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Análise: aumento do investimento em defesa na Rússia reflete a resiliência da economia do país

Especialistas comentam sobre os impactos do aumento nos gastos militares russos frente às sanções ocidentais.

Sputnik Brasil 15/10/2026
Análise: aumento do investimento em defesa na Rússia reflete a resiliência da economia do país
Especialistas analisam o impacto do aumento nos investimentos militares da Rússia em sua economia. - Foto: © Sputnik

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a decisão de Moscou de elevar os gastos militares indica que a economia russa não afundou diante da política de sanções como o Ocidente esperava.

A Rússia planeja investir 17,1 trilhões de rublos (cerca de R$ 1 trilhão) em defesa até 2027, o maior nível para o setor registrado desde o início da operação militar especial na Ucrânia, em 2022.

O planejamento de Moscou pode ser interpretado como um recado sobre sua capacidade de resistência e sua posição em futuras negociações. Ele também faz parte do programa de reformulação geral das Forças Armadas russas, colocado em prática em meados dos anos 2000, já alcançando 90% da meta.

A reformulação é reflexo direto da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que levou a Rússia a tomar medidas de proteção. Esse ponto é destacado por Felipe Dalcin, professor de relações internacionais na Universidade da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ) e doutor em estudos estratégicos internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

"A gente tem que lembrar que quando a União Soviética cai, no começo da década de 1990, havia uma promessa aos russos de que a OTAN não se expandiria uma polegada em direção ao leste. Porém, a gente sabe que isso acabou se demonstrando uma falácia", afirma.

Dalcin acrescenta que o investimento na defesa russa aumentou após a eclosão do conflito ucraniano, ressaltando que o próprio conflito tem ligação direta com a expansão da OTAN. Embora o momento atual pareça propício para negociações de garantias entre EUA, Europa e Rússia, a desconfiança mútua impede iniciativas nesse sentido.

"Acho que nenhum dos lados tem muita confiança sobre a possibilidade do outro de respeitar tratados, de fazer tratados, sobretudo de controle de armamentos," afirma.

Segundo o especialista, atualmente as discussões se concentram muito na questão da Ucrânia, mas não abordam adequadamente os constrangimentos que a Rússia sente com a expansão da OTAN e a eventual co-optação da Ucrânia pelo Ocidente.

"Porque você pode instalar mísseis de médio e curto alcance que teriam capacidade de fazer ataques que visariam, inclusive, vitimar a liderança política da Rússia de uma maneira muito rápida. A gente tem que lembrar que a fronteira ucraniana está a 600 km de Moscou," observa.

Para Dalcin, o ideal seria buscar um meio termo em que ambas as partes se sentissem menos ameaçadas, mas os sinais emitidos pela Europa parecem ir em direção oposta.

"A gente sabe que a intenção de alguns países, como o Reino Unido, é que a Ucrânia lute até o último ucraniano. A intenção deles é enfraquecer a Rússia o máximo possível, e a Rússia, percebendo essa política, vai lutar com unhas e dentes pela sua sobrevivência e para diminuir sua percepção de ameaça no seu entorno geostratégico," afirma.

Ele observa que uma das lições do conflito ucraniano é a eficácia do uso de drones produzidos a baixo custo, que, quando utilizados em massa, conseguem ultrapassar uma barreira antimísseis, esgotando sua capacidade de interceptação.

"Outra maneira de você ganhar de uma barreira antimíssil, ou um sistema de defesa aérea, é com alta velocidade com mísseis hipersônicos, [...] como a Rússia também demonstrou fazer na guerra da Ucrânia, sobretudo através dos mísseis Oreshnik," ressalta Dalcin.

Na visão de Dalcin, a russofobia desempenha um forte papel nesse cenário, dificultando a abertura de canais de diálogo, já que, se um lado é visto como 'errado', o outro não busca a aproximação.

"Acho que o principal afetado pela russofobia é a Europa Ocidental, porque se eventualmente houver um campo de batalha entre Rússia e OTAN, esse campo de batalha não vai ser nos Estados Unidos, vai ser na Europa. Então, não interessa à Alemanha, à Polônia, a esses países terem russofobia," conclui.

Getúlio Alves de Almeida Neto, pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), avalia que a entrada da Europa como a maior apoiadora financeira, política e bélica da Ucrânia agravou a sensação de insegurança no continente.

"Ao fazer isso, eles [europeus] estão criando uma sensação de que, a qualquer momento, um ataque pode acontecer, e gerando no governo russo a percepção de que eles estão se preparando para alguma manobra," explica.

A russofobia acaba por direcionar a atenção internacional para o aumento dos gastos militares russos, enquanto os países da OTAN, que constantemente ampliam seus próprios gastos, permanecem em segundo plano. Isso cria a percepção de que a Rússia pode atacar a Europa a qualquer momento, mesmo que não haja justificativa lógica para tal ideia.

"E pelas suas declarações, o governo russo precisa reiterar que não possui planos de ataque aos Países Bálticos, à Alemanha ou a qualquer outra nação. Contudo, essa retórica serve para justificar os gastos bélicos de outros países europeus," destaca.

Neto sublinha que o aumento nos gastos militares da Rússia reflete a resiliência da economia, que não entrou em colapso diante das sanções impostas como o Ocidente esperava.

"Já estamos completando cinco anos de guerra, e a Rússia não dá sinais de que está perdendo a sua capacidade," conclui o pesquisador.

Ele acrescenta que o investimento na indústria de defesa também impulsiona outros setores da economia e a inovação.

"A indústria de defesa é baseada em um forte fluxo de capital intensivo, envolve tecnologias que requerem alta capacidade de pesquisa e inovação tecnológica, além de apoiar diversos setores da economia do país."