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America Great Again, só que não: mudança do perfil eleitoral explica 'derrota acachapante' de Trump
A derrota do campo político do presidente dos EUA, Donald Trump, nas eleições legislativas de meio de mandato de 2026 representa desgaste de sua liderança e possível ponto de inflexão na política estadunidense.
Para analistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, mais do que uma disputa pela composição do Congresso, o resultado coloca em evidência os limites do projeto político trumpista e o descontentamento de parcelas significativas do eleitorado com os rumos do país.
Até a contagem desta quarta-feira (4), em pelo menos sete estados os democratas conseguiram tomar a vaga dos republicanos, totalizando 28 estados governados pelos democratas e 22 pelos republicanos.
A conquista de maioria nas duas casas do Congresso pelos democratas, inclusive em estados tradicionalmente republicanos, evidencia que o desgaste do trumpismo ultrapassou os redutos habituais da oposição.
É o caso do Texas, segundo maior colégio eleitoral do país, onde um senador democrata foi eleito pela primeira vez após 40 anos e o governo do estado também ficou com os democratas. O Kansas também surpreendeu, local onde os republicanos governavam há quase um século, comentaram os analistas.
Trump admitiu mais cedo que a guerra contra o Irã, que gerou aumento do custo de vida estadunidense em geral, foi decisiva para a derrota de seu partido nas urnas, mas também declarou que "faria tudo de novo".
Os professores de relações internacionais Williams Gonçalves, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e Roberto Goulart, da Universidade de Brasília (UnB), elencaram uma combinação de fatores para a derrota, como corrupção, enriquecimento do presidente Trump e familiares.
"Foi uma derrota acachapante dele e do Partido Republicano, porque a gente não pode considerar que é só o trumpismo que está sendo derrotado nos Estados Unidos nesse momento, mas também o Partido Republicano, partido esse que hoje praticamente é hegemonizado por Trump e que ficou longe dos temas-chave da população dos Estados Unidos", disse Goulart.
Gonçalves lembrou que o eleitorado não perdoou o não cumprimento da promessa de Trump durante a campanha de que os EUA não participariam mais de guerras.
"Ele seguiu Israel e criou uma guerra, inventou uma guerra com o Irã, uma guerra para os Estados Unidos completamente desnecessária. Ao fazer isso, ele traiu o seu vínculo com o movimento MAGA", comentou ao citar o movimento Make America Great Again (Faça a América Grande Novamente, em inglês). "Ele se julgava o grande especialista, julgava que ia recuperar o poder dos Estados Unidos, a sua ação foi um desastre completo".
Ambos destacaram também a política de imigração do governo, que, por ser "altamente desumanizante", causou rechaço de boa parcela da população.
Para o analista da UnB, mudanças significativas no perfil eleitoral dos Estados Unidos desde os anos 1980, que o partido republicano ignora ou desconhece.
"O Partido Republicano sempre apostou no eleitorado branco, como eles falam, cristão, só que as mudanças demográficas, elas foram sentidas já nos anos 90. Hoje nós estamos com o eleitorado latino um pouquinho acima do total de eleitores negros e negras. O voto latino está em torno de 16% a 17% e o voto dos negros e negras totalizando em cerca de 15%", explicou ele.
Esses mais de 20% fizeram a diferença nessas eleições, segundo ele, e também contribuíram para diversificar o parlamento, com candidatos mais plurais, sobretudo, no Partido Democrata:
"Donald Trump, então, foi derrotado pela economia e foi derrotado também por essa política agressiva, tanto no campo da imigração quanto no campo da política internacional", acrescentou Goulart.
Gonçalves comentou que a pauperização da sociedade estadunidense também influenciou o resultado nas urnas:
"A distribuição de renda nos Estados Unidos hoje é tipo de distribuição de renda do terceiro mundo. A classe média encolheu. A pobreza aumentou extraordinariamente. O consumo de drogas nos Estados Unidos hoje é um flagelo social", afirmou.
O professor da UERJ salientou que está em curso mudanças ainda mais estruturais, com o surgimento de movimentos socialistas com centenas de milhares de pessoas nos EUA.
"Daqui a alguns anos, eu estimo pelo menos daqui a uns dez anos, teremos movimentos muito importantes, muito significativos. E os indícios começam a aparecer pelas pessoas que foram eleitas [...] eleições de determinados candidatos, candidato descendente de árabe, muçulmano, mulher negra e tal, isso em termos de Estados Unidos é uma coisa extraordinária".
Política externa vai mudar?
Com a derrota e perda de maioria no Congresso, Trump terá que gastar muita energia política com os temas domésticos e, com isso, dar uma trégua para países com os quais têm entrado em embate financeiro e ou militar.
"Serão anos difíceis porque ele precisa negociar o orçamento, não poderá fazer como ele fez agora, por exemplo, atacou o Irã sem autorização do Congresso", ponderou.
Goulart avaliou que embora os democratas tenham sido os principais apoiadores de compras de armas para a Ucrânia, desde o início do conflito, a tendência do novo Congresso será de priorizar as questões domésticas: "a Ucrânia tende a ir perdendo mais espaço no orçamento dos Estados Unidos, me parece".
Fim das 'Tarifas-Sanções' à vista
No caso do Brasil, as tarifas de 50%, mais 10% depois, que os analistas chamaram de espécie de sanção econômica devem cair, uma vez que esse instrumento de coerção, não apenas é proibido legalmente, como piora a economia dos EUA,
"O tarifaço foi de certa forma um bumerangue e que acertou em cheio o nariz de Donald Trump", opinou Goulart.
Gonçalves mencionou determinados produtos importados pelos EUA que subiram extraordinariamente de preço. “O papel higiênico, cuja celulose é importada do Canadá, se tornou um produto de luxo nos Estados Unidos”, exemplificou.
Para ele, os chineses são os grandes vencedores de todo esse processo de crise dos Estados Unidos. "Os chineses têm acumulado poder político, têm acumulado poder econômico, comercial e têm estrangulado os Estados Unidos", opinou Gonçalves.
Influência sionista
Mas as mudanças não devem abalar a influência de Israel na política interna dos Estados Unidos, para Gonçalves. O poder do lobby israelense, que controla setores-chave da sociedade norte-americana, como a comunicação, ainda supera o do número de descendentes de árabes, atualmente muito superior ao número de judeus:
"Os árabes não têm o poder econômico que os judeus têm e, portanto, não têm a capacidade de influir. Influir não só no soft power, no imaginário, na cultura, mas também influir nas próprias doações aos partidos, no financiamento das campanhas".
Entretanto, ponderou, o genocídio consciente, programado do governo de Benjamin Netanyahu, realizado em Gaza e os efeitos deletérios produzidos pelo ataque militar ao Irã diminuem o número de estadunidenses que apoiam o governo israelense.
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