Internacional

Produção de cocaína bate recorde na Colômbia e área de cultivo já é maior que a cidade de São Paulo

Maior produtor mundial da droga, país teve aumento de 13% na colheita de coca no ano passado, equivalente a a 230 mil hectares, segundo relatório da ONU

Agência O Globo - GLOBO 11/09/2023

A Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína, aumentou a área de colheita de folhas de coca em quase 13% em 2022, atingindo um recorde de 230 mil hectares — território maior que a cidade de São Paulo e quase duas vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro —, de acordo com um relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Undoc) publicado nesta segunda-feira.

Entenda: Governo da Colômbia e principal dissidência das Farc retomam cessar-fogo

Saiba mais: MP da Colômbia investiga ameaças de morte contra filha de presidente Petro

Até 2021, o país tinha 204 mil hectares de plantações de coca, 43% a mais que o ano anterior. Embora tenha registrado uma desaceleração no crescimento do último período, o número é o mais alto registrado pela ONU desde que a organização começou a monitorar a produção em 2001.

Junto com as plantações, cresceu a fabricação de drogas que saem da Colômbia, principalmente para Estados Unidos e Europa. De 1.400 toneladas de cocaína, o país passou a produzir 1.738 toneladas.

Esta tendência de crescimento vem se consolidando desde 2014, apesar da perseguição ao tráfico de drogas ao longo de cinco décadas com o apoio financeiro de Washington e o acordo de paz com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em 2016.

Quase metade destes cultivos (49%) está localizado em comunidades negras e reservas florestais e indígenas, de acordo com o relatório.

Veja: Lula discute combate ao garimpo ilegal e ao narcotráfico com presidente da Colômbia

Assim, a Colômbia continua a ser, de longe, o maior cultivador da folha de coca do mundo, à frente do Peru e da Bolívia. Os Estados Unidos, que historicamente financiaram a luta antidrogas, são o maior consumidor da cocaína colombiana.

Ainda segundo o relatório, "77% do aumento líquido se concentrou em Putumayo (cerca de 20 mil hectares)", perto da fronteira com o Equador — um país cada vez mais atingido pela violência ligada ao tráfico de drogas.

Em agosto: Ex-líder das Farc se declara culpado de narcotráfico nos EUA

Fracasso

O presidente colombiano, Gustavo Petro, denunciou o "fracasso" da luta antidrogas e pediu aos EUA que definam uma nova abordagem baseada na prevenção do consumo nas economias desenvolvidas.

De acordo com o Ministério da Justiça, de 2012 a 2022, mais de 840 mil hectares de coca foram erradicados à força, mas a área plantada aumentou 327%.

No sábado, Petro liderou uma cúpula sobre o assunto com representantes de 20 países latino-americanos, incluindo o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, com quem chegou a um acordo para exigir ao mundo uma mudança que envolva um tratamento abrangente da luta contra as drogas.

Nova rota: Narcotraficantes brasileiros enviam cocaína pura à Europa pela África para evitar fiscalização mais rigorosa

De acordo com os líderes, a repressão ao narcotráfico enriquece as máfias, provoca mais violência e não ataca o consumo nas grandes potências nem a pobreza que propicia a manutenção das organizações criminosas.

— A política chamada guerra às drogas fracassou. Não serve — afirmou Petro na Conferência Latino-americana e do Caribe sobre Drogas.

Apesar do desarmamento das Farc, persiste na Colômbia uma guerra que coloca rebeldes, traficantes de drogas, paramilitares e agentes estatais uns contra os outros. Enquanto isso, os grupos armados se multiplicaram, financiados pelo tráfico de drogas, a mineração ilegal e a extorsão.

O primeiro presidente de esquerda na história do país defende uma política de "paz total" para neutralizar o conflito prolongado através do diálogo com todos os intervenientes ilegais. Em 50 anos, a violência na Colômbia deixou 9 milhões de vítimas, a maioria delas forçadas a se deslocarem internamente em razão dos confrontos.

E mais: Grupo que reivindicou assassinato de candidato no Equador disputa controle de drogas com outras facções

O ministro da Justiça, Néstor Osuna, por sua vez, garantiu nesta segunda-feira em entrevista à Blu Radio que é um momento "estratégico" para mudar uma abordagem "holística" na luta contra os cultivos de drogas, sobretudo em um momento de ascensão do fentanil — um opióide até 50 vezes mais forte que a heroína, que mata quase 200 pessoas por dia nos EUA, segundo dados oficiais.

A nova política do governo consiste em oferecer aos agricultores, "em sua maioria pobres", outras alternativas: continuar a cultivar coca, mas para fins legais, como a fabricação de cosméticos, têxteis, alimentos, etc.; estar vinculado a um projeto comunitário e não individual para uma mudança de economia nas regiões produtoras de coca; ou "que passem de cocaleiros a guardas florestais" em áreas protegidas e recebam um salário por cuidar do meio ambiente, explicou Osuna.

Até ao final do seu mandato, em 2026, o governo pretende reduzir a produção de cocaína para 900 toneladas, diminuindo também os hectares de folha de coca em 40%, para cerca de 150 mil hectares.