar votos de outros candidatos que tiveram um desempenho muito fraco — explica o estrategista de campanhas Mario Riorda.

O cenário mais provável hoje, acrescentou Riorda, seria um segundo turno entre Milei e Massa. No entanto, uma eventual vitória do candidato da extrema direita no primeiro turno, em 22 de outubro, não pode ser descartada. Para vencer uma eleição no primeiro turno, um candidato na Argentina deve obter 45% dos votos, ou 40% com uma vantagem de pelo menos dez pontos percentuais em relação ao segundo colocado.

— Milei tem chances de ser eleito no primeiro turno, mas nada está definido — frisa Riorda.

As recentes medidas de isenção do IR anunciadas por Massa beneficiarão quem ganha menos de 1,7 milhão de pesos (cerca de R$ 12 mil) por mês. Na regra atual, o piso a partir do qual um trabalhador é isento de tributar o IR é de 700 mil pesos (R$ 5 mil). Com o novo esquema, apenas 90.000 executivos em todo o país terão de pagar imposto. O número é menos de 1% do total de trabalhadores registrados na Argentina, que tem uma taxa de informalidade superior a 50%.

Os anúncios do ministro se somaram a muitos outros, entre eles o aumento de salários de servidores e aposentadorias, que buscaram impulsionar uma candidatura que ainda aparece com chances de conquistar uma vaga no segundo turno, mas teria enorme dificuldade de derrotar o candidato da extrema direita num eventual segundo turno, previsto para 19 de novembro.

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A Argentina tem uma taxa de inflação acima de 100% ao ano, uma das mais altas do mundo e na região abaixo apenas da Venezuela — que tem cerca de 400%. Muitos preços aumentam mais de 10% ou até 20% de um mês para o outro, e a pobreza, que segundo dados oficiais chegou a 43,2% no primeiro semestre, já supera 50% em algumas regiões do país, de acordo com estatísticas do Observatório da Dívida Social Argentina, da Universidade Católica.

Nas semanas posteriores às Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (Paso) de meados de agosto, nas quais foram eleitos os candidatos que participarão do primeiro turno, várias províncias argentinas foram cenário de saques a supermercados. Segundo informações divulgadas pela imprensa local, os ataques a comércios, em alguns casos violentos, foram organizados através de aplicativos de mensagens como WhatsApp, mas também envolveram a participação espontânea de famílias inteiras.

O país viveu, ainda, uma forte desvalorização da moeda, que levou a cotação do dólar paralelo ou blue a superar a barreira dos 700 pesos. Segundo Massa, o Fundo Monetário Internacional (FMI) pretendia que o governo implementasse, em meio a intensas negociações sobre o empréstimo de US$ 44 bilhões concedido ao país em 2018, durante o governo do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), uma desvalorização ainda maior.

Os anúncios de Massa contrariam um dos pilares do entendimento com o fundo, que é a necessidade de reduzir o déficit fiscal. O governo argentino financia suas despesas, cada vez maiores, emitindo mais pesos, o que acaba alimentando ainda mais uma inflação que já é galopante. Sem dólares e sem acesso ao mercado internacional de dívida, o Banco Central já transferiu ao governo quase 1,7 trilhão de pesos este ano para pagar as contas — o volume mais elevado desde os gastos com a pandemia em 2020, segundo dados oficiais.